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“Quando uma paixão se vai…”

O adeus há um tempo passageiro, impetuoso, dramático, prazeroso e doloroso para preparar ou não, um tempo do Amor

Foto: AFP

“Quando uma paixão se vai, e/ a solidão se instala/ Tudo que é sentimental não tem mais importância/ Pra cada novo olhar de amor,o/ coração se cala/ Que os olhos da alma estão/ perdidos na distância/ Fica à sombra do abajur o vulto/ de uma ausência/ Fica a sala de visita sem luz/ acesa/ Dá uma sensação ruim no peito/ de impotência/ E quem vem pra conversar com a gente é a tristeza/ Mas o espinho que ficou da flor/ o tempo corta/ Pois mercê de longa espera o / coração se cansa/ Só que mesmo da poeira de uma folha morta/ Um perfume vago acende uma/ lembrança/ E quando a gente olha o/ espelho vê na realidade/ Atrás da face, a face oculta de uma saudade”

Francis Hime

A apreensão da experiência apaixonada é bela e singela na poética de Francis Hime. Perceba, caro leitor, que quando a paixão termina, restam a saudade e a tristeza e não a depressão. O deprimido seria aquele que nega a perda, não faz o luto e não encara como alguém já escreveu: “a paixão é uma cerimônia do Adeus”. O adeus há um tempo passageiro, impetuoso, dramático, prazeroso e doloroso para preparar ou não, um tempo do Amor. Amar é incluir entre os amantes, as diferenças, a realidade factual e psíquica de cada um, no movimento constante de tolerância às desigualdades. O verdadeiro amor é democrático! A paixão é um estado totalmente narcísico onde a pessoa do Outro não existe, senão como extensão dos desejos dos apaixonados. Nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, versou em um dos seus lindos poemas —“A Destruição”, que  “os amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se vêem./Um se beija no outro/ refletido./ Dois amantes que são? Dois inimigos./ Amantes são meninos estragados/ pelo mimo de amar… / a cobra se imprime na lembrança de seu trilho…/ e eles quedam mordidos para sempre./ deixaram de existir, mas o existido/  a doer eternamente”.

Na visão drummoniana desse poema, diferente da canção poética de Francis Hime, ninguém ama ninguém, e sim, a própria paixão. Na letra de Hime, o fim da paixão prepara a sublimidade do Amor, na elaboração do narcisismo, do luto e na esperança de uma transformação que é base de uma relação mais estável, menos destrutiva, mais civilizada, onde a violência da posse, a ausência do sentimento de alteridade, nega a pessoa da relação, pois não há relação. Há a insistência à procura do “gêmeo imaginário”, a outra parte perdida, melancolicamente sofrida na separação do primeiro “objeto”, a pessoa da Mãe. Os humanos odeiam a separação, quando essa é sempre vivida como abandono e não como prelúdio da autonomia. O ódio como resposta ao fim da Paixão, é algo insuportável e profundamente doloroso, pois “como ela ou ele” não se submetem aos caprichos dos desejos perversos, alucinatórios de uma relação “homossexual” no sentido metafórico? A “heterossexualidade”, entendida como (metáfora) é parceria, complementação, junção do feminino/masculino como uma dupla fecunda que só poderá ser desenvolvida, se as partes do conjunto elaborarem a transformação da fêmea em feminino e do macho em masculino. Caso contrário serão dois inimigos mordidos pela cobra numa caça de “coisas inumanas”, pessoas que lutam desesperadamente por “uma vagina e um pênis” que se degladiam pela luta pelo poder.

Numa entrevista brilhante de Clarice Lispector a Hélio Pellegrino, nossa querida Lispector diz: Diga, sem elogios, você que é psicanalista e me conhece, quem sou eu? Pelligrino responde: “Clarice, você é uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente seu Self – centro nuclear de confluência e de irradiação de força — e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, Sol e Lua. Quando conseguir — e este é trabalho de uma vida—descobrirá em você o masculino e o feminino, o côncavo e o convexo, o verso e o anverso, o tempo e a eternidade, o finito e a infinitude, o yang e o yin; na harmonia do tao—totalidade. Você conhecerá homem e mulher —eu e você: nós”.

Diga-se de passagem, que em toda a sua obra, e em todos os seus personagens femininos( foram predominantes), Clarice nunca teve uma atitude apaixonada e feminista(sentido extremista). Sempre tratou as mulheres e os homens sem partidarismo festivo, extremado, e sim com muito respeito pela “escravização da mulher em função da violência machista” pregando o direito das “Macabéas”. A paixão e o amor em Clarice, conseguem reconhecer de um modo belíssimo, o “inumano” tanto no homem quanto na mulher, inclusive quando come a “Barata”, na “Paixão GH” concluindo dolorosamente o “bicho” que temos dentro de nós todos, humanos. Jamais Clarice, penso eu, concordaria com a moda atual dos extremos opostos. É hora de resgatarmos o “casal parental ”fecundo, criativo e disposto a Amar/Odiar sem aspectos perversos e destrutivos.

“Quando uma paixão se vai…” para adentrar no Amor.

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Carlos de Almeida Vieira Médico, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade de Psicanálise  de Brasília, Analista Didata; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Internacional de Psicanálise (Londres).








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