Desde as duas participações nos realities culinários Masterchef e The Taste, a chef Raquel Amaral ficou conhecida pela sua cozinha autodidata, cheia de referências brasileiras e orientais que se misturam em meio a técnicas de cozinha clássica para criar receitas contemporâneas.
Olhando, e degustando, o cardápio do seu mais novo empreendimento, o Boqueta Bar, aberto na 108 Norte há algumas semanas, é possível chutar que os últimos anos foram de refino dessa identidade, resultando no que, para mim, é o seu melhor cardápio até agora.

Da logomarca, passando pelo nome, que traz o significado cravado na parede (abertura entre a cozinha e o salão, de onde saem pratos e copos), até, claro, a apresentação dos pratos, tudo saiu da cabeça de Raquel para chegar ao conceito de um bar feito para quem quer comer bem de verdade, e não apenas forrar o estômago entre uma cerveja e outra.
Da parte fria, é quase obrigatório pedir o Terra e Mar (rosbife, maionese de missô, alcaparras fritas, picles de mostarda, broto de rúcula e bottarga, R$ 37), já para sentir o tom da boa execução de técnica, com toque de picância, acidez e uma carne macia. Já o Tiradito de Carne de Sol (filé de sol da casa fatiado como sashimi, com vinagrete de pimentões coloridos e limão, R$ 24) me conquistou pela leveza, ótimo para um fim de tarde. Para os amantes de frutos do mar, grupo do qual faço parte, o Vinagrete Mar de Brasília (R$ 35,00) traz peixe, lula em tentáculos, mexilhão e camarão em vinagrete cítrico com ervas frescas, perfeito para dias e noites quentes, com muito frescor e uma porção de excelente custo-benefício, outra marca registrada da chef. Você nunca vai encontrar preços superfaturados em microporções nos cardápios assinados por ela.

Indo para a parte quente, o Croquete de Carne da Subida, servido com creme philadelphia de limão e mostarda escura (R$ 21), tem tudo para ser o coringa da casa para todos os paladares: muito recheio, suculento por dentro e crocante por fora. Já o Eisbein Elétrico (joelho suíno defumado com teriaki de tucupi e azeite de jambu, acompanhado de chucrute da casa, R$ 29) é o encontro perfeito entre Alemanha e Brasil, com dois ingredientes de personalidade que, aqui, não brigam entre si, pelo contrário, conversam e realçam o sabor da carne.
Criativas também são as opções de drinques autorais, com destaque para o Linha do Equador (maracujá, pequi, gengibre, cachaça ouro, R$ 33), que pela primeira vez na minha vida cumpriu a famosa promessa “prova, o pequi está suave, não vai te incomodar”. Dá para sentir as notas do fruto, mas realmente não me causou o ranço típico que qualquer receita com ele costuma causar, pois ele se mistura na medida certa com os outros ingredientes. Louvável.

O Ipê (licor Almazônia de jambu, cerveja IPA, campari e maracujá, R$ 38) conversou bem com meu paladar, sempre mais puxado para apreciar sabores amargos, mas também com muito equilíbrio, fazendo companhia a tudo que provei por lá. Essa talvez seja a linha que guia tudo no Boqueta: tudo tem uma explosão de sabor, mas nada agride o paladar ou se resume a uma nota só.
O que mais sai da Boqueta são receitas com camadas e complexidade que chegam sem pompa à mesa e são facilmente entendidas na primeira mordida ou no primeiro gole.