Menu
Cinema com ela
Cinema com ela

Meio século de deboche na volta triunfal de Xica da Silva às telonas

Versão remasterizada do clássico de Cacá Diegues chega aos cinemas nesta quinta-feira (15) para celebrar cinco décadas de irreverência

Tamires Rodrigues

15/07/2026 5h00

still xica 20

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Alguns filmes envelhecem mal. Outros parecem ter sido feitos de propósito para atravessar o tempo e continuar conversando com plateias que ainda nem existiam. “Xica da Silva” é desse segundo tipo. Ao completar cinquenta anos, a obra de Cacá Diegues volta aos cinemas em versão remasterizada, e o reencontro só confirma o quanto sua irreverência resistiu bem ao tempo. Ver hoje a trajetória da escrava que se torna Rainha do Diamante é perceber como certos símbolos do Brasil insistem em se repetir, e como o cinema nacional, naquele momento, encontrou uma forma inteligente e divertida de discutir o poder através do riso.

A história acompanha a ascensão de Xica, vivida por Zezé Motta, que seduz o poderoso João Fernandes e transforma essa relação em um instrumento de virada de jogo dentro de uma colônia construída sobre desigualdades profundas. O filme nunca teve compromisso com precisão histórica, e isso nunca foi problema: Diegues preferiu construir um mito, exagerado e visualmente exuberante, a produzir um documento fiel dos fatos. O que fica evidente é a vontade de celebrar a esperteza e a criatividade de um povo que aprendeu a negociar sua liberdade usando o próprio sistema contra si mesmo.

28 (1)
Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Por trás das gargalhadas, existe também um comentário afiado sobre o momento em que o filme foi feito. Lançado durante um dos períodos mais duros da ditadura, colocar uma mulher negra no centro da narrativa, confiante e determinada a viver seus próprios termos, já era por si só um ato de ousadia. A crítica ao abuso de poder e às hipocrisias de quem manda aparece disfarçada de comédia, e funciona tão bem hoje quanto funcionava há cinco décadas, mostrando que certos vícios de autoridade atravessam gerações sem perder a validade.

Zezé Motta carrega o filme com uma energia contagiante. Sua Xica é debochada, cheia de vida, do tipo que prende o olhar do espectador em cada cena. Mais do que uma personagem, ela virou referência de força e afirmação para mulheres negras que se reconheceram naquela figura corajosa e cheia de desejo. A direção de Diegues também acerta em cheio: ritmo ágil, cores vibrantes, uma câmera que abraça o exagero teatral sem medo, tudo embalado pela trilha marcante de Jorge Ben Jor, que gruda na memória e reforça o clima de festa do início ao fim.

Merece destaque também o personagem José, jovem revolucionário que sonha em transformar o país e que, ao final, se reencontra com Xica em uma cena carregada de significado. Os dois, cada um rejeitado à sua maneira pela sociedade que desafiam, terminam juntos, sugerindo que causas diferentes podem se unir na mesma busca por dignidade. É um fechamento emocionante que não abandona o tom brincalhão que sustenta a obra inteira.

Rever “Xica da Silva” em 2026 é quase uma descoberta. Longe de parecer antigo, o filme se mantém como um símbolo vivo de resistência cultural, misturando humor, crítica social e uma celebração genuína da sensualidade e inteligência brasileiras. Cacá Diegues foi muito além de uma cinebiografia comum: criou um manifesto de alegria e desobediência que continua intacto. Para quem quiser voltar às raízes de um dos maiores ícones do cinema brasileiro, a estreia desta quinta-feira é o convite perfeito para descobrir, na tela grande, porque Xica nunca deixou de ser um verdadeiro Carnaval.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Carlos Diegues;
Roteiro: Carlos Diegues e Antonio Callado;
Elenco: Zezé Motta, Walmor Chagas, Altair Lima, Elke Maravilha, Stepan Nercessian, Rodolfo Arena, José Wilker, Marcus Vinícius, João Felício dos Santos, Dara Kocy, Adalberto Silva, Julio Mackenzie, Beto Leão, Luis Motta, Paulo Padilha, Baby Conceição, Iara Jati, Luis Felipe, Alberto Patu, Derly Barbosa, Paulão, Pompeo.;
Gênero: comédia Dramática / histórico;
Duração: 117 minutos;
Distribuição: Vitrine Filmes;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Sinny Assessoria 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado