Finalmente eu joguei Mixtape, e preciso falar sobre ele, inclusive sobre toda a polêmica que o cerca.
Lançado em maio pela Beethoven & Dinosaur, a mesma desenvolvedora de The Artful Escape, e publicado pela Annapurna Interactive, responsável também por títulos como Stray, Cocoon e Outer Wilds, o jogo chegou cercado de expectativa, mas confesso que eu não fazia parte dessa galera.
A história se passa em Blue Moon Lagoon, nos anos 90. Stacey, Stanley e Cassandra são os três melhores amigos vivendo o último dia juntos antes de Stacey partir para Nova York em busca do sonho de se tornar supervisora musical, alguém que cria trilhas sonoras para conteúdo audiovisual. Ela está no comando da playlist de cada instante desse dia, e é aí que o jogo encontra sua alma.
Os três personagens são bem construídos: Stacey é movida pela música como quem respira. Stanley é o humor leve do grupo, compositor que nunca mostrou suas músicas para ninguém porque usa da desculpa de que “ainda não está pronto”. Cassandra, por sua vez, carrega toda a aparência de popular bem-sucedida, lida com a rigidez de um pai superprotetor e busca, acima de tudo, liberdade para suas próprias escolhas. É nessa camada humana que o jogo se sustenta.
As polêmicas
Mixtape acumulou críticas dos dois lados, e vale separar o joio do trigo.
A acusação de que “não é um videogame” não me convence. Videogames são arte interativa que nos imergem em histórias, e Mixtape faz exatamente isso, ainda que com mecânicas simples e não punitivas. A intenção aqui não é desafiar o jogador, mas envolvê-lo emocionalmente. Para quem busca complexidade de gameplay, sim, vai se decepcionar, mas isso diz mais sobre preferências pessoais do que sobre a qualidade da obra.
A nota máxima dada pela IGN gerou indignação, mas é preciso lembrar que grandes publicações contam com múltiplos críticos com perfis e gostos diferentes. Aquela nota representa a experiência de uma pessoa, e está tudo bem que ela tenha amado. A pergunta mais honesta é: por que ainda incomoda tanto amarmos ou não um jogo?
Sobre ser ou não ser indie: a Annapurna Interactive tem como uma de suas sócias Megan Ellison, filha do fundador da Oracle. Houve alegações de que dinheiro robusto teria sido usado na aquisição do catálogo musical e até de que críticas positivas teriam sido compradas. Não sei se há verdade nisso, mas caso haja, indie de fato não é, o que não muda em nada a experiência de quem jogou e se emocionou.

Por que eu amei?
Faço parte do time que saiu encantado. Mixtape me abraçou de um jeito que só faz sentido para quem viveu aquela virada de milênio, e não, não vivi isso nos EUA, mas vivi através dos filmes e séries que acompanhava, e eles geram memória afetiva.
A paleta de cores quentes, aquele dourado de fim de tarde que eu chamo carinhosamente de “quentinha”, cria uma atmosfera de aconchego que complementa cada cena. A arte dos personagens e do mundo é linda. E a música, claro, é o coração do jogo: a cada momento significativo, Stacey quebra a quarta parede e anuncia a trilha daquele instante, seja como comentário ou como sentimento em tempo real. Saí do jogo já procurando a playlist no Spotify.
Os momentos jogáveis são simples, como descer uma ladeira de skate, controlar fogos de artifício no ar ou guiar o Slater em estado duvidoso, mas são exatamente onde o jogo brilha em transformar ação em emoção. Há também explosões de carros. Você vai entender quando jogar.
A montanha-russa emocional da história, com sua alegria, tensões, brigas inesperadas, humor leve e amizade verdadeira, é o que faz Mixtape valer cada hora em Blue Moon Lagoon.
O jogo está disponível para Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.