A privatização velada dos ativos da FIFA reacendeu a guerra nos bastidores do futebol mundial. A recente tentativa do presidente Gianni Infantino de criar a FIFA Forward Enterprise (FFE) — com o objetivo de vender uma fatia minoritária dos direitos comerciais das competições globais a fundos privados para captar bilhões de dólares — desencadeou uma reação sem precedentes na política esportiva global. Pela primeira vez na história recente, três confederações de peso uniram vozes e assinaturas para exigir rigor, governança e até mesmo o encerramento do mandato do dirigente suíço.
A UEFA (Europa), a CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe) e a AFC (Ásia) articularam um bloco de oposição após o recuo do projeto. Em carta aberta conjunta, o trio denunciou uma quebra irrecuperável de confiança e acusou a gestão de falhas graves na governança da entidade máxima do futebol. A articulação entre europeus, norte-americanos e asiáticos coloca Infantino no momento mais vulnerável de sua trajetória política.
Só a Conmebol é a favor
Diante de uma ruptura tão clara no modelo de gestão global, lamenta-se profundamente a postura adotada pela Conmebol. Sob o comando de Alejandro Domínguez, a entidade sul-americana optou por agir como escudo político do presidente da FIFA, apelando para uma suposta estabilidade institucional e criticando as ações do bloco opositor. Ao trocar a defesa de um debate transparente por conveniências políticas de bastidor, a Conmebol apequena a tradição do futebol sul-americano, reduzindo o continente ao papel de linha de defesa de um projeto pessoal de poder.
A movimentação das três confederações acendeu o alerta máximo na sede em Zurique, especialmente ao se analisar o funcionamento do colégio eleitoral da FIFA. A entidade conta com 211 federações nacionais filiadas, onde vale a regra rígida de um país, um voto, exercido de forma secreta nas assembleias do Congresso. Para eleger ou destituir um presidente, exige-se a maioria simples: 106 votos.
Matematicamente, a soma das três aliadas é devastadora. A UEFA conta com 55 votos, a AFC dispõe de 46 e a CONCACAF soma 35, totalizando 136 votos na mesa — um número bem superior aos 106 necessários para decretar a queda do mandatário. Enquanto isso, o apoio cego da Conmebol pesa muito pouco nas urnas, já que o bloco sul-americano dispõe de apenas 10 votos, o menor peso político entre todas as entidades continentais.
Apesar da disparidade numérica, a derrubada de Infantino não é um cenário matematicamente automático. No colégio eleitoral da FIFA, a política raramente obedece à disciplina de bancada. O voto pertence a cada federação nacional e não à confederação regional. Historicamente, pequenos países tendem a votar de acordo com a distribuição de recursos do programa FIFA Forward, além da forte influência exercida pelo bloco africano (CAF), que reúne 54 votos e permanece alinhado à atual gestão.
A união entre UEFA, CONCACAF e AFC cria uma tempestade perfeita e coloca a cadeira de Gianni Infantino sob risco real. No entanto, o desfecho dessa batalha dependerá da capacidade desse triunvirato em manter suas federações filiadas blindadas na urna secreta, onde as promessas de bastidor e as verbas da entidade máxima costumam reescrever os cenários mais consolidados.