Jornal de Brasília

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Psicanálise da vida cotidiana

Angústia

A vida vem com a angústia do nascimento também pelo fato de que nascer aponta para o imprevisível, para o mistério e a incerteza

“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.

Graciliano Ramos

Angústia, ansiedade para outros autores, é um grito surdo, às vezes agudíssimo, outras vezes de urros, na vivência de sensação de morte física e psíquica. Angústia, um sinal de alarme, como afirmou Freud, apontando para uma dor que precisa ser contida ou não, na alma de cada um. Contida às vezes pelo mecanismo do  recalque, deixando no inconsciente a marca simbólica do tema da dor; outras vezes, refletida num sonho, por absurdo que pareça, mas mostrando ou apontando para uma solução de leitura poética, como é a linguagem onírica.  Nossos sonhos são recursos de elaboração de conflitos! Angústia, uma dor, uma dor mental, inicialmente preocupante na medida em que nos coloca diante de nós mesmos, como um espelho que reflete um sofrimento ainda não nomeado,  que evidencia um conflito, um desespero, uma experiência psíquica intolerável e um trauma, geralmente ocorrido na infância. O Eu diante do próprio Eu, vivendo torções no âmago da alma, significando que alguma coisa não está bem dentro desse próprio Eu. 

Angústia, o primeiro sinal de vida de um bebê, saído de um estado supostamente sem dor — a condição uterina — ainda que hoje saibamos que o útero não é mais um “paraíso”. A angústia do nascimento é uma angústia de separação, e a angústia de separação vai ser o modelo básico pelo resto da vida, pois nascer é deixar para trás o “elo perdido” e, talvez a vida seja essa busca incessante para resgatar o que se perdeu — a união, fusão com alguém que até prove o contrário trazia conforto, segurança e sensação de plenitude.

Flores da noite, abri vossos olhos, recebei a essência do viajante” versa o poeta Lúcio Cardoso; o nascimento é, às vezes, uma “experiência áspera como nos lembra Graciliano;  Guimarães Rosa, na fala de Riobaldo chega a afirmar que não tinha mais medo de viver e de morrer, medo mesmo era medo de nascer. A vida vem com a angústia do nascimento também  pelo fato de que nascer aponta para o imprevisível, para o mistério e a incerteza. Seremos recebidos bem, com amor, com acolhimento? Seremos considerados como um peso nas costas dos pais, que às vezes conceberam por acaso, sem saber, sentir e pensar o que é gerar uma vida? Nascemos de mães generosas e também somos filhos de mães desastrosas, destrutivas, e às vezes sem capacidade de desenvolver amor. Angústia do “caminhante”, que ainda caminha pelas pernas dos outros; angústia do desesperado buscando um “amor de salvação” quando não se tem certeza que a outra pessoa se dispõe e tem competência para amar um ser fragilizado. Sempre penso que somos todos adotados, pois nossos pais nunca foram pais antes de nascermos; maternidade e paternidade é uma função a ser desenvolvida por mais amorosos que sejam nossos genitores.

O homem nasce num estado de “solidão fundamental”, será lucro e sorte se alguém receber o infante com amor e generosidade e não por obrigação maternal ou paternal. A relativa saúde mental está na razão direta da crença de que: necessitamos confiar que teremos alguém na vida que esteja sempre à nossa disposição caso seja necessário, ainda que seja uma fantasia. Isso tem coerência e  somos levados a pensar que, quem cria a idéia de “porto seguro”; do “resgate do elo perdido”; do encontro na  de uma Beatriz, como Dante cantou em versos, é por causa da angústia do abandono, da solidão e da condição vulnerável do Ser.

Ao terminar essa crônica, prezado leitor, olhei para minha estante e, como um bebê procurando um seio que o fizesse feliz, achei um livro de poesia. Sabe de quem? Gilberto Freyre, nosso pensador maior das questões sociológicas do nosso Brasil e, principalmente do nosso Nordeste! O nome do livro: “Gilberto Freyre, talvez poesia”, publicado pela Editora Global. Ali vi um poema que fecha esse momento, e que aponta para um alento menos angustiante  em nossas vidas: “Dadade.

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Dadade Felicidade

Escrava de velha avó

Quando conheci eu menino

Com o nome Felicidade

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Abreviado em Dadade

Alegre como ela só

Feliz de manhã a noite

Falando rindo dançando

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Recordando velhos dias

Sem o menor amargor

Fiel ao nome Dadade

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Ao nome Felicidade”.

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Por Carlos de Almeida Vieira

Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade de Psicanálise de Brasília;   Membro Efetivo da Sociedade Brasileira da Sociedade de São Paulo,.Full Member da Associação Internacional  de Psicanálise.






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