A poeira da Copa do Mundo mal baixou e três dos maiores clubes do futebol brasileiro voltaram ao noticiário por um motivo nada honroso. Corinthians, São Paulo e Santos viraram notícia internacional não por títulos ou grandes contratações, mas por dívidas não pagas. Os três foram atingidos pelo chamado Transfer Ban da FIFA, punição que impede o registro de novos jogadores enquanto as pendências financeiras não forem resolvidas.
Para instituições centenárias, com receitas milionárias e torcidas gigantescas, aparecer na lista de inadimplentes da entidade máxima do futebol representa uma humilhação pública. É o equivalente esportivo a tentar pagar uma conta com o cartão corporativo e receber, diante de todos, a mensagem de “transação não autorizada”. Na prática, os clubes entram no que muitos dirigentes já chamam, de forma bem-humorada, de verdadeiro “SPC da FIFA”.
O Transfer Ban é aplicado quando um clube deixa de cumprir compromissos financeiros assumidos na contratação de atletas. O credor aciona a FIFA e, após o devido processo, a punição entra em vigor. Enquanto a dívida não for quitada, o clube fica impedido de registrar novos jogadores, podendo sofrer a restrição por até três janelas de transferências.
Na vida comum, seria como comprar um produto parcelado, deixar de pagar as prestações e descobrir que o nome foi negativado justamente quando surge uma emergência. No futebol acontece algo semelhante: a diretoria atrasa o pagamento de uma contratação e, quando precisa reforçar o elenco, percebe que está impedida de inscrever novos atletas.
No Corinthians, a punição decorre da contratação do volante Charles junto ao Midtjylland, da Dinamarca. O negócio foi fechado por 1,6 milhão de euros, mas a última parcela, de 800 mil euros, não foi paga no prazo. Além do débito, o clube ainda terá de desembolsar uma multa de 200 mil euros, valor que poderia ter sido evitado com o simples cumprimento do contrato.
No São Paulo, o problema envolve a compra do meio-campista Marcos Antônio, da Lazio. O clube deixou de quitar uma parcela de 1,05 milhão de euros e acabou sendo punido pela FIFA. A diretoria ainda tentou acelerar o registro de reforços na CBF antes da efetivação do bloqueio, numa corrida contra o tempo para minimizar os prejuízos esportivos.
Já o Santos recebeu o Transfer Ban por causa da contratação do meio-campista Jean Lucas, adquirido junto ao Monaco. O clube deixou de pagar a terceira parcela, de 2 milhões de euros, tentou reverter a decisão no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), mas teve o recurso rejeitado e permanece impedido de registrar novos jogadores até regularizar a pendência.
Mais do que um problema financeiro, o Transfer Ban funciona como um certificado público de desorganização administrativa. A punição compromete o planejamento das equipes, dificulta a reposição do elenco, aumenta os custos com juros e multas e ainda desgasta a credibilidade dos clubes perante o mercado internacional.
O episódio também expõe uma contradição do futebol brasileiro. Enquanto dirigentes fazem discursos sobre profissionalização, governança e gestão moderna, três dos clubes mais tradicionais do país acabam incluídos na lista de inadimplentes da FIFA por não honrarem compromissos contratuais relativamente recentes. Não faltam receitas, patrocínios ou torcidas gigantescas. Falta, sobretudo, organização financeira e responsabilidade administrativa. Afinal, para um clube de futebol, poucas situações são mais constrangedoras do que descobrir que, na hora de contratar, o nome está negativado no verdadeiro “SPC da FIFA”.