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Psicanálise da vida cotidiana

A importância do Sonhar

Nos sonhos mostramos e entramos em contato com nossa “loucura pessoal”, com nossos impulsos e desejos, os mais contraditórios e enigmáticos

Carlos de Almeida Vieira

Publicado

em

Foto: Reprodução
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“Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, mas somente as de verão
Mas no fundo isso não tem importância.
O que nos interessa mesmo não são as noites em si, são os sonhos.
Sonhos que os homens sonham sempre
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano,
Dormindo ou acordado.”
William Shakespeare

Após sua publicação em 1900 do livro “A interpretação dos sonhos”, S.Freud, ousado e corajoso, mostrou ao mundo um novo vértice para olhar a função do sonhar e sua finalidade. Afirmou que os sonhos são o guardião do sono e além disso, realizações de desejos proibidos que, quando acordados não podemos concretizá-los. Criou assim o método psicanalítico de interpretar os sonhos de seus pacientes, inclusive a partir dos seus próprios sonhos, quando de sua auto análise.

Nos sonhos mostramos e entramos em contato com nossa “loucura pessoal”, com nossos impulsos e desejos, os mais contraditórios e enigmáticos. Sonhamos voando, agredindo, sendo perseguidos, ameaçados de agressões e morte. Sonhamos realizando desejos amorosos com quem nos proibimos e são às vezes proibidos durante a vigília. Sonhamos com alegrias, com tristezas, com pessoas queridas que já se foram e com projetos futuros. Sonhamos dormindo e talvez, mais do que isso, sonhamos mais, acordados. A vida quem sabe é um grande sonhar, entre o nascer e morrer! “A cada homem é dada, com o sonho, uma pequena eternidade pessoal que lhe permite ver seu passado próximo e seu futuro próximo”, afirmou J.L.Borges em seu ensaio – O Pesadelo, no livro Sete Noites de 1980.

E o que falar do pesadelo? Esse estranho sonho que não termina, que é interrompido quando parece que vai se concretizar. O pesadelo é sempre acompanhado de angústia, o pesadelo é uma experiência de temor, de terror, que nossa mente com seu recurso nos acorda em tempo. Há também o pavor noturno: experiência de um sono interrompido, abruptamente, que a pessoa ao acordar em pânico geralmente não lembra. Em suma, temos os sonhos sonhados, os pesadelos, sonhos interrompidos e a crise de pavor noturno.

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Sonhar tanto dormindo quanto acordado é um recurso que nossa mente tem para elaborar conflitos inconscientes e angústias existenciais. Os sonhos infantis criam um mundo de ficções, de identificação com ídolos para que a criança tolere lidar com sua pequenez, com suas limitações e suas necessidades de ter objetos de idealização. Sonhar é também brincar, é criar um espaço mental de ilusão necessária para o desenvolvimento simbólico. Ter capacidade de sonhar, de devanear, reflete um aspecto sadio e desenvolvido de uma pessoa. Há quem não consegue sonhar, por ser uma pessoa muito exigente e crítica consigo mesmo, por ter sempre a necessidade de controlar sua própria mente. Aliás, diga-se de passagem, existem indivíduos que têm medo de dormir, pois dormir é sair do controle consciente, é viver algumas horas numa “morte sana e criativa”, necessária para o restabelecimento das funções fisiológicas e psíquicas. Dormir, sonhar e quem sabe, acordar ou morrer, ensinamento que abstraímos de Hamlet. “ Para o selvagem ou para a criança, os sonhos são um episódio da vigília; para os poetas e místicos, não é impossível que toda vigília seja um sonho. Isso é dito, de modo seco e lacônico , por Calderon: a vida é um sonho. E é dito, já com uma imagem, por Shakespeare: “somos feitos da mesma matéria de nossos sonhos”; e esplendidamente, é dito pelo poeta austríaco, Walter Von der Vogelweide… “Sonhei minha vida ou foi realidade?”lembra-nos novamente Borges em seu ensaio acima mencionado.

Sonhar, acordado ou dormindo é uma função maior, estética, da nossa mente, importantíssima para que sobrevivamos às questões dolorosas e pesadas da realidade concreta.

Um Sonho
Depois de ler o episódio de
Paolo e Francesca, em Dante

“Como Hermes voou com suas penas, levemente,/ Quando Argos, aturdido, desmaiou e dormiu,/ Assim, na flauta délfica, esta alma indolente/ Assim encantou, assim venceu, assim extinguiu/ Os cem olhos de nosso mundo, este dragão,/ E assim fugiu, ao vê-lo adormecido,/ Não para o Ida de céus frios de neve, não,/ Nem para Tempe, que já viu Jove sofrido:/ Para o segundo círculo do Inferno, antes / Onde em redemoinho, na lufada – ou no tufão / De chuva ou gelo, não precisam os amantes/ Dizer suas mágoas: lábios pálidos vi então,/ E pálidos beijei, bela forma com a qual / Flutuei, ao léu daquele triste temporal.” Poema de John Keats (1795-1821) poeta londrino.

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