A entrevista de Carlo Ancelotti ao ge tem um mérito: a sinceridade. O treinador admite que errou ao alterar a estrutura da equipe durante a derrota para a Noruega e reconhece que, a partir dali, o Brasil perdeu o controle do jogo. A autocrítica é bem-vinda. Mas ela também reforça uma cobrança inevitável.
A Seleção Brasileira entregou seu comando ao técnico mais vitorioso do futebol mundial e ao treinador mais bem remunerado entre todas as seleções. Foi como contratar o piloto mais experiente e mais caro do planeta para conduzir um avião em meio à maior turbulência possível: uma Copa do Mundo.
E é justamente aí que está o ponto central.
Ninguém contrata o melhor piloto para explicar, depois da tragédia, por que o avião caiu. Contrata-se o melhor piloto para manter a aeronave estável, preservar o controle e levá-la ao destino, sobretudo quando surgem as turbulências.
Ao admitir que perdeu o controle da partida depois de uma mudança tática, Ancelotti praticamente reconhece que, naquele momento decisivo, deixou o avião perder altitude. E, em uma Copa do Mundo, quando isso acontece, não existe segunda tentativa.
Sua observação sobre Neymar também revela que houve problemas de preparação. O treinador afirma que o camisa 10 poderia ter chegado mais bem condicionado ao Mundial, embora faça questão de elogiar sua postura durante a competição. É uma crítica feita com elegância, mas que expõe falhas de planejamento.
Agora, ao anunciar o fim do ciclo de nomes como Neymar, Casemiro, Danilo e Alex Sandro, Ancelotti inicia uma reconstrução necessária. A renovação faz sentido e já deveria acontecer. Mas ela não apaga a responsabilidade pelo que ocorreu em 2026.
Reconhecer o erro é um gesto de honestidade. Corrigi-lo será o desafio daqui para frente. Mas permanece uma verdade difícil de contestar: o melhor piloto do mundo não é contratado para explicar por que o avião caiu. É contratado justamente para impedir que ele caia. E foi isso que o Brasil esperava de Carlo Ancelotti.