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Muito Prazer, Luisa Miranda
Muito Prazer, Luisa Miranda

Quantidade ou qualidade?

Afinal, o que é sexo pra você?

Lu Miranda

19/07/2023 16h59

Arte: Lu Miranda

É absolutamente comum as pessoas procurarem terapia para falar da frequência da relação sexual. Normalmente os homens querem mais quantidade, e as mulheres, qualidade e conexão — obviamente com suas exceções. Para ilustrar melhor, gostaria de trazer o caso de João (nome fictício).

João, 42 anos, buscou terapia porque sua parceira não transava com ele na quantidade que ele considerava adequada: três vezes por semana, pelo menos. A relação já tinha 10 anos, e o casal tinha três filhos. João vinha para a terapia para tentar compreender melhor o porquê de sua parceira não demonstrar gostar tanto de sexo quando ele. “Como ela pode não querer algo que é tão relaxante e gostoso? Não consigo entender”, trazia ele, indignado quase toda sessão.

João e sua parceira estavam inadequados do ponto de vista de regularidade sexual. Mas, geralmente, o que se passa despercebido é que essa inadequação é apenas a ponta do iceberg, uma das várias consequências da diferença de criação e educação de meninos e meninas quando o assunto é sexualidade e prazer. Meninas são criadas tendo filmes românticos como inspirações; já os meninos crescem à base de pornografia e filmes de lutas. Combo bom para dar ruim.

Diante disso, o que João não percebia era que ele estava olhando apenas pelo próprio ponto de vista — o de um homem branco hetero cis. Todavia, quando a relação (e nesse caso, o tesão) envolve outra pessoa, tentar enxergar por outro ângulo é uma excelente maneira de entender melhor as descobertas sexuais.

Sexo é um comportamento aprendido, isto é, cada um vai entender, sentir e colocar na prática de formas diferentes. Cada um vivenciando a experiência passando pelo corpo a seu modo, com suas belezas e angústias (que inclusive podem trabalhadas durante o processo terapêutico, fica a dica). Entender, por exemplo, o que a religião da pessoa com quem você se relaciona diz sobre as práticas e desejos sexuais, ou ainda levar em conta os valores familiares dela e como eles refletem nas demonstrações de afeto podem ser de grande valia. Pergunte. Use de filmes, posts e matérias sobre o assunto para inspirar seus questionamentos. Pode ser difícil, mas lidar emocionalmente com as dúvidas também não é a coisa mais fácil a ser feita. Então, confia e vai.

Eu sei que pode ser difícil falar sobre o passado. Imaginar a pessoa que você gosta fazendo coisas sexuais com outras pessoas pode ser bem denso, doido, mas precisamos entender que normalmente ela também tem uma bagagem, que é absolutamente importante quando falamos de sexo. Mas por qual motivo?

O passado daquela pessoa vai dizer muito sobre como ela lida com as questões atuais. Nosso presente é baseado no nosso passado; se tivemos experiências sexuais ruins ou boas, muito provavelmente isso vai transbordar na relação atual.

Uma coisa neste caso específico que gostaria de trazer é que não houve muita participação da parceira de João nas consultas (muito provavelmente por receio de ter que lidar com coisas novas que ela não sabia que eram uma questão), o que prejudicou um pouco o alinhamento de conhecimentos e expectativas sobre o assunto. O meu temor, por não ouvir o ponto de vista dela sobre tudo isso, é que ela fizesse sexo apenas para agradar o marido, e que manter uma frequência que o satisfizesse era muito necessário para a continuidade do casamento.

Complexo, eu sei, mas verdadeiro.

Falar de sexualidade e saúde sexual e tentar sair do que é considerado normal e anormal é abrir possibilidades para algo mais amplo, que envolva um prazer saudável para ambos, proporcionando mais consciência, satisfação e leveza. E também entender que sexo não é apenas penetração. Que é possível manter uma frequência alta de intimidade sexual e não necessariamente transar todos os dias, assim como ter sexo dia sim, dia não, e praticamente nenhuma intimidade emocional com a sua parceria. O que você prefere?

Não existe necessariamente certo ou errado quando falamos de frequência sexual. O mais relevante aqui é o casal estar conversando e respeitando suas necessidades, demandas e emoções. Vai ser fácil? Não. Mas também não precisa ser difícil o tempo todo, né?!

Confie em você.

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