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I Love Italian Wines: quando uma taça conta histórias de território, tradição e negócios

Evento na Embaixada da Itália, em Brasília, reuniu produtores, importadores e compradores e mostrou o potencial do vinho italiano no mercado brasileiro

Daiany Nasteoli

17/09/2026 15h23

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Foto: Daiany Nasteoli

Há produtos que consumimos. E há produtos que nos fazem viajar. O vinho italiano pertence, para mim, à segunda categoria.

Uma taça pode carregar muito mais do que aromas e sabores. Pode trazer uma paisagem, uma família, uma tradição, uma região inteira. Foi essa percepção que encontrei no I Love Italian Wines 2026, realizado em 11 de setembro, na Embaixada da Itália, em Brasília.

Em sua 5ª edição, o Road Show reúne cerca de 600 rótulos de diferentes regiões vitivinícolas italianas e passa por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e, pela primeira vez, Curitiba. A iniciativa integra o plano de promoção da ICE (Italian Trade Agency) para o mercado brasileiro e é realizada em colaboração com as feiras Vinitaly, de Verona, e Wine South America, de Bento Gonçalves.

Em Brasília, o encontro aproximou produtores italianos de importadores, distribuidores, compradores, sommeliers e profissionais da gastronomia. Mais do que uma degustação, mostrou como território, tradição e estratégia comercial podem transformar uma garrafa em experiência e oportunidade de negócio.

Uma Itália que ainda pode ser descoberta

Durante a programação, Ronaldo Padovani, coordenador do Setor Agroalimentar da ITA e responsável pela articulação da iniciativa no país, destacou o potencial do mercado brasileiro e a diversidade da produção italiana.

A passagem por Brasília faz parte de uma estratégia mais ampla. Em 2026, a ICE já promoveu a participação de 32 vinícolas italianas na Wine South America, levou cerca de 40 compradores brasileiros à Vinitaly e organizou press trips de jornalistas e influenciadores a regiões produtoras da Itália.

Para Padovani, Brasília cumpre uma função estratégica ao aproximar produtores do trade brasileiro e criar conexões capazes de gerar negócios. São 20 regiões vinícolas representadas no roadshow, o que mostra a dimensão de um patrimônio que ainda oferece inúmeras possibilidades de descoberta ao consumidor.

Essa diversidade fica evidente quando se conhece quem está por trás dos rótulos.

Giuseppe Russo, produtor do Etna, na Sicília, apresentou vinhos de produção limitada que chegam ao Brasil pela Sicilianess, representada por Miguel Donatelli. É o encontro entre pequenos produtores italianos e um mercado que busca cada vez mais produtos com origem e identidade.

No Lácio, Luca Stentella representa uma tradição familiar de mais de sete gerações, com vinhos orgânicos e de mínima intervenção. Sua presença reforça uma tendência: pequenos produtores podem competir não necessariamente por volume, mas por autenticidade, território e história.

Um consumidor mais atento

O Brasil também está mudando sua relação com o vinho.

Dados da Euromonitor apresentados pela ITA apontam consumo de aproximadamente 348,8 milhões de litros em 2024, 17% acima de 2019. Mais do que o crescimento, chama atenção a mudança de comportamento: o consumidor quer saber quem produz, de onde vem, qual é a uva e o que diferencia aquele rótulo.

Lino Fructuoso, da Vino Fructuoso, percebe esse movimento diretamente. Segundo ele, o mercado avança em ritmo acelerado, “de dois em dois, de quatro em quatro”, e tende a crescer ainda mais. Para acompanhar essa evolução, restaurantes e eventos precisam combinar qualidade, inovação e preços justos.

A lógica é simples: quanto mais opções existem, mais importante se torna entregar valor.

Curadoria também é negócio

Nesse cenário, selecionar bem pode ser tão importante quanto vender.

Vitor Hugo, da Bottega do Vinho, apresentou uma curadoria voltada a pequenos produtores e rótulos exclusivos da Calábria. A proposta atende principalmente restaurantes, sommeliers, enotecas e o mercado corporativo, que buscam produtos diferenciados e pouco convencionais.

Cristiano Paroqui, da Rosso & Rouge, destacou que alguns dos rótulos de seu portfólio já abastecem restaurantes estrelados pelo Guia Michelin no Brasil. Em Brasília, viu no evento uma oportunidade de expansão e ressaltou sua visão de que o vinho é alimento e parte essencial da cultura de quem o aprecia.

Já Matteo Carlassara, da The Wine Company, olha para outro desafio: como tornar essa diversidade comercialmente viável no Brasil? Sua empresa reúne produtores de diferentes regiões em uma mesma estrutura, simplificando negociações e logística para importadores.

Em Brasília, apresentou cinco produtores de regiões como Abruzzo, Vêneto, Toscana, Puglia e Marche. Sobre o Brasil, foi direto: “o mercado brasileiro é grandioso”. E espera construir “uma ótima relação com o país”.

Quando duas línguas se encontram

Durante as entrevistas, vivi uma experiência curiosa. Muitas das minhas perguntas foram feitas em inglês, enquanto alguns dos entrevistados responderam em italiano.

E funcionou.

Talvez porque o vinho também tenha essa capacidade de criar uma linguagem própria. Entre uma pergunta, uma resposta e uma taça, estavam presentes diferentes culturas, sotaques e perspectivas de negócio.

No fundo, era exatamente o que o evento propunha: aproximar mundos por meio de uma experiência que começa no território e termina à mesa.

Mais do que uma bebida

O I Love Italian Wines deixou uma mensagem que ultrapassa o universo do vinho.

Em um mercado cada vez mais competitivo, qualidade é fundamental, mas já não basta. Produtos precisam ter origem, identidade, narrativa e capacidade de criar conexão.

No fim, talvez seja essa a força do vinho italiano.

Uma garrafa pode ser pequena. Já o território, a cultura, o trabalho e a história que chegam junto com ela, não.

E quando uma taça consegue reunir tudo isso à mesa, o vinho deixa de ser apenas uma bebida. Torna-se memória, cultura, gastronomia, relacionamento e negócio.

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