De tempos em tempos, a educação se apaixona por uma nova ideia e começa a desconfiar de tudo aquilo que veio antes. Agora, em meio ao avanço da inteligência artificial, da ciência de dados e de um mundo cada vez mais orientado por algoritmos, uma velha conhecida das salas de aula voltou ao banco dos réus: a matemática tradicional.
E, no centro dessa discussão, aparece uma pergunta aparentemente simples: os alunos ainda precisam aprender cálculo?
Há quem defenda que não. O argumento é sedutor. Em vez de dedicar tanto tempo a funções, limites, derivadas e integrais, deveríamos preparar os jovens para aquilo que encontrarão no cotidiano: estatística, probabilidade, análise de dados, programação e interpretação de gráficos. Afinal, quantas pessoas calculam uma derivada antes de sair para trabalhar?
O problema é que essa pergunta parte de uma visão limitada sobre a função da escola. Pouquíssimas pessoas também discutem mitose durante o café da manhã, analisam uma oração subordinada enquanto esperam o ônibus ou pensam nas causas da Revolução Francesa ao fazer compras no supermercado. Ainda assim, ninguém deveria concluir que Biologia, Língua Portuguesa ou História perderam sua importância.
A escola não existe apenas para ensinar aquilo que terá aplicação imediata na vida adulta. Ela existe também para ampliar as possibilidades de compreender o mundo. E o cálculo ajudou a construir boa parte desse mundo. Previsões meteorológicas, engenharia, telecomunicações, desenvolvimento de medicamentos, exploração espacial, modelos climáticos, sistemas de localização, computação e até tecnologias associadas à inteligência artificial dependem, em diferentes níveis, da matemática desenvolvida ao longo dos últimos séculos.
Quando abrimos um aplicativo e consultamos a previsão do tempo, obviamente não estamos resolvendo uma equação diferencial. Alguém, ou alguma máquina programada por alguém, fez isso por nós. E é justamente aí que está uma das contradições do nosso tempo: quanto mais a tecnologia esconde a matemática, maior é a tentação de acreditar que ela deixou de existir.
Não deixou.
O debate ganha contornos ainda mais importantes quando pensamos na realidade brasileira. Nosso problema educacional dificilmente pode ser descrito como um excesso de estudantes dominando matemática avançada. O desafio começa muito antes. Muitos jovens chegam ao Ensino Médio ainda enfrentando dificuldades com frações, porcentagens, proporcionalidade, equações e interpretação de gráficos. Nesse cenário, discutir se deveríamos abandonar o cálculo parece quase inverter a ordem das coisas. Talvez a pergunta mais urgente seja outra: por que tantos estudantes passam tantos anos na escola sem construir uma base matemática suficientemente sólida para chegar até o cálculo?
Isso não significa ignorar a estatística. Muito pelo contrário. Nunca foi tão necessário compreender dados. Vivemos cercados por pesquisas de opinião, indicadores econômicos, gráficos sobre mudanças climáticas, informações sobre saúde, projeções populacionais, algoritmos e números apresentados diariamente nas redes sociais. Saber interpretar porcentagens, médias, probabilidades, correlações e amostras tornou-se uma competência essencial para o exercício da cidadania. A estatística precisa ocupar mais espaço na escola brasileira. A ciência de dados também. Mas por que isso precisa acontecer à custa de outros conhecimentos matemáticos?
Essa é uma armadilha recorrente nos debates educacionais: apresentar como escolha aquilo que poderia ser soma. Estatística ou cálculo. Conteúdo ou competências. Teoria ou prática. Memorização ou compreensão. Tecnologia ou professor. A educação raramente melhora quando transformamos questões complexas em escolhas binárias. Podemos ensinar estatística e cálculo. Podemos trabalhar problemas reais e desenvolver conhecimentos abstratos. Podemos utilizar tecnologia e continuar valorizando o raciocínio matemático. Aliás, a própria ciência de dados depende de uma base matemática consistente.
Há ainda outro aspecto que merece atenção. A matemática é uma construção feita em camadas. Uma criança que domina as operações básicas consegue direcionar sua atenção para problemas mais complexos. Frações ajudam a compreender proporções. Proporções aparecem no estudo das funções. Funções permitem compreender variações. E compreender variações abre caminho para ideias fundamentais do cálculo.
Isso exige prática. Talvez essa seja uma afirmação menos atraente em uma época fascinada pela ideia de que toda aprendizagem precisa ser divertida, dinâmica e imediatamente conectada à realidade do aluno. Contextualizar é importante. Engajar é importante. Despertar a curiosidade é fundamental.
Mas aprender também exige esforço. Exige errar uma questão, tentar novamente, recuperar conhecimentos da memória, receber feedback, revisar conceitos e praticar. Nem todo momento de aprendizagem será extraordinariamente divertido, e não há problema algum nisso.
Um estudante pode investigar dados sobre o desmatamento na Amazônia, analisar a qualidade da água de sua cidade, comparar índices de vacinação ou estudar as mudanças de temperatura dos oceanos. São experiências riquíssimas e deveriam acontecer com muito mais frequência. Mas, para compreender fenômenos cada vez mais complexos, ele precisará de ferramentas matemáticas cada vez mais sofisticadas.
Há também uma questão de equidade que não pode ser ignorada. Quando decidimos que determinado conhecimento é “avançado demais” ou “pouco útil” para fazer parte da formação escolar, precisamos perguntar quem continuará tendo acesso a ele. Um estudante de uma família com maior renda provavelmente poderá procurar um curso particular caso descubra, aos 17 anos, que deseja estudar Engenharia, Física, Economia, Matemática ou Ciência da Computação. E o estudante cuja principal, ou única, oportunidade de acessar esse conhecimento é a escola? Reduzir expectativas pode parecer uma decisão pedagógica progressista. Dependendo de como for feita, porém, pode produzir exatamente o contrário: aprofundar desigualdades.
A pandemia tornou esse cenário ainda mais delicado. O longo período de interrupções, ensino remoto e enormes diferenças de acesso à educação deixou marcas que ainda aparecem nas salas de aula brasileiras. E, na matemática, as lacunas tendem a se acumular. Uma dificuldade não resolvida hoje reaparece amanhã com outro nome.
Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de perguntar se os estudantes ainda precisam aprender cálculo, deveríamos perguntar como fazer com que mais estudantes tenham condições de chegar até ele. Isso não significa que todos devam se tornar matemáticos, engenheiros ou programadores. Significa apenas que a escola não deveria fechar portas antes que o jovem tenha a oportunidade de escolher atravessá-las.
Num mundo em que uma inteligência artificial consegue resolver em segundos uma equação que levaríamos vários minutos para resolver no papel, compreender matemática pode parecer menos importante.
Penso justamente o contrário.
Quanto mais cálculos entregamos às máquinas, mais precisamos compreender o que elas estão calculando. Quanto mais respostas recebemos de algoritmos, mais precisamos saber formular perguntas. E quanto mais confiamos em modelos matemáticos para tomar decisões, mais precisamos de pessoas capazes de reconhecer quando esses modelos estão errados.
Portanto, sim: precisamos ensinar estatística, probabilidade e ciência de dados. Precisamos aproximar a matemática de problemas reais. Precisamos rever práticas pedagógicas e enfrentar seriamente as dificuldades de aprendizagem acumuladas desde os primeiros anos escolares. Mas não precisamos fazer isso empobrecendo o horizonte matemático dos nossos estudantes.
A questão nunca deveria ser escolher entre estatística e cálculo. A verdadeira questão é garantir que nossas crianças e nossos jovens aprendam matemática suficientemente bem para que, um dia, tenham o direito de escolher até onde desejam chegar.