Menu
Educar é ação
Educar é ação

Educação é feita por pessoas: como escolas de excelência selecionam seus professores

Gestores de escolas com bons resultados buscam professores dispostos a aprender, colaborar e crescer junto com a instituição, valorizando valores e atitudes tanto quanto currículo e experiência

Philip Ferreira

04/08/2026 11h52

smiley woman showing graph office with coworkers

Foto: Magnific

O desafio de contratar bons professores

No Brasil, escolas públicas, comunitárias, filantrópicas e particulares enfrentam diferentes dificuldades para formar e manter suas equipes docentes. Em algumas regiões, faltam profissionais habilitados em determinadas disciplinas. Em outras, os principais obstáculos são os salários, a rotatividade, as condições de trabalho e a distância entre a formação inicial e os desafios concretos da sala de aula.

Esse cenário se torna ainda mais complexo em instituições que atendem comunidades socialmente vulneráveis e possuem recursos financeiros limitados. Nesses espaços, a contratação não pode considerar apenas os títulos acumulados ou o número de anos de experiência. É necessário identificar profissionais dispostos a aprender, colaborar e crescer junto com a escola.

Ao conversar com gestores de instituições brasileiras reconhecidas por seus bons resultados acadêmicos e por seus projetos educacionais, encontrei uma visão semelhante sobre a seleção de professores. Para esses líderes, a construção de uma equipe eficiente depende tanto das competências pedagógicas quanto dos valores, das atitudes e da capacidade de convivência dos candidatos.

Como certa vez afirmou um educador com muitos anos de gestão escolar, uma escola é, antes de qualquer coisa, uma organização formada por pessoas.

Isso significa que o trabalho docente não pode acontecer de maneira completamente isolada, com cada professor atuando como se sua sala de aula fosse um território particular. Uma escola se fortalece quando seus profissionais compartilham princípios, aceitam orientações, colaboram entre si e trabalham em direção a objetivos comuns.

Valores antes do currículo

Mariana Albuquerque atua há mais de dez anos no Instituto Educacional Caminhos do Saber, escola fictícia de Educação Infantil e Ensino Fundamental localizada na região metropolitana de Recife. Em 2020, assumiu a direção da instituição.

Ao explicar o que considera mais importante na contratação de professores, Mariana afirma que um currículo extenso não garante, sozinho, um bom desempenho profissional.

“Antes de contratar alguém pela experiência, precisamos conhecer a pessoa que está diante de nós”, explica. “O conhecimento técnico é importante, mas existem características humanas que determinam como esse profissional vai se relacionar com as crianças e com a equipe.”

Segundo a diretora, três qualidades são fundamentais: respeito pelos estudantes, flexibilidade e humildade para aprender.

Entre essas características, ela considera o compromisso com os alunos a mais importante.

“Em todas as decisões, pedimos que o professor pense primeiro no que é melhor para a aprendizagem e para o desenvolvimento das crianças”, afirma.

Depois de contratados, os professores passam por um processo permanente de acompanhamento. A equipe gestora realiza visitas às salas, analisa planejamentos, oferece devolutivas e organiza encontros formativos. As observações não são usadas apenas como instrumentos de fiscalização, mas como oportunidades de desenvolvimento profissional.

Disposição para aprender

Uma filosofia parecida orienta o trabalho do Colégio Comunitário Horizonte, instituição fictícia que atende estudantes do primeiro ao nono ano em Goiânia.

O diretor Rafael Mendonça explica que procura profissionais capazes de reconhecer a complexidade da educação e que não esperam resultados imediatos por meio de soluções simplistas.

“Precisamos de pessoas dispostas a estudar, rever suas práticas e trabalhar de maneira consistente”, afirma. “Não existe um procedimento infalível para encontrar o professor ideal. No entanto, compreender os valores do candidato e observar sua disposição para aprender são etapas essenciais.”

Para Rafael, uma boa entrevista de contratação deve ir além das perguntas tradicionais sobre formação acadêmica e experiências anteriores. É importante compreender como o candidato reage a desafios, recebe críticas, trabalha em equipe e se posiciona diante das dificuldades dos alunos.

Por isso, o processo seletivo da escola inclui análise de currículo, entrevista, planejamento de uma atividade e apresentação de uma aula demonstrativa. Em alguns casos, o candidato também conversa com diferentes integrantes da equipe pedagógica.

O objetivo não é buscar uma atuação perfeita, mas observar a capacidade de preparação, comunicação, reflexão e adaptação.

Competência pedagógica e identidade institucional

Fernanda Ribeiro dirige há quase duas décadas o Centro Educacional Parque das Águas, escola fictícia localizada no Distrito Federal.

Segundo ela, instituições com equipes menores precisam selecionar profissionais capazes de assumir diferentes responsabilidades e de participar ativamente da vida escolar.

“Nosso processo de contratação procura identificar candidatos que tenham domínio de sua área, potencial de liderança pedagógica e afinidade com a cultura da escola”, explica. “Analisamos a qualidade da aula, mas também a postura profissional, a abertura para receber devolutivas e o compromisso com os estudantes, com as famílias e com a comunidade.”

Fernanda também observa que alguns dos professores mais antigos da instituição chegaram à educação depois de atuar em outras áreas.

Um profissional formado em Engenharia, por exemplo, pode apresentar excelente domínio de Matemática e Física. Uma bióloga com experiência em pesquisa pode levar para as aulas uma compreensão aprofundada da investigação científica. Da mesma maneira, artistas, músicos, jornalistas e profissionais de tecnologia podem contribuir significativamente para a formação dos estudantes.

Entretanto, conhecer profundamente um conteúdo não significa, automaticamente, saber ensiná-lo. Esses profissionais precisam desenvolver conhecimentos relacionados ao planejamento, à avaliação, à didática, à gestão da sala de aula e às diferentes formas de aprendizagem.

Para a diretora, quando existe domínio do conteúdo, interesse genuíno pela educação e disposição para aprender, as competências pedagógicas podem ser construídas por meio de formação e acompanhamento sistemático.

Experiência não é o único fator

A experiência profissional tem grande importância na educação. Nos primeiros anos de carreira, os professores geralmente desenvolvem maior segurança, ampliam seu repertório e aprendem a lidar melhor com situações imprevistas.

Entretanto, o tempo de serviço, isoladamente, não garante evolução contínua. Um profissional pode repetir durante muitos anos as mesmas estratégias sem avaliar se elas realmente produzem aprendizagem. Por outro lado, um professor em início de carreira pode avançar rapidamente quando recebe orientação, observa colegas mais experientes e analisa criticamente sua própria prática.

Na educação, nem sempre os resultados aparecem de maneira imediata. Uma turma silenciosa, uma atividade concluída ou uma aula aparentemente envolvente não comprovam, por si só, que houve aprendizagem significativa.

O aluno pode demonstrar participação durante a aula e, ainda assim, não conseguir aplicar o conhecimento posteriormente. Também pode memorizar uma informação para uma avaliação e esquecê-la pouco tempo depois.

Por essa razão, o professor precisa receber devolutivas baseadas em diferentes evidências: observações de aula, produções dos estudantes, avaliações, participação, registros pedagógicos e acompanhamento da aprendizagem ao longo do tempo.

O desenvolvimento profissional acontece com mais força quando o educador não trabalha de forma isolada, mas participa de um ambiente no qual planejamento coletivo, acompanhamento pedagógico, formação continuada e troca de experiências fazem parte da rotina.

Uma cultura de colaboração

Essa perspectiva corresponde ao que vivenciei na escola em que trabalhei. Durante os processos seletivos, não observávamos somente a experiência dos candidatos. Também buscávamos compreender se eles se identificavam com a proposta pedagógica, se aceitavam trabalhar de forma colaborativa e se demonstravam abertura para melhorar.

Depois da contratação, o alinhamento continuava sendo construído. Os professores participavam de reuniões, observações, formações e conversas individuais. A intenção não era transformar todos os profissionais em pessoas iguais, mas estabelecer princípios comuns para orientar o trabalho.

Cada professor mantinha sua personalidade, seu repertório e sua maneira de se comunicar. No entanto, todos precisavam compreender os objetivos de aprendizagem, os critérios de avaliação, as expectativas de convivência e os compromissos assumidos pela instituição.

Esse tipo de organização ajuda escolas com recursos limitados a aproveitar melhor o potencial de suas equipes. Professores jovens ou com pouca experiência podem apresentar excelentes resultados quando encontram uma liderança presente, expectativas claras e oportunidades reais de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, profissionais experientes continuam sendo fundamentais, especialmente quando compartilham seus conhecimentos, orientam colegas e permanecem abertos à inovação.

Liderar pessoas para transformar a escola

Contratar professores não deve ser apenas uma tarefa administrativa destinada a preencher vagas. Trata-se de uma decisão pedagógica que influencia diretamente a aprendizagem, o clima escolar e o relacionamento com as famílias.

Uma equipe de excelência não é formada somente pela reunião de bons currículos individuais. Ela é construída por meio de objetivos compartilhados, confiança, formação, acompanhamento e responsabilidade coletiva.

As escolas que compreendem essa dimensão investem não apenas na seleção dos profissionais, mas também em sua permanência e em seu desenvolvimento.

Elas procuram pessoas que conheçam os conteúdos que ensinam, mas também valorizam educadores que respeitem os estudantes, trabalhem em equipe, aceitem feedbacks e reconheçam que sempre existe algo novo a aprender.

No fim das contas, a qualidade de uma escola depende das relações construídas dentro dela. Quando os professores recebem apoio, trabalham de maneira colaborativa e compreendem claramente os objetivos da instituição, conseguem oferecer experiências de aprendizagem mais consistentes.

Educação é, essencialmente, um trabalho realizado por pessoas. E são as pessoas, quando bem selecionadas, formadas, acompanhadas e lideradas, que tornam possível alcançar resultados significativos, mesmo diante de limitações financeiras e estruturais.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado