A partir de hoje, e semanalmente, o Jornal de Brasília inicia uma série especial de entrevistas com as esposas dos candidatos à Presidência da República. A primeira convidada é Fernanda Bolsonaro, esposa do senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL). Ortodontista, Fernanda mantém sua rotina profissional e atende em uma clínica no Lago Sul, em Brasília. Casada há 16 anos com Flávio, os dois têm duas filhas, Luiza e Carolina. De perfil discreto e com trajetória profissional própria, Fernanda acompanha de perto a caminhada do marido e agora passa a ser mais conhecida pelo público em um momento importante da vida política da família.

Durante quase duas décadas de casamento, a senhora sempre manteve uma postura extremamente reservada e longe dos holofotes. Como foi tomar a decisão de subir ao palco na Convenção do PL e assumir um papel de liderança na campanha presidencial do seu marido?
Na convenção, fiz uma fala breve como mãe, esposa, profissional e, acima de tudo, como brasileira preocupada e cansada dos rumos que o nosso país tomou nos últimos anos. Eu não diria que sou uma liderança na campanha. Prefiro me colocar como uma colaboradora, alguém que está aqui para somar. Se eu puder usar a minha voz para ampliar discussões importantes, dar visibilidade a problemas que fazem parte da vida das famílias e contribuir na busca por soluções, já estarei cumprindo o meu papel. O Flávio tomou uma decisão importante pelo futuro do Brasil, e estar ao lado dele também significa participar e contribuir da forma que eu puder.

Na convenção partidária, a senhora declarou explicitamente que “não aguenta mais quatro anos de PT”. O que mais a incomoda no atual cenário político e econômico brasileiro e motivou esse seu posicionamento firme?
O que mais me incomoda é olhar para o Brasil e ver as pessoas com medo e sem perspectiva. A insegurança chegou a um ponto em que o brasileiro muitas vezes não se sente livre nem para andar na rua, usar o celular ou voltar para casa à noite sem preocupação. E, para nós mulheres, é ainda pior. Os casos de violência e feminicídio mostram que muitas mulheres não estão seguras nem dentro da própria casa. Isso é inaceitável e precisa ser tratado como prioridade. Ao mesmo tempo, temos uma economia que sufoca as famílias. O dinheiro acaba antes do mês, as contas pesam e quem trabalha sente cada vez mais dificuldade para conquistar as coisas.
Em suas redes sociais, a senhora definiu a entrada nessa jornada eleitoral como um “propósito recebido de Deus”. Como a sua fé tem guiado suas decisões neste momento de forte exposição pública?
A fé é o que nos guia. Tem um versículo de que gosto muito, Salmo 119:105: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para o meu caminho.” A nossa vida sempre foi conduzida com Deus à frente, e agora não é diferente. É Nele que encontramos força e discernimento para cada passo. Todos os dias peço que Deus guie o Flávio, ilumine seu caminho e o prepare para essa jornada.
A senhora possui uma carreira consolidada como cirurgiã-dentista e especialista em ortodontia. De que forma a sua bagagem prática no setor privado de saúde pode influenciar as propostas de governo do seu marido?
No consultório, a gente aprende que saúde não se faz apenas tratando a doença quando ela aparece. Prevenção, diagnóstico precoce, informação e acesso fazem toda a diferença. O Brasil tem profissionais de saúde brilhantes e um sistema público que atende milhões de pessoas, mas o SUS ainda tem muitos gargalos. O paciente nem sempre consegue o atendimento de que precisa no tempo certo, enfrenta filas, burocracia e, muitas vezes, dificuldade para chegar a um especialista. Isso também acontece na odontologia. Pretendo contribuir justamente com essa perspectiva prática de quem está na ponta: identificar onde o sistema trava, buscar formas de simplificar processos, ampliar o acesso das pessoas a um atendimento de qualidade e valorizar os profissionais de saúde. Quero somar com o Flávio e com as equipes técnicas na construção de uma saúde mais preventiva, eficiente e próxima de quem precisa.
A equipe de campanha indicou que a senhora deve encabeçar pautas voltadas à saúde da mulher. Quais são os principais gargalos e projetos prioritários que a senhora defende hoje para o eleitorado feminino nessa área?
A saúde da mulher ainda tem muitos desafios. Precisamos melhorar o acesso a exames preventivos, reduzir o tempo de espera para diagnósticos e garantir que, quando um problema for identificado, essa mulher consiga começar o tratamento no tempo certo. Também precisamos avançar no pré-natal, na saúde mental e em um atendimento mais próximo das mulheres, em todas as fases da vida. E tem a segurança. Não dá para falar em qualidade de vida sem enfrentar a violência contra a mulher. O Flávio já colocou esse tema entre as prioridades do Brasil Sem Medo, com medidas para endurecer as punições contra autores de feminicídio e agressores de mulheres, além de defender o cumprimento integral das penas.
Como conciliar a rotina de consultório que mantém em Brasília com as viagens e demandas exaustivas de uma campanha nacional?
Exige organização e algumas adaptações, sem dúvida. A odontologia faz parte da minha vida e é uma profissão que amo, mas também quero estar ao lado do Flávio neste momento tão importante. E, acima de tudo, quero continuar presente na vida da Luiza e da Carolina. Elas sempre serão prioridade para nós. Vou reorganizar minha rotina quando for necessário para conciliar a profissão, a campanha e, principalmente, a nossa família.
Cientistas políticos debatem o tamanho do seu alcance com eleitoras indecisas fora da bolha tradicional da direita. De que maneira a senhora pretende dialogar com mulheres de visões políticas diferentes ou que ainda resistem ao sobrenome Bolsonaro?
Primeiro, com respeito. Eu sei que o sobrenome Bolsonaro desperta sentimentos fortes, tanto de apoio quanto de resistência. E eu não espero que nenhuma mulher concorde comigo só por eu ser mulher. O que eu peço é que conheça as propostas do Flávio para o Brasil. Quero conversar, mas também ouvir, principalmente sobre questões que fazem parte da vida real das mulheres: segurança, saúde, trabalho, filhos, custo de vida e independência. O Brasil por Elas, que faz parte do programa de governo do Flávio, reúne 12 propostas voltadas às mulheres brasileiras, desde zerar a fila de creches e incentivar o empreendedorismo feminino até ampliar a proteção de quem sofre violência. Esses problemas não são de esquerda nem de direita. São problemas reais das mulheres brasileiras e precisam ser tratados com seriedade.
Caso Flávio Bolsonaro seja eleito, qual legado e marca pessoal a senhora gostaria de deixar como primeira-dama do Brasil?
Eu nem gosto muito de pensar em “marca pessoal”, porque nunca busquei protagonismo. Quando o Flávio for eleito, quero ser útil e contribuir com um governo que tenho certeza de que será próximo das pessoas e atento aos problemas reais das famílias brasileiras. Quero olhar para trás e saber que ajudei mais mulheres a terem acesso à prevenção e a um atendimento de saúde de qualidade, que mais empreendedoras conseguiram tirar seus projetos do papel e que mulheres em situação de violência encontraram acolhimento e proteção.