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Educar é ação
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Cinco apostas sobre a vida dos adolescentes brasileiros em 2036

Como estarão o tempo de tela, o trabalho, o sono, as amizades e a saúde mental dos adolescentes daqui a dez anos?

Philip Ferreira

18/08/2026 15h44

diverse teenagers practicing health wellness activities themselves their community

Foto: Magnific

Imaginar a adolescência em 2036 significa tentar compreender como transformações tecnológicas, sociais e econômicas que já estão em curso poderão modificar a rotina dos jovens brasileiros.

Hoje, celulares, redes sociais, plataformas de vídeo, jogos e ferramentas de inteligência artificial ocupam uma parcela importante da vida cotidiana. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, realizada pelo Cetic.br/NIC.br desde 2012, acompanha justamente os hábitos de crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos na Internet, incluindo oportunidades, riscos e formas de mediação das famílias.

Ao mesmo tempo, estudos da Fiocruz chamam atenção para a relação entre exposição excessiva às telas, qualidade do sono e saúde mental. A evidência não significa que todo uso de tecnologia seja prejudicial: importam também o conteúdo consumido, o contexto e a maneira como o adolescente se relaciona com esses ambientes digitais.

Partindo das tendências atuais, podemos fazer cinco apostas sobre como será a adolescência brasileira em 2036.

  1. Os adolescentes passarão menos tempo diante das telas?

Nossa primeira aposta envolve uma das características mais marcantes da adolescência contemporânea: a presença quase permanente do celular.

Os dados brasileiros mostram que a Internet já está profundamente integrada à vida dos jovens. Na TIC Kids Online Brasil 2025, por exemplo, 84% dos entrevistados disseram acessar a Internet em casa várias vezes ao dia. A mesma edição revelou a expansão acelerada da inteligência artificial entre crianças e adolescentes.

Entretanto, isso não significa necessariamente que o tempo diante de uma tela convencional continuará aumentando indefinidamente.

Até 2036, parte das atividades que hoje dependem de smartphones pode migrar para dispositivos controlados por voz, inteligência artificial, óculos inteligentes, fones e outras interfaces menos dependentes de telas. Nesse cenário, uma pessoa poderá continuar extremamente conectada ao mundo digital mesmo passando menos horas olhando diretamente para um celular.

Por isso, nossa primeira aposta é que haverá uma redução moderada do tempo de tela tradicional, mas não necessariamente uma redução equivalente do tempo conectado.

Há ainda outro movimento importante: famílias, escolas, profissionais da saúde e governos começam a discutir com mais intensidade os limites necessários para o uso das tecnologias durante a infância e a adolescência. No Brasil, a própria Fiocruz tem defendido maior atenção à presença das redes sociais e das telas na rotina dos adolescentes e à necessidade de preservar vínculos e experiências fora do ambiente digital.

Um cenário possível para 2036 é que o próprio excesso de conexão provoque uma reação cultural.

Talvez sair com os amigos, praticar esportes, viajar, frequentar parques, participar de grupos culturais ou simplesmente ficar algumas horas sem celular passe a representar aquilo que hoje parece paradoxal: uma forma de rebeldia contra uma vida excessivamente digitalizada.

A grande mudança, portanto, talvez não venha da simples proibição das telas.

Pode vir da substituição.

Em vez de apenas dizer aos adolescentes “usem menos o celular”, famílias, escolas e cidades precisarão oferecer alternativas suficientemente interessantes para competir com algoritmos projetados para conquistar sua atenção.

Aposta para 2036: menos horas diante de celulares convencionais, mas uma presença ainda muito elevada da tecnologia na vida cotidiana.

  1. Os adolescentes trabalharão menos?

A segunda aposta envolve a entrada dos jovens no mundo do trabalho.

No Brasil, essa discussão precisa considerar uma característica própria do país: a Aprendizagem Profissional, política que possibilita a inserção de adolescentes e jovens de 14 a 24 anos no mercado de trabalho por meio de contratos específicos de aprendizagem.

Ao contrário de uma simples retração recente, o número de aprendizes vem crescendo. Em junho de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que o Brasil havia ultrapassado 726 mil jovens aprendizes em atividade, recorde da série.

Mas o que acontecerá daqui para frente?

Existem dois caminhos possíveis.

No primeiro, programas de aprendizagem profissional, estágios e políticas de inserção dos jovens conseguem acompanhar as transformações tecnológicas. Nesse cenário, adolescentes continuariam tendo acesso às primeiras experiências profissionais, mas em ocupações diferentes das atuais.

No segundo cenário, a automação e a inteligência artificial eliminariam justamente parte dos trabalhos de entrada tradicionalmente oferecidos aos jovens.

Caixas de supermercado, atendimentos básicos, organização de pedidos, atividades administrativas simples e determinados serviços de suporte estão entre as funções que podem sofrer profundas mudanças com sistemas automatizados.

A consequência pode ser paradoxal: adolescentes mais preparados tecnologicamente, porém com menos oportunidades de experimentar o primeiro emprego.

Isso seria importante porque trabalhar durante a juventude representa muito mais do que simplesmente receber salário.

Uma experiência profissional supervisionada pode ensinar pontualidade, responsabilidade, comunicação, resolução de conflitos, organização financeira e convivência com pessoas de diferentes idades e histórias.

Por outro lado, talvez estejamos olhando para o trabalho adolescente utilizando uma definição que ficará ultrapassada.

Em 2036, muitos jovens poderão ganhar dinheiro editando vídeos, desenvolvendo pequenos aplicativos, produzindo conteúdo, comercializando produtos pela Internet, prestando serviços digitais, criando projetos com inteligência artificial ou participando de outras formas de trabalho autônomo.

Ou seja: o emprego tradicional pode diminuir enquanto cresce uma espécie de economia informal digital juvenil.

O desafio será medir adequadamente essas novas formas de trabalho e, principalmente, garantir que elas não escondam exploração ou trabalho infantil. O IBGE estimou que, em 2024, cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no país, mostrando que qualquer discussão sobre emprego juvenil no Brasil precisa distinguir oportunidades protegidas de situações ilegais ou prejudiciais ao desenvolvimento.

Aposta para 2036: menos empregos tradicionais de entrada, mas crescimento de novas formas de trabalho digital, empreendedorismo juvenil e aprendizagem profissional ligada à tecnologia.

  1. Os adolescentes dormirão mais ou menos?

Nossa terceira aposta talvez seja uma das mais importantes.

Como os adolescentes brasileiros estarão dormindo em 2036?

A relação entre telas e sono merece atenção. Uma revisão publicada nos Cadernos de Saúde Pública, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fiocruz, encontrou associação entre uso excessivo de telas digitais por adolescentes e pior qualidade e menor duração do sono. Entre os problemas observados estão dificuldade para adormecer, despertares noturnos e sonolência durante o dia. Se o uso noturno dos celulares diminuir ao longo dos próximos dez anos, existe espaço para uma melhora. Além disso, atualmente existe uma percepção social muito maior sobre a importância do sono para aprendizagem, memória, saúde física e equilíbrio emocional.

Mas existe uma força trabalhando no sentido contrário.

As empresas de tecnologia disputam atenção. Redes sociais, jogos, plataformas de vídeo e sistemas de inteligência artificial podem funcionar 24 horas por dia. Não existe horário de fechamento da Internet. Em 2036, essa competição pela atenção poderá ser ainda mais sofisticada, com sistemas capazes de conhecer profundamente interesses, hábitos e preferências individuais.

Por isso, podemos imaginar dois futuros. No primeiro, a sociedade estabelece limites mais claros para o uso noturno das tecnologias e os adolescentes recuperam parte das horas de sono perdidas. No segundo, a inteligência artificial torna os ambientes digitais ainda mais personalizados e envolventes, prolongando a conexão até tarde da noite.

Aposta para 2036: haverá maior consciência sobre a importância do sono, mas dormir suficientemente continuará sendo um dos grandes desafios da adolescência.

  1. Os adolescentes voltarão a encontrar mais os amigos pessoalmente?

Talvez esta seja a aposta mais interessante.

Mensagens no WhatsApp, chamadas de vídeo, partidas online e redes sociais são formas legítimas de interação social. Elas permitem criar e manter amizades. Mas não são exatamente iguais à convivência presencial. Encontrar alguém pessoalmente exige interpretar expressões faciais, silêncios, gestos, mudanças de tom de voz e inúmeras outras pistas sociais difíceis de reproduzir completamente em uma tela. Esportes, festas, projetos escolares, atividades culturais, empregos e encontros informais também ensinam uma habilidade essencial: conviver com pessoas com quem nem sempre concordamos.

A pandemia de Covid-19 mostrou de maneira radical o que acontece quando grande parte dessas experiências desaparece da rotina. Nossa aposta é que haverá uma reação.

Quanto mais inteligência artificial existir na vida cotidiana, mais valiosas poderão se tornar experiências claramente humanas.

Assistir a um show.

Jogar futebol.

Viajar com amigos.

Ir ao cinema.

Participar de uma feira de ciências.

Frequentar uma festa.

Acampar.

Sentar em uma praça sem objetivo específico.

Em um mundo no qual imagens, vídeos, textos e até conversas poderão ser produzidos artificialmente, a experiência presencial ganhará algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente: a certeza de que aquilo realmente aconteceu entre aquelas pessoas naquele momento. A juventude de 2036 poderá, portanto, redescobrir atividades analógicas não por nostalgia, mas justamente porque viverá cercada de tecnologia.

E existe outro fator. Se diminuírem algumas formas tradicionais de emprego juvenil, parte desse tempo poderá ser direcionada para atividades sociais, esportivas, culturais ou comunitárias.

Aposta para 2036: depois de décadas de avanço da socialização digital, veremos uma recuperação parcial dos encontros presenciais entre adolescentes. O presencial poderá tornar-se, curiosamente, uma novidade.

  1. Como estará a saúde mental dos adolescentes?

A quinta aposta é também a mais delicada.

Os indicadores brasileiros mostram motivos reais para preocupação.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, realizada pelo IBGE, apontou importantes diferenças nos indicadores de saúde mental entre meninos e meninas. Entre os dados divulgados em 2026, 26,1% das estudantes relataram perda da vontade de viver nos 30 dias anteriores à pesquisa, percentual significativamente superior ao observado entre os meninos.

É importante, porém, evitar explicações simplistas.

A saúde mental dos adolescentes não depende apenas de celulares ou redes sociais.

Família, violência, bullying, desigualdade social, situação econômica, desempenho escolar, autoestima, relações afetivas, expectativas profissionais e condições de vida também exercem influência.

A própria discussão científica sobre telas exige cuidado: associações entre determinados padrões de uso digital e problemas psicológicos existem, mas contexto, conteúdo e vulnerabilidades individuais fazem diferença.

Como estaremos em 2036?

Existe um cenário otimista.

Se os adolescentes dormirem melhor, tiverem mais atividades presenciais, praticarem exercícios, desenvolverem relações sociais mais fortes e aprenderem a utilizar a tecnologia de maneira equilibrada, alguns indicadores poderão melhorar.

Também existe um cenário mais preocupante. A inteligência artificial poderá trazer novas fontes de ansiedade. Jovens poderão comparar sua aparência não apenas com fotografias editadas, mas com pessoas inteiramente artificiais.

Poderão desenvolver vínculos emocionais intensos com agentes virtuais. Poderão enfrentar um mercado profissional mais imprevisível. E talvez tenham cada vez mais dificuldade em distinguir interação humana, publicidade, manipulação algorítmica e conteúdo criado artificialmente.

Ao mesmo tempo, falar sobre saúde mental provavelmente será muito mais comum do que foi para gerações anteriores. Isso tem um lado positivo: jovens podem reconhecer problemas mais cedo e procurar ajuda. Mas existe também um desafio educativo importante: aprender a distinguir sofrimento humano normal de situações que realmente exigem atenção especializada. Tristeza, frustração, ansiedade antes de uma prova, término de relacionamentos e conflitos fazem parte da experiência humana. Reconhecer isso não significa minimizar transtornos mentais, mas evitar transformar automaticamente qualquer desconforto em diagnóstico.

Aposta para 2036: a saúde mental continuará sendo uma das grandes questões da adolescência, mas teremos jovens muito mais conscientes e capazes de falar sobre suas emoções.

Afinal, como será o adolescente de 2036?

Uma criança que hoje está nos primeiros anos do Ensino Fundamental será adolescente em 2036.

Ela provavelmente viverá em um mundo no qual conversar diariamente com inteligências artificiais será absolutamente normal. Talvez use menos o celular porque o próprio conceito de celular terá mudado. Talvez seu primeiro emprego seja realizado parcialmente com inteligência artificial. Talvez seus professores precisem ensinar menos a encontrar informações e muito mais a avaliar, interpretar e questionar informações produzidas por máquinas.

E talvez aquilo que hoje consideramos banal, encontrar amigos pessoalmente, praticar um esporte, construir alguma coisa com as próprias mãos ou passar algumas horas desconectado, adquira um valor completamente novo.

É exatamente por isso que pensar na adolescência de 2036 não é apenas tentar prever o futuro.

É discutir qual futuro queremos construir.

Tecnologia, inteligência artificial e redes sociais não determinam sozinhas como viveremos. Escolas, famílias, governos, comunidades e os próprios adolescentes também participam dessa construção.

As cinco apostas são, portanto:

Tempo de tela: deverá diminuir moderadamente, embora a vida continue intensamente digital.

Trabalho: empregos tradicionais para adolescentes poderão perder espaço para aprendizagem tecnológica e novas formas de trabalho.

Sono: haverá maior consciência de sua importância, mas a disputa digital pela atenção continuará dificultando noites adequadas de descanso.

Amizades: encontros presenciais poderão recuperar espaço justamente como reação a um cotidiano cada vez mais virtual.

Saúde mental: continuará sendo um grande desafio, mas os adolescentes estarão mais preparados para reconhecer e conversar sobre suas emoções.

Em 2036 poderemos voltar a essas cinco apostas e descobrir quais estavam certas.

Até lá, a questão mais importante não será apenas prever o adolescente que teremos daqui a dez anos. Será decidir que condições estamos criando hoje para que ele possa viver bem amanhã.

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