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Educar é ação
Educar é ação

Será que a ciência da leitura produzirá resultados duradouros no Brasil desta vez?

O Brasil já testou programas, materiais e diretrizes baseados em evidências. O que falta não é mais uma boa ideia, mas a capacidade de sustentá-la na prática

Philip Ferreira

23/06/2026 14h45

teenager glasses reading book floor

Foto: Magnific

A valorização das evidências científicas sobre alfabetização é uma tendência promissora, mas sua consolidação dependerá da capacidade de superar antigos obstáculos da política educacional brasileira.

A chamada ciência da leitura voltou a ocupar um espaço importante no debate público. Pesquisadores, gestores e organizações educacionais têm defendido práticas de alfabetização apoiadas em evidências sobre consciência fonológica, princípio alfabético, fluência, vocabulário e compreensão de textos.

Ao mesmo tempo, experiências brasileiras bem-sucedidas, especialmente as desenvolvidas no Ceará, passaram a ser apresentadas como exemplos de que é possível melhorar os resultados educacionais mesmo em redes públicas que enfrentam grandes desafios sociais e econômicos. O Programa de Alfabetização na Idade Certa, criado no estado em 2007, tornou-se referência nacional ao articular formação docente, materiais estruturados, avaliação contínua, apoio técnico aos municípios e incentivos relacionados aos resultados educacionais.

Uma regra prática costuma ajudar a identificar quando determinada reforma ganhou força: ela começa a ser comentada até por pessoas que normalmente não acompanham as discussões pedagógicas. No Brasil, isso vem acontecendo com a alfabetização baseada em evidências.

Entre as muitas tendências que aparecem periodicamente na educação, essa provavelmente está entre as mais consistentes. Ensinar explicitamente as relações entre sons e letras, desenvolver a consciência fonêmica, ampliar o vocabulário e trabalhar sistematicamente a compreensão não são invenções passageiras, mas práticas apoiadas por décadas de pesquisas sobre como as crianças aprendem a ler e escrever.

Entretanto, há algo familiar nesse movimento.

Uma discussão que não começou agora

A defesa de práticas de alfabetização baseadas em conhecimentos científicos não é exatamente nova no Brasil. Diferentes pesquisas nacionais já apontavam a importância do desenvolvimento da consciência fonológica, da compreensão do sistema alfabético, da fluência e da leitura de textos significativos.

Em 2019, a Política Nacional de Alfabetização, instituída pelo Decreto nº 9.765, colocou conceitos como consciência fonêmica e instrução fônica sistemática no centro da política federal. Posteriormente, programas como o Tempo de Aprender e o curso Alfabetização Baseada na Ciência procuraram oferecer materiais e formação aos profissionais da educação.

Em 2023, uma nova política foi instituída: o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, cuja iniciativa estabeleceu como objetivo garantir que as crianças estejam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental e promover a recuperação das aprendizagens dos estudantes do 3º ao 5º ano.

O Inep também realizou a pesquisa Alfabetiza Brasil, que definiu um padrão nacional para identificar se uma criança pode ser considerada alfabetizada ao término do 2º ano. Desde então, os resultados vêm sendo acompanhados por meio do Indicador Criança Alfabetizada.

Esses movimentos mostram que o país não está começando do zero. O Brasil já criou programas, cursos, materiais, avaliações e diretrizes voltados à alfabetização. O principal problema não tem sido a ausência completa de propostas, mas a dificuldade de transformá-las em práticas consistentes, contínuas e sustentáveis nas salas de aula.

Mudam os governos, os nomes dos programas, os documentos oficiais e as plataformas de formação. Muitas vezes, porém, permanecem os mesmos desafios: formação insuficiente, materiais inadequados, descontinuidade administrativa, ausência de acompanhamento e grande distância entre aquilo que está previsto nas políticas e o que realmente acontece nas escolas.

Por isso, diante do entusiasmo atual com a ciência da leitura, é necessário fazer uma pergunta incômoda: o que impedirá que esta iniciativa se torne apenas mais um ciclo passageiro da política educacional brasileira?

O problema não está apenas na formulação da política

Há lições evidentes que podem ser retiradas das experiências anteriores. É preciso avaliar melhor os materiais didáticos, selecionar programas com critérios transparentes, garantir formação adequada aos professores e evitar que interesses comerciais se apresentem como evidência científica.

Essas providências são importantes, mas não são suficientes.

O desafio mais profundo é que boas ideias não se transformam automaticamente em boas práticas. Uma política pública pode determinar que determinada ação seja realizada, mas não consegue garantir, por si só, que ela seja realizada com qualidade.

Uma secretaria de educação pode exigir avaliações diagnósticas, por exemplo, mas isso não significa que os resultados serão corretamente interpretados pelos professores ou utilizados para reorganizar o ensino.

O governo pode disponibilizar materiais estruturados, mas isso não garante que sejam adequados à realidade dos estudantes, que os professores compreendam sua lógica ou que sejam utilizados de maneira inteligente.

Uma rede pode exigir que todos os alfabetizadores participem de determinada formação. Ainda assim, as atividades podem se transformar em reuniões burocráticas, desconectadas das dificuldades reais encontradas em sala de aula.

Políticas públicas funcionam melhor quando estabelecem ações claras e verificáveis. É possível determinar o número máximo de estudantes por turma, a duração do ano letivo, a aplicação de uma avaliação ou a distribuição de livros.

Entretanto, elas são menos precisas quando procuram regular atividades complexas, como ensinar uma criança a ler, orientar um professor iniciante, melhorar a cultura pedagógica de uma escola ou adaptar uma intervenção às necessidades de um estudante.

É possível obrigar uma escola a realizar avaliações periódicas, mas não é possível obrigar seus profissionais a interpretar os resultados com competência.

É possível exigir a criação de programas de reforço, mas isso não significa que os estudantes receberão intervenções individualizadas e de boa qualidade.

É possível distribuir livros para todas as salas de aula, mas isso não garante que as crianças terão contato cotidiano com práticas significativas de leitura.

Em outras palavras, políticas públicas conseguem determinar comportamentos, mas têm dificuldade para assegurar sabedoria, compromisso e qualidade na execução.

Na educação, justamente esses elementos qualitativos costumam ser decisivos.

Quando a solução se transforma em burocracia

Um exemplo ajuda a compreender o problema.

Imagine que uma secretária municipal de Educação visite uma escola que desenvolve um excelente trabalho de alfabetização. Os professores planejam coletivamente, analisam as produções das crianças, realizam avaliações frequentes e oferecem intervenções específicas para os estudantes com dificuldades.

Impressionada, a secretária decide levar essa experiência para toda a rede.

Inicialmente, determina que todas as escolas realizem reuniões semanais de planejamento. Depois, preocupada com a possibilidade de que algumas equipes não levem os encontros a sério, estabelece uma pauta obrigatória.

Em seguida, exige que os professores preencham formulários sobre cada estudante, apresentem relatórios mensais, registrem as habilidades trabalhadas e enviem evidências das atividades realizadas.

Como ainda teme que as escolas cumpram apenas as formalidades, cria novas planilhas, indicadores, protocolos, listas de verificação e relatórios de acompanhamento.

Em pouco tempo, aquilo que começou como uma tentativa de reproduzir uma boa experiência se transforma em uma estrutura burocrática. Os profissionais passam mais tempo comprovando que estão trabalhando do que analisando como os estudantes estão aprendendo.

É assim que muitas políticas educacionais se afastam de seus objetivos originais. As regras são criadas para evitar omissões, improvisações e práticas inadequadas, mas, quando se acumulam, também podem reduzir a autonomia profissional, desestimular os professores e transformar o trabalho pedagógico em simples cumprimento de tarefas.

A burocracia, nesse caso, não é apenas um defeito acidental. Ela surge como uma tentativa de controlar, por meio de regras, uma atividade que depende de conhecimento, discernimento e capacidade de adaptação.

O que a experiência do Ceará realmente ensina?

Diante dos bons resultados do Ceará, seria tentador imaginar que basta copiar suas medidas: distribuir materiais, formar professores, aplicar avaliações e estabelecer metas.

Mas essa leitura seria superficial.

O êxito cearense não decorreu da existência isolada de uma apostila, de uma avaliação ou de um curso de formação. Ele foi construído ao longo do tempo por meio de um regime de colaboração entre estado e municípios, acompanhamento sistemático, apoio técnico, uso pedagógico das avaliações e continuidade institucional.

Portanto, a principal lição não é simplesmente criar programas semelhantes ao Paic, mas construir a capacidade administrativa e pedagógica necessária para que seus componentes funcionem de maneira articulada.

Nenhuma rede de ensino procura deliberadamente materiais de baixa qualidade. O problema é que muitas redes não possuem equipes técnicas capazes de avaliar propostas, interpretar pesquisas, acompanhar a implementação e resistir às pressões comerciais ou políticas.

Da mesma forma, praticamente todas as redes oferecem algum tipo de formação continuada. A questão não é apenas saber se há formação, mas compreender o que ela ensina, quem a conduz, como se relaciona com a prática e de que maneira seus efeitos são acompanhados.

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