O clássico de domingo terminou com vitória do Santos por 1 a 0, mas a derrota mais dolorosa do Corinthians aconteceu depois do apito final. Foi quando um menino de oito anos, vestido de corintiano, recebeu das mãos de Neymar a camisa usada pelo craque e, em vez de compartilhar a alegria com quem estava ao seu redor, passou a ser hostilizado pela própria torcida.
O “crime” da criança foi admirar Neymar. Emocionado com o presente, o garoto chorou de felicidade. Pouco depois, porém, a alegria deu lugar ao medo. Cercado por gritos, xingamentos e cobranças de adultos enfurecidos, ele e sua família precisaram deixar a Neo Química Arena pelo gramado, escoltados por policiais e seguranças.
Naquele instante, o fanatismo venceu o futebol. Adultos decidiram descarregar sua frustração sobre uma criança porque ela teve a ousadia de gostar de um jogador do time adversário. Como se uma camisa entregue por Neymar fosse uma traição. Como se o coração de um menino precisasse obedecer aos códigos irracionais da arquibancada.
O Corinthians se manifestou, mas também entrou em campo pisando em ovos. Antes de condenar com a firmeza necessária o comportamento de parte da torcida, a diretoria cercou a nota de elogios à Fiel, tratada como “inigualável”, “incomparável” e “maior patrimônio” do clube. Pareceu mais preocupada em não desagradar às organizadas e às arquibancadas do que em dizer, de maneira direta, que intimidar uma criança é uma covardia inaceitável.
A maior consequência daquele episódio talvez ainda não possa ser medida. O menino entrou no estádio como corintiano, provavelmente levado pela paixão dos pais e criado para torcer pelo clube. Saiu protegido pela polícia, assustado com aqueles que vestiam a mesma camisa que ele e abraçado simbolicamente pelo maior ídolo do adversário.
Foi assim que, em pleno território corintiano, pode ter nascido um novo santista. Neymar lhe deu uma camisa. A torcida do Corinthians, por sua vez, deu ao garoto todos os motivos para nunca mais vestir a camisa do Timão. Um trauma incurável.