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Que diabos é “cringe”?

A cada semana, nos deparamos com temas que, de um jeito ou de outro, nos chamam a atenção. Mas o que diabos é cringe?

Que diabos é “cringe”?

Por Carlos Augusto de Medeiros

Me parece que a moda agora é, para os mais novos, participar e, para os mais velhos, assistir de camarote, uma briga de jovens contra não tão jovens. A antiga expressão: “isso é tão anos 80” foi substituída por “isso é tão cringe”. Mas o que diabos é cringe?

Cringe significa, em termos mais literais, “cafona”, “pagar mico” ou “vergonha alheia”. Recentemente, esse termo tem sido utilizado por pessoas que nasceram a partir do final dos anos 90 (Geração Z) como modo de classificar alguns hábitos de pessoas da geração anterior (Millennials ou Geração Y). Hábitos esses como gostar de Friends e Harry Potter, tomar café e usar sapatilha, por exemplo.

O(a) leitor(a) deve estar se perguntando, “mas qual a relevância de falar desse tema?”. Realmente, para mim, que sou da geração que nasceu nos anos 70, esse debate parece, no mínimo, frívolo. Porém, ele me permite abordar temas relevantes acerca do comportamento humano, como o valor intrínseco dado ao novo em contrapartida à resistência às novidades.

Por que as músicas que estão tocando no rádio são melhores que as que saíram das paradas? Por que um sertanejo universitário é melhor que um Zezé de Camargo e Luciano, por exemplo? Por que uma teoria de ciências humanas da pós-modernidade é necessariamente melhor que uma teoria característica da modernidade?

A novidade, em geral, é maravilhosa. Temos uma tendência a perder o interesse naquilo que já experienciamos diversas vezes. Tentar coisas novas, como novos destinos de viagens, novos sabores de sorvete, novas bandas de música costuma ser uma prática salutar porque certamente expande os nossos horizontes, de modo que temos uma compreensão do mundo muito mais abrangente do que se fizermos sempre as mesmas coisas. Todavia, novas práticas não serão intrinsecamente melhores que as antigas, muito menos, não faz muito sentido práticas antigas, só por serem antigas, justificarem a chacota dos mais novos. Afinal, os jovens da geração Y têm as suas razões para gostarem de Harry Potter e Friends.

Por outro lado, vemos, em gerações mais antigas, o enaltecimento do antigo, com frases do tipo: “no meu tempo era diferente”; “não fazem mais músicas como antigamente”; “os jovens de hoje são tudo ‘Nutella’”. Não resta dúvida de que muitas coisas hoje em dia são muito melhores. Serviços de streaming de vídeo são infinitamente melhores que as locadoras de vídeo, por exemplo. A telefonia fixa era uma forma rudimentar e cara de comunicação ao se comparar com serviços de reunião virtual, pelos quais podemos nos comunicar por áudio e vídeo com pessoas de todo o mundo. Os carros dos anos 80 são infinitamente inferiores aos atuais em termos de recursos, desempenho e economia. Os serviços de streaming de áudio ganham de goleada de toca discos, toca fitas, CD Players e até dos adoráveis MP3.

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É comum vermos argumentos em prol de itens do passado afirmando que eram muito mais duráveis que os de hoje em dia. Geladeiras, máquinas de lavar, carros, relógios, televisores, aparelhos de som, roupas, dentre outros itens eram quase que “para a vida toda”. Reclamam os mais velhos que os aparelhos, utensílios e máquinas de hoje em dia são “todos descartáveis”. De fato, muitos dos itens citados atuais duram menos que os antigos, tanto por serem mais complexos, logo, com mais componentes para dar defeito, quanto por uma concepção da indústria de que é mais lucrativo para ela a troca por um item novo do que o reparo do item antigo.

O que se observa, na realidade, é uma resistência de muitas pessoas ao novo. Nem sempre o novo é melhor, mas, muitas vezes, é. Não se abrir ao novo pode resultar em uma vida extremamente limitada. Muitos colegas professores universitários se recusam a usar aparelho celular, se recusam a aprender a usar os softwares para aulas remotas ou plataformas de disponibilização de conteúdo e comunicação com o(a)s aluno(a)s. Muitos afirmam que do jeito antigo era melhor. Talvez fosse mesmo em alguns sentidos. Todavia, em tempos de pandemia, quem não se permitiu aprender as novidades, praticamente cortou um pedaço significativo da sua vida profissional e pessoal.

As pessoas que se recusaram a utilizar os softwares de reuniões virtuais simplesmente pararam de ver seus amigos e familiares durante a pandemia. Essa história já dura um ano e meio. Pensemos nos impactos disso para a saúde mental dessas pessoas. Para adulto(a)s solteiro(a)s no mercado de trabalho em funções com pouco contato com colegas, paquerar é muito difícil sem os aplicativos de relacionamento ou sem as redes sociais. “Ah, mas só tem boylixo no Tinder”; “bom é o contato olho no olho”; “não tenho paciência para teclar”. Tudo isso pode ser verdade. Mas é a realidade atual dos relacionamentos. Não se abrir a ela pode representar, simplesmente, não se relacionar.

Uma das razões para essa resistência ao novo é a saída da zona de conforto. Ao frequentarmos os mesmos lugares, comermos os mesmos pratos, viajarmos para os mesmos destinos etc. temos condições de prever, com certa segurança, os resultados. Mas fora da caverna, pode haver coisas muito mais bonitas de se ver. Isso é particularmente verdadeiro quando o interior da caverna não protege mais de nada ou quando nossos suprimentos dentro dela já se esgotaram. Devemos nos abrir ao novo sim, mas não porque o velho é cafona, e sim, porque podemos expandir a nossa realidade para muito além do nosso tempo.

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