Durante muito tempo, o diploma universitário foi apresentado no Brasil quase como uma passagem obrigatória para a mobilidade social. Para milhões de famílias, especialmente aquelas que conseguiram levar o primeiro integrante até uma faculdade, entrar no ensino superior representava muito mais do que obter uma formação profissional: significava ascensão, reconhecimento e a possibilidade de construir uma vida diferente da geração anterior.
Esse imaginário continua forte, mas alguma coisa está mudando.
Mesmo com a ampliação das matrículas no ensino superior brasileiro nas últimas décadas, cresce entre os jovens o questionamento sobre o valor de determinados cursos, o custo das mensalidades, o tempo necessário para concluir uma graduação e, principalmente, a relação entre diploma e empregabilidade.
A pergunta deixou de ser simplesmente “como colocar mais pessoas na universidade?” e passou a ser também: “que universidade estamos oferecendo e para quê?”.
Paralelamente, a educação profissional e tecnológica ganhou novo protagonismo. Institutos Federais, escolas técnicas estaduais, Sistema S, programas de qualificação e diferentes modalidades de formação profissional mostram que a entrada no mundo do trabalho pode ocorrer por trajetórias muito mais diversas do que o tradicional curso superior de quatro ou cinco anos.
Não se trata de declarar o fim da universidade. Pelo contrário: o desafio talvez seja reinventá-la.
Quem precisa de faculdade?
O Brasil já viveu diferentes momentos de expansão e questionamento do ensino superior.
Durante boa parte do século XX, frequentar uma universidade era privilégio de uma parcela relativamente pequena da população. O acesso às instituições públicas era extremamente competitivo, enquanto o setor privado ainda não possuía a dimensão que alcançaria décadas depois.
A partir dos anos 1990 e, principalmente, nos anos 2000, o cenário mudou significativamente. A expansão das universidades federais, a criação de novos campi, o fortalecimento dos Institutos Federais, as políticas de cotas, o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e, posteriormente, mecanismos como o Sisu ampliaram as possibilidades de ingresso.
O Enem também assumiu papel decisivo nessa transformação. De uma avaliação voltada inicialmente para medir competências ao final da educação básica, tornou-se uma das principais portas de entrada para o ensino superior brasileiro.
Durante algum tempo, consolidou-se a ideia de que aumentar o acesso à universidade seria uma das grandes estratégias nacionais para melhorar renda, produtividade e mobilidade social. E, de fato, essa expansão representou uma transformação importante: milhões de brasileiros que dificilmente teriam chegado a uma universidade algumas décadas antes passaram a ocupar salas de aula de instituições públicas e privadas.
Mas ampliar o acesso não resolveu todos os problemas. Entrar não significa necessariamente permanecer, e permanecer não significa necessariamente concluir. Da mesma maneira, concluir uma graduação não garante automaticamente uma boa inserção profissional. É justamente aí que começa a discussão atual.
Uma história de transformação
Podemos compreender melhor esse desafio observando outras transformações ocorridas no próprio Brasil. Durante décadas, diversos serviços eram considerados caros, burocráticos ou acessíveis apenas a determinados grupos sociais.
Telefones são um bom exemplo. Houve um tempo em que possuir uma linha telefônica fixa era algo caro e até mesmo tratado como patrimônio. Pessoas compravam e vendiam linhas, aguardavam longos períodos para conseguir instalação e precisavam fazer investimentos significativos para ter um telefone em casa.
Então vieram a telefonia móvel, a ampliação da concorrência, os aparelhos mais acessíveis e, posteriormente, os smartphones. O telefone deixou de ser apenas um equipamento destinado a realizar chamadas: transformou-se em banco, câmera, biblioteca, sala de aula, televisão, mapa, escritório e ferramenta de trabalho.
Universidade e formação profissional não precisam ser adversárias
Uma possível resposta está na aproximação entre formação acadêmica e experiência profissional.
Em vez de imaginar a graduação como um período em que o estudante passa vários anos predominantemente dentro de salas de aula para somente depois ingressar no mercado de trabalho, poderíamos estruturar percursos em que estudo e trabalho aconteçam de maneira integrada.
O Brasil já possui experiências capazes de inspirar esse movimento. Os Institutos Federais combinam formação científica, tecnológica e profissional. O Sistema S, com instituições como SENAI, SENAC e outras organizações de formação profissional, desenvolveu modelos de ensino fortemente conectados às necessidades do mundo do trabalho.
Programas de residência em áreas da saúde mostram que formação acadêmica e atuação profissional podem caminhar juntas. Na formação docente, programas de iniciação à docência, residência pedagógica e estágios supervisionados apontam para a importância de aproximar o futuro professor da escola desde os primeiros momentos de sua formação. Cursos superiores de tecnologia, por sua vez, demonstram que nem toda formação superior precisa seguir exatamente o mesmo formato ou duração.
Por que não avançar ainda mais?
Um estudante de licenciatura poderia trabalhar de maneira supervisionada em uma escola enquanto conclui sua formação. Um estudante de tecnologia poderia desenvolver parte do curso dentro de empresas e laboratórios. Um aluno de administração poderia resolver problemas reais de organizações durante toda a graduação. Um futuro profissional da área ambiental poderia participar de projetos de conservação, sustentabilidade ou educação ambiental ao mesmo tempo em que constrói sua formação acadêmica.
Nesse modelo, trabalho e universidade não seriam etapas separadas: seriam partes de um mesmo percurso.
O Brasil já reinventou seu ensino superior antes
Pode parecer uma mudança radical, mas a educação superior brasileira já passou por grandes transformações. As primeiras instituições de ensino superior do país estavam profundamente ligadas à formação de profissionais para o Estado, especialmente nas áreas de Direito, Medicina e Engenharia. Posteriormente, surgiram universidades estruturadas em torno de ensino, pesquisa e extensão.
A criação da Universidade de São Paulo, em 1934, tornou-se um marco na consolidação de uma universidade brasileira fortemente relacionada à pesquisa científica. Décadas depois, a criação da Universidade de Brasília apresentou uma proposta inovadora de organização universitária e integração entre diferentes áreas do conhecimento.
Mais recentemente, a expansão das universidades federais, o crescimento do setor privado, a criação dos Institutos Federais, as políticas de inclusão e a educação a distância modificaram novamente o panorama nacional.
Portanto, a universidade não é uma instituição imóvel: ela sempre respondeu às transformações da sociedade. A questão é se conseguirá responder às transformações atuais com a mesma velocidade.
Diploma ou competência?
Existe ainda outra discussão importante.
Empresas passaram a valorizar cada vez mais competências práticas, capacidade de comunicação, domínio tecnológico, resolução de problemas, criatividade e experiência profissional. Isso não significa que diplomas tenham perdido completamente sua relevância. Em muitas profissões, eles continuam indispensáveis, inclusive por exigência legal.
Além disso, a formação universitária oferece algo que não deveria ser subestimado: acesso ao conhecimento científico, capacidade crítica, repertório cultural, pesquisa, convivência com diferentes perspectivas e formação intelectual.
O problema surge quando tratamos o diploma como um fim em si mesmo. Uma universidade não deveria ser apenas uma fábrica de certificados: seu objetivo deveria ser formar pessoas capazes de compreender o mundo e atuar sobre ele. Isso inclui preparação profissional, mas vai muito além dela.
Faculdade para todos?
Talvez a expressão precise ser reinterpretada.
“Faculdade para todos” não deveria significar que todo jovem brasileiro precisa necessariamente ingressar aos 18 anos em um curso tradicional de quatro ou cinco anos. Deveria significar que todo cidadão deveria possuir a possibilidade real de continuar aprendendo depois da educação básica.
Para alguns, isso significará universidade. Para outros, um curso técnico. Para outros, formação tecnológica. Para outros, aprendizagem profissional. E para muitos, esses caminhos poderão acontecer em momentos diferentes da vida.
Uma pessoa pode concluir um curso técnico aos 18 anos, trabalhar, fazer uma graduação aos 25, especializar-se aos 30 e retornar à universidade aos 40. Essa provavelmente será uma característica cada vez mais comum no século XXI. A formação deixará de ser uma etapa limitada ao início da vida adulta e passará a acompanhar toda a trajetória profissional.
Durante muito tempo, discutimos como levar mais brasileiros para dentro das universidades. Essa continua sendo uma questão importante. Mas talvez uma pergunta ainda mais necessária seja: que universidade queremos oferecer aos brasileiros que chegam até ela?
Uma instituição cara, longa, rígida e desconectada das transformações do mundo do trabalho dificilmente conseguirá sustentar a promessa de mobilidade social que historicamente carregou.
Por outro lado, uma universidade flexível, conectada à ciência, à tecnologia, ao trabalho e aos problemas reais da sociedade pode se tornar ainda mais importante.
O futuro do ensino superior talvez não esteja no abandono do diploma. Está na transformação do caminho que leva até ele. Assim como outras tecnologias e instituições foram reinventadas para alcançar milhões de pessoas, a universidade também precisará passar por esse processo. Não se trata apenas de colocar mais estudantes dentro dos mesmos prédios, nos mesmos cursos e seguindo os mesmos modelos. Trata-se de repensar profundamente como aprendemos, onde aprendemos e para que aprendemos.
A pergunta, portanto, não deveria ser:
“Quem precisa de faculdade?”
Talvez a pergunta mais interessante seja:
Que faculdade precisamos construir para o Brasil que vem pela frente?