O Corinthians ganhou do Mirassol, conquistou a primeira vitória sob o comando de Seedorf e respirou. Mas continua na zona de rebaixamento, olhando para aquilo que um clube de seu tamanho pode chamar de “a própria visão do inferno”: a Série B.
Não se trata apenas da humilhação esportiva ou da festa dos rivais. O inferno tem orçamento, folha salarial e boleto vencendo. A receita encolhe, o patrocinador faz contas, o elenco precisa caber numa realidade mais pobre. A camisa continua gigantesca. O dinheiro disponível para sustentá-la é que pode ficar pequeno.
O corintiano conhece essa estrada. A queda de 2007 foi seguida pelo título da Série B em 2008 e por uma reconstrução que renderia a Copa do Brasil de 2009, o Brasileiro de 2011 e, em 2012, a Libertadores e o Mundial. Uma trajetória extraordinária, capaz de transformar a maior vergonha do clube no prólogo de suas maiores glórias.
É justamente aí que mora uma armadilha: imaginar que o desastre traz consigo a receita da redenção. Não traz. O Corinthians venceu depois de cair porque conseguiu se reorganizar. A Segunda Divisão não entrega certificado de recuperação a ninguém.
O que aconteceu naquela época pode alimentar a esperança do torcedor, mas não serve como argumento para relativizar o perigo de agora. Cada queda encontra um clube diferente, com outras dívidas, outros contratos e outra capacidade de reação. O passado glorioso não paga a conta da temporada seguinte.
Na projeção apresentada, o risco corintiano aparece em 64%. Não é sentença, mas está longe de ser um susto desprezível. E nenhuma conta deve permitir que a vitória desta sexta-feira seja confundida com salvação.
A torcida tem todo o direito de comemorar. Depois de tanta aflição, ganhar devolve alguma confiança e permite imaginar uma saída. Aos dirigentes e jogadores, porém, cabe entender o tamanho da responsabilidade: impedir que milhões de corintianos sejam obrigados a revisitar aquele inferno.
Em 2007, a queda acabou entrando na história como o começo de uma reconstrução. Numa segunda vez, ninguém pode prometer o mesmo final.