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Os quatro cavaleiros do adoecimento psíquico: Vergonha

Os quatro cavaleiros do adoecimento psíquico: Vergonha

Por: Dr. Carlos Augusto de Medeiros

A vergonha parece ser o mais inofensivo dos sentimentos particularmente prejudiciais à felicidade das pessoas, mas pode, como os outros, trazer muito sofrimento. A vergonha compreende o conjunto de sentimentos advindos do julgamento alheio. Até aí, se parece com a culpa. Porém, os julgamentos éticos e morais, mais importantes na culpa, perdem relevância na vergonha. A vergonha tem mais relação com o julgamento quanto à competência para desempenhar algumas tarefas (apresentar trabalhos, dançar, cantar, paquerar, etc.), assim como, ajustar-se a certas normas culturais como o modo de vestir-se, portar-se à mesa e a aparência física (sobrepeso, acnes, tipo de cabelo, etc.).

O julgamento social é muito contundente na infância e, principalmente, na adolescência. Quem nunca caçoou ou sofreu chacota nessas fases do desenvolvimento pelo desempenho esportivo; pelas roupas; pelos tênis Conga ou Bamba; pelos quilos a mais ou a menos; por acnes; pelo jeito de dançar; por apresentações de trabalho mal sucedidas; por foras em paqueras; e infindáveis outros exemplos. É notório o quando pessoas se regozijam quando presenciam o infortúnio de pessoas com características diferentes às delas próprias, como classe social, orientação sexual, postura política, nacionalidade, etc. O porquê disso requer especulações antropológicas e biológicas que fogem ao escopo desse texto.

O que eu gostaria de abordar hoje são os efeitos que esses incontáveis julgamentos sociais produzem nas vidas das pessoas. A oposição ao politicamente correto se queixa de que não é possível mais fazer brincadeiras, que os ofendidos estão de mimimi, que estão matando a comédia, e de que as pessoas não têm mais senso de humor. Ao mesmo tempo, sustentam que também sofreram chacota na infância e na adolescência, mas que não morreram. Será que não morreram? Mesmo aqueles que não tiraram a sua própria vida ou tiraram a vida de outras pessoas (haja vista os ataques em escolas em Suzano e nos Estados Unidos) em decorrência dessa exposição e julgamento públicos, incontáveis pessoas apresentam transtornos de ansiedade (e.g., síndrome do pânico); transtornos dismórficos corporais (e.g., bulimia e anorexia); transtornos de humor (e.g., depressão); abuso de substâncias (e.g., alcoolismo); insônia, etc. Costumo afirmar que quando alguém sofre com o que você faz, perdeu a graça e deixou de ser brincadeira.

Quem está lendo esse texto pode até achar que eu estou exagerando quanto ao poder da vergonha. Certamente, a vergonha é uma consequência da exposição e do julgamento e pode variar em graus de severidade em diferentes pessoas. Os casos do parágrafo anterior parecem mais extremos, mas não podemos esquecer que os índices de transtornos psiquiátricos tratados com medicamentos estão em níveis alarmantes e em ascendência. Quando levamos em consideração os casos tratados apenas com psicoterapia, a incidência de demandas terapêuticas relacionadas à exposição, ao julgamento social e à vergonha é muito maior.

Como na culpa, as exposições às situações que possam acarretar no julgamento e, consequentemente, na vergonha tenderão a serem evitadas a todo custo. Deixamos de apresentar trabalhos, de paquerar, de dançar em público, de participar de conversas em rodas de amigos e até de sair de casa. A depressão é consequência de uma vida repleta de limitações.

A vergonha, por sua vez, pode atrapalhar o desempenho. Quando somos compelidos a desempenhar tarefas que nos deixam envergonhados, nosso corpo apresenta uma série de alterações autonômicas que prejudicam o desempenho. Muito(a)s estudantes apresentam seus trabalhos de forma brilhante nos ensaios, porém, quando diante de uma audiência, gaguejam, tremem e esquecem as suas falas. Músicos amadores erram acordes no violão ou desafinam em músicas que já tocaram e cantaram incontáveis vezes diante de uma plateia hostil. O mesmo acontece nos esportes. Fora aquelas pessoas que só conseguem dançar e paquerar depois de algumas doses de álcool.

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Ao mesmo tempo, as pessoas que chamamos de “caras de pau”, ou seja, aquelas cujos comportamentos são menos determinados pelo julgamento das outras pessoas e pelo auto julgamento, costumam atingir seus objetivos. Não ligar para a opinião dos outros não é fácil, uma vez que na adolescência a opinião alheia traz muitas consequências práticas. A imagem que temos frente ao grupo, na adolescência, pode abrir ou fechar portas, como convites para festas, piqueniques, bares ou, meramente, ter companhia.

Mas a adolescência ficou para trás. O problema é que muitas pessoas continuam vivendo como se ainda estivessem na adolescência, como se todo mundo continuasse lhes apontando o dedo. Abandonar afetivamente a adolescência significa amadurecer e isso não ocorre sem rupturas. A principal delas é não permitir mais o julgamento como forma de controle do próprio comportamento. Primeiro, é necessário perceber cognitivamente que a imagem que os outros fazem de nós tem pouca implicação prática na vida adulta, com exceção, talvez, do contexto profissional. Perceber isso afetivamente requer a exposição e, mesmo diante do fracasso, reconhecer que as risadas, se é que virão, duram pouco tempo. Todavia, as consequências de não se expor são eternas enquanto não nos expusermos. Metaforicamente, o mal cheiro de soltar um pum involuntariamente em público passa rápido, mas dura a noite inteira ficar num sábado à noite à toa em casa para evitar que o vexame aconteça.






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