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“Metade do nosso sexo gostoso sou eu”

Uma reflexão sobre o prazer feminino e a culpa

Por Lu Miranda 04/10/2023 5h09
Arte: Lu Miranda

Maria (nome fictício) me procurou para falar da sua vida íntima. Ela tinha apenas 32 anos, não sentia mais prazer no sexo, no trabalho e em outros aspectos da vida. Vivia sobrecarregada grande parte do tempo e mal tinha espaço no dia a dia para pensar em si mesma. Quando tinha algum tempo livre, usava para as outras pessoas ao seu redor, e quando não o fazia, se sentia uma má mãe, filha, esposa, amiga e colega de trabalho.

Casada e com uma filha de 4 anos, Maria percebeu suas expectativas frustradas durante o relacionamento amoroso, porque, diferente do que imaginara, passava grande parte do dia sem apoio emocional do marido, que não entendia como era difícil esse seu novo papel materno.

A filha veio de repente, afinal, já estavam casados e o uso da camisinha era desnecessário, segundo ela mesma. Maria até queria ser mãe, mas antes queria aproveitar a liberdade de sair da casa dos pais e se divertir bastante, se soltar sexualmente com sua parceria, beber, dançar, cantar. Viver o que não havia vivido até o momento.

Contudo, se surpreendeu quando percebeu que sua liberdade e felicidade em ser autêntica incomodava seu novo marido. Ela, agora mãe, tinha que se comportar, afinal o que iriam penasr de uma mãe que sai para se divertir com as amigas?

Viver para a família e para o parceiro ainda é uma realidade comum. E está tudo bem, desde que se entenda como esses modelos patriarcais afetam as relações entre gêneros. A mulher que praticamente renuncia a si para viver outros papéis é reforçada pelo contexto e julgada caso faça o contrário.

Mas por que é um problema olharmos mais para nós mesmas?

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Desde cedo, a realidade patriarcal falocêntrica dificultou nossa relação com o nosso corpo e nosso prazer. Para nós, diferente de como funciona para homens cis, tocar o próprio corpo e agir com autenticidade e espontaneidade é uma ofensa. Afinal, se usamos do tempo para nós, significa que estamos deixando de fazer outras coisas que enaltecem o masculino. Que coisa, não?!

“Autocuidado, academia, sair para jantar, se divertir, claro que pode. Mas dentro das regras sociais, hein Não vá passar dos limites!”

Aquilo que chamamos de autocuidado, como, por exemplo, ir ao salão, fazer as unhas, ajeitar os cabelos, ainda é um modelo que reforça o padrão de estética. Ou seja, a mulher que opta em não seguir esses padrões, muito provavelmente será julgada por homens e mulheres e tida como uma pessoa com menos valor, o que absolutamente não acontece com o gênero masculino. Um absurdo, né?

Precisamos ser magras, gostosas, divertidas, interessantes, bonitas… mas não muito inteligentes. Mulher inteligente incomoda, questiona e fala demais.

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Maria é do tipo inteligente, mas não foi incentivada a falar sobre o que sente e pensa, e por conta disso, não tem dimensão da sua capacidade como mulher e pessoa. Sua mãe também era uma mulher inteligente, mas assim como Maria, não tinha voz em casa.

A culpa aparece diariamente na vida de Maria. Ela aprendeu a se culpar por querer ficar mais na cama após uma noite mal dormida, assim como aprendeu a se julgar inferior por não ter condições nem tempo para ir ao salão com frequência.

O corpo mudou, sua mente mudou. Sua vida inteira mudou.

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Mas seu marido ainda quer que ela tenha a mesma disposição sexual do auge da expectativa da época de casamento. Ele quer a vida “felizes para sempre”.

Metade do sexo gostoso deles era ela. Hoje, metade do sexo gostoso não existe mais, porque ela finge.

Finge se entregar.

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E ele, que tanto a ama, finge não ver como é estar no lugar dela.

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