Chegou ao fim a novela pelo controle do Cidadania, aquele que sucedeu ao histórico Partido Comunista Brasileiro, passou alguns anos como PPS e depois adotou o nome atual. Dirigido durante décadas por Luiz Carlos Prestes, passou depois por diversos grandes nomes do comunismo mundial e chegou a Roberto Freire (foto), que modernizou o partido, dando-lhe feição democrática.
Após mais de duas décadas de presidência, Freire foi deposto por uma nova maioria e a direção passou a um antigo militante do Rio de Janeiro, Comte Bittencourt. Aparentemente, Freire concordou com a substituição, mas depois recorreu à Justiça, obteve uma liminar do atual ministro Gilmar Mendes e, enfim, nova decisão judicial marcou uma assembleia para 11 de janeiro. A oposição a Freire parecia majoritária, mas ele assumiu a presidência da reunião já tarde da noite do dia 11, promoveu mini-eleições para preencher meras vagas abertas no Diretório Nacional e, isto feito, encerrou a reunião. De concreto, nada.
Oposição revoltada
Embora não haja dúvidas sobre o retorno de Freire, a oposição está indignada. Dirigentes da frente oposicionista que assumiu o partido durante a ausência do antigo presidente sequer puderam usar a palavra durante a reunião que se estendeu até a madrugada de 12 de fevereiro.
Foi o caso do ex-governador e ex-governador Cristovam Buarque, que pediu a palavra, mas foi solenemente ignorado por Freire. O mesmo aconteceu com outros oposicionistas, como o próprio Comte Bittencourt, presidente durante o tempo de afastamento de Freire.
Uma guinada à direita
Os opositores de Freire tinham um caminho mais ou menos traçado. Praticamente todos eles, inclusive Cristovam Buarque (foto) e Comte, eram contrários à federação costurada por Freire com o PSDB. Segundo eles, não apenas representava uma guinada à direita, como falhou no principal, que era fortalecer a bancada do grupo no Congresso.

Hoje a federação – que vive seus últimos dias, pois o prazo de duração é de quatro anos – conta com apenas 19 deputados, dos quais cinco do Cidadania. O objetivo explícito dos adversários era costurar uma nova federação, provavelmente com o PSB, que conta com 16 deputados, além de quatro senadores.
Isso representaria, é evidente, uma nova guinada, desta vez à esquerda, pois o PSB integra o governo Lula e lhe deu até o vice, Geraldo Alckmin. Com Freire à frente do Cidadania, o partido não se aliará a Lula de jeito nenhum. Os adversários temem até que a nova virada à direita aproxime o Cidadania do Republicanos, partido que, bem ou mal, mantém relações com os bolsonaristas.
Como formar a chapa
Em tudo isso, existe ainda uma corrida contra o relógio. Com o primeiro turno das eleições previsto para outubro, em 6 de maio fecha-se a data limite para regularizar a situação com a Justiça Eleitoral. Seja para tirar o primeiro título, coletar a biometria ou mesmo transferir o local de votação, o eleitor tem até esta data para resolver todas as pendências.
Depois, o cadastro eleitoral será fechado, incluindo os serviços on-line do autoatendimento eleitoral. Isso tudo vale, é claro, para as filiações dos deputados. Ou seja, aí já será jogo jogado. De 20 de julho a 05 de agosto realizam-se as convenções partidárias, quando partidos e federações poderão realizar os eventos para deliberar sobre coligações e definir candidatas e candidatos aos cargos em disputa.
A essa altura, a decisão vale apenas para filiados. Enfim, a 15 de agosto ocorrem os registros de candidatura: após a definição das candidaturas, os partidos têm até 15 de agosto para registrar os nomes escolhidos na Justiça Eleitoral. O importante, porém, é o prazo de filiação dos candidatos. Os filiados ao Cidadania estão em uma corrida contra os ponteiros do relógio, inclusive para saber se concorrerão por um partido que apoia a eleição de Lula ou e fica com um adversário.