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Psicanálise da vida cotidiana

Ode a um pai!

Uma experiência mais que dolorosa quando aos quinze anos de idade me falta uma pessoa indispensável para servir de exemplo de identificações

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Por Carlos Vieira

Sessenta anos se passaram após eu ter perdido meu amado pai. Uma experiência mais que dolorosa quando aos quinze anos de idade me falta uma pessoa indispensável para servir de exemplo de identificações. É evidente que essa não é uma questão central dessa narrativa, pois já havia e ainda há, na minha pessoa, uma presença forte, estável, amorosa, internamente. Meu pai foi e é uma figura que vive até hoje em minha alma. “Está morto, que importa? Inda madruga/ seu rosto, nem triste nem risonho,/ é o rosto antigo, o mesmo./ E não enxuga suor algum, na calma de meu sonho”, poetou Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Encontro”.

O dia de sua morte foi um 12 de outubro, curiosamente o dia da criança. Ouçamos meu solilóquio: “Seus negros olhos, sua fisionomia que alternava autoridade e leveza afetiva, escondidas por detrás dos seus óculos, suas roupas de cáqui, linho branco brásperóla e seus imponentes ternos de tropical inglês. Fazendeiro, plantador de cana de açúcar, austero, mas respeitoso com seus empregados, sempre no momento das nossas andanças a cavalo, contava-me histórias de cunho ético. Por exemplo, certa ocasião nunca esquecida por mim, ele afirmava com contundência que a palavra de um homem sempre era mais digna e verdadeira do que a astúcia de uma nota promissória. Quem assina, duvida em pagar!” “Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!/ Faz casas de silêncio, e suas roças/ de cinza estão maduras, orvalhadas”, ainda poetou Drummond.

Em seu leito de morte, após sofrer oito meses definhando seu belo corpo, consequência de um câncer de estômago, Bernardo, seu melhor amigo, ao visitá-lo disse: “João, olha o Cristo na parede, aquele sofreu muito por todos nós”, ao que ele retrucou: “sofreu, mas foram três dias, eu me retorço nas minhas vísceras se deteriorando durante oito meses”, dando um sorriso magro, mas sábio.

No dia de seu velório, na sala de estar, o pároco cantava em latim músicas de réquiem. As notas escuras de um Sol menor se entrecuzavam com melodias em ritmo de adágios, criando um clima belo e triste como que representando a chegada de sua alma aos céus. Minhas lágrimas se espalhavam por todo o meu rosto, mas o sal deixa as marcas gostosas de um amor que até hoje habita em minhas veias e artérias. Que saudade pai, que tenho do seu jeito paradoxal de um fazendeiro, de curso primário, mas que me fazia comprar discos de jazz, orquestras americanas que ele ouvia todas as noites na casa da fazendo através de um elegante rádio transglobo da Philco!

Nunca lhe esqueci, a cada dia que passa, mesmo sentindo sua forte ausência, a sua presença é constante dentro do meu ser-no-mundo. A falta é grande, pois ainda sinto a necessidade de ter uma voz ao meu lado que continue a contar as histórias e os conselhos de um homem ético, valente, trabalhador, ousado que sabia usufruir da vida, principalmente nos dias de Carnaval, as únicas férias que tinha, com sua camisa de seda, sua calça de linho, sua toalhinha no ombro a deliciar as brincadeiras com as lanças perfumes da Rhodia. Corre o tempo, infinito enquanto dure, o seu exemplo de um homem amoroso. Sessenta anos de presença constante!

 


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