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Psicanálise da vida cotidiana

Escrever, uma arte?

Onde quero chegar não sei, só sei que minha escrita só tem valor para mim se sair do pessoal em direção a um público que possa não ler meu escrito

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Por Carlos Vieira

Até agora não sabia o que queria escrever hoje. Escrever uma coluna, uma crônica. Um pequeno ensaio para um jornal eletrônico é sempre uma ousadia, um desafio, uma capacidade de remoer minhas vísceras psíquicas em procura do quê? Não sei. Não me agrada muito a escrita por encomenda, elejo sempre a minha intuição, e toda vez que sento em frente ao computador sou enredado por um branco, um vazio. Isso é bom, é desafiante, pois me obriga a esperar duas coisas essenciais: os estertores de uma intuição que começa a surgir e a liberdade da livre associação de ideias.

Onde quero chegar não sei, só sei que minha escrita só tem valor para mim se sair do pessoal, do autobiográfico em direção a um público que possa não ler meu escrito, mas se lê nele, caso contrário, como dizia Borges, o argentino, e Clarice, nossa diva, a arte não seria arte.

Às vezes caio no abismo do branco, do vazio, do não pensamento, do não ter ideia. Isso me fascina, me angustia, mas é do nada que sai alguma coisa criativa. Ninguém escreve o que já sabe, até porque não se sabe de nada. A escrita é uma maneira de apreender a realidade interna do ser-no-mundo assim como o seu contexto histórico e social. Para isso, há que se ter uma apreensão estética e um sentimento de empatia com a humanidade. Quem são os personagens de uma escrita senão nós mesmos? Há uma linha tênue entre o escritor, o narrador e os personagens. A escrita se faz na dor, na dor humana. Os grandes mestres, os maiores romancistas sempre mostram que suas obras saiam das dores do mundo mais do que das alegrias.

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“Amor, doença e morte, os elementos noturnos da mística romântica, mitos gregos, culto fálico, efebolatria e nostalgia da beleza unem-se numa poesia de tétrico ânimo de decadência e sombrio reconhecimento do perigo teísta do espírito ocidental… Ambíguo é o belo, a forma, ambíguos são todos os entendimentos, ambíguo é o amor, mas antes de tudo o ente humano”, escreveu Anatole Rosenfeld em seu ensaio Um Esteta Implacável sobre a maravilha de obra de Thomas Mann, um dos maiores escritores do início do Sec. XX.

Escrever é isso, uma experiência difícil, dolorosa. Raramente leio o que escrevi após sua publicação. Quem sabe não teria escrito! Mas, vale a pena, apreender de dentro da gente alguma coisa que o leitor possa se identificar e pensar. Não gosto de ser lido por simples consumismo literário, o que não é nada literário.

Escrevo esperando intuição e inspiração e aproveito sempre nos meus escritos fragmentos de autores que me fizeram ler a minha intimidade. “E o ato de criar é fidelidade aos sonhos. Se não acreditamos neles, como acreditaremos em nós”, disse um dia nosso escritor, Carlos Nejar.


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