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Lunáticos e insanos

Recentemente, o Brasil foi tomado por hordas de lunáticos que quase incendiaram o país. Essas pessoas criaram um mundo paralelo e mergulharam nele

Por Theófilo Silva 27/04/2023 5h00
Manifestantes invadem Congresso, STF e Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Vejam que pérola de sentença: “Paixão… Torna possíveis as coisas que não são consideradas possíveis. Tu te comunicas com os sonhos… Ages de acordo com o irreal e fazes do nada teu associado”. Está na peça ‘Conto de Inverno’, uma das últimas escritas por Shakespeare, pronunciada por Leontes, rei da Sicília. Leontes está muito feliz porque seu amigo de infância Políxenes, rei da Boêmia, veio visitá-lo. Quem está feliz também é Hermíone, sua esposa, que, por intermédio de Políxenes, saberá como era seu marido na juventude. E o que era para ser uma festa nesse reencontro de velhos amigos muda repentinamente. Na curta permanência de Políxenes, Leontes passa a violentos ataques de ciúmes, que vão crescendo até se tornarem exteriores e agressivos. Ele tem certeza de que Hermione está traindo-o com Políxenes. Seu ciúme chega ao auge, quando enlouquecido pede a um funcionário sábio e leal, que envenene Políxenes, que acaba de voltar para a Sicília. Camilo descumpre a ordem e foge.

Tudo piora quando Hermione aparece grávida. Leontes não tem mais dúvidas, Hermione é uma adúltera, manda prendê-la e submetê-la a julgamento. Mesmo sendo aconselhado por seus assessores para agir com prudência, Leontes, com sua passividade excessiva, sai contaminando tudo ao seu redor. Passado o tempo, eis que nasce uma linda garota, que tem os olhos, a boca, o nariz e o sorriso dele. Não há dúvida, a menina é mesmo filha de Leontes. Mas ele não acredita. Cego à verdade, amaldiçoa a garota, dando ordens para levarem-na para o mais distante possível dele.

O caso toma proporções tão desmedidas, que foi necessário o envio de emissários para consultar o oráculo de Apolo, a única instância capaz de convencer o rei ensandecido. Durante o julgamento de Hermione, chega à resposta do oráculo, que declara Hermione inocente e Leontes um tirano. Mas o estrago já estava feito. O ciúme e o passionalismo de Leontes o cegaram completamente. Seu julgamento do caráter da esposa, e mais ainda, de duvidar da honra do rei de um país amigo, o levaram a um estado de confusão e desespero. Sem contar os enormes prejuízos políticos das relações da Boêmia com a Sicília.
Samuel Johnson diz em seu livro Rasselas, Príncipe da Abssínia que “Toda a força da imaginação sobre a razão é um grau de insanidade”. Quando Shakespeare afirma que, “a paixão age de acordo com o irreal e faz do nada seu associado”, ele nos avisa dos perigos a que estamos expostos quando julgamos preconceituosamente situações desconhecidas. Quando exercemos um papel de liderança, qualquer que seja ele, político, de opinião, ou outros, não podemos agir precipitadamente, irresponsavelmente pois caímos no ridículo ou mesmo na tragédia.

Se a paixão se comunica com os sonhos, então queremos transformá-los em realidade. E quase sempre, isso não é possível. Mais ainda, às vezes as pessoas estão submetidas a ambientes e situações estranhas, sendo possível à perda de contato com a realidade, ainda que temporário. Assim como Leontes.

Digo isso porque, recentemente, o Brasil foi tomado por hordas de lunáticos que quase incendiaram o país. Essas pessoas criaram um mundo paralelo e mergulharam nele. Muitos até diziam que eram extraterrestres, ou que extraterrestres desceriam de seus OVNIs e viriam “salvar o Brasil do comunismo, como se o Brasil estivesse sendo ameaçado por esse sistema político. Muitos desses lunáticos estão presos ou respondendo a processos penais, CPI, tendo suas vidas devassadas pela justiça.

Por muito pouco a democracia brasileira não sofreu um golpe que poderia nos ter causado enormes dores de cabeça. Mas a lucidez da maioria venceu e hoje estamos aqui para contar a história. Que isso sirva de lição para todos aqueles que ousam imitar o rei Leontes!

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