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Os Mercadores da Fé

Roubar em nome de Jesus Cristo virou praxe para esses Sem-vergonha. Chamei esse artigo de Os Mercadores da Fé, para fazer uma analogia com O Mercador de Veneza, de Shakespeare

Por Theófilo Silva 31/03/2022 5h37
Os Mercadores da Fé

Confesso que mesmo estando acostumado com a roubalheira escancarada de dinheiro público que acontece no Brasil, sem peias, sem freios, com a complacência do poder Judiciário e, principalmente, da Procuradoria-Geral da República, digo que a entrega do Ministério da Educação pelo presidente da República para um grupo de pastores evangélicos ultrapassou todos os limites do que já tinha visto neste país corrupto, neste país do futuro que nunca chega.

Vejam o que ocorreu: simplesmente dois desses fariseus se aboletaram dentro do ministério e convocaram prefeitos de cidades do interior pedindo-lhes dinheiro, propina, e até um quilo de ouro – ouro ocupa um espaço pequeno na mala, é fácil de transportar –, para liberação de verbas para suas cidades, e isso abertamente, sem disfarces, sem muitas complicações. Roubar em nome de Jesus Cristo virou praxe para esses Sem-vergonha. Na verdade, os “pastores” estão agindo assim com a anuência do ministro, que também é pastor, ao abrir-lhes as portas do ministério, seguindo recomendação do presidente Bolsonaro, que duas semanas antes tinha dito, em discurso para uma plateia evangélica, que ia levar o país para o lado que eles quisessem. E levou mesmo. Cumpriu com a palavra. Eis o resultado.

Pressionado por todos os lados, o ministro Milton Ribeiro pediu exoneração do cargo. Em três anos e dois meses de governo, Bolsonaro já teve quatro ministros da Educação, e tudo leva a crer que logo, logo teremos um quinto. Mas não nos preocupemos, o próximo nomeado deverá ser pior do que o ministro anterior, e continuará seguindo a política de subordinação aos interesses dos “pastores,” afinal trata-se de um ano eleitoral e nada melhor do que agradar, comprar aqueles que tangem rebanhos.

Chamei esse artigo de Os Mercadores da Fé, para fazer uma analogia com O Mercador de Veneza, de Shakespeare, uma das obras-primas do Bardo inglês sobre a importância do estado de direito para o bem-estar de uma nação. A diferença do Mercador de Veneza para um Mercador da Fé, é que o primeiro procura o Estado para defender sua vida por uma dívida não paga dentro do prazo, e o segundo é um sujeito que usa o nome de Deus para se apropriar do dinheiro do Estado, mediante o recebimento de propina. Em O Mercador de Veneza, a justiça é aplicada, a dívida é paga e Antônio, o mercador, salva sua vida. Já o Mercador da fé, brasileiro, se apropria do nosso dinheiro sem que a justiça brasileira o condene por isso. Apenas simula puni-lo, já que a condenação nunca chega.

Outra obra de Shakespeare que descreve o comportamento desses mercadores da fé alheia é Tímon de Atenas. Essa passagem até parece ter sido escrita agora, de tão atual que é. Vejam isso: “Que há aqui? Ouro? Amarelo, brilhante, precioso ouro? Não, Deuses, não sou homem que faça orações inconsequentes! Ó Deuses, para que isto? O que é isto, ó deuses! Isto vai subornar vossos sacerdotes e vossos servidores afastando-os de vós; este escravo amarelo vai unir e dissolver religiões, bendizer amaldiçoados, dar lugar aos ladrões, fazendo-os sentar no meio dos senadores com títulos, genuflexões e elogios”. Foi ou não foi isso que aconteceu no Ministério da Educação?!

Escrevam aí: vai ter denúncia, processos, muita zoada, mas não vai dar em nada. O Estado vai gastar tempo e uma fortuna nos processos, mas lá na frente um ministro de tribunal superior vai anular tudo e pôr a culpa na imprensa e nos agentes públicos que fizeram seu trabalho. Apenas isso. Esse é o Brasil. Quem dá a última palavra não é a justiça, é o Centrão, aquela turma pavorosa que segura Bolsonaro. Pergunto, até quando suportaremos isso?

O Brasil não aguenta mais. Chega!

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