Após o polêmico discurso do excelente ator Wagner Moura, a coluna desta semana visa alertar, especialmente meus alunos de psicologia, para que, ao contrário do ator, saibam exatamente o que estão falando e não passem ao mundo a ideia de que nós, brasileiros, somos ignorantes culturais ao ponto de não sabermos distinguir os tipos de conceito e lógica de poder.
Assim, vamos começar pelo FASCISMO. Afinal, o citado ator disse, como dizem erroneamente diversos militantes, que o ex-presidente do Brasil era um “fascista”. Em história política, “fascismo” costuma ser tratado como uma forma específica de autoritarismo de massas, geralmente ultranacionalista, com um mito de “renascimento” nacional, mobilização emocional, culto à unidade do “povo verdadeiro”, produção de inimigos internos e a normalização da violência política (não necessariamente sempre igual ao nazismo, mas com “família de semelhanças”). Paxton descreve o fascismo menos pelo discurso e mais pelo que os movimentos fazem quando ganham espaço, incluindo alianças, captura institucional e escalada de coerção. Eco, por outro lado, propõe “sinais recorrentes” (não um checklist perfeito), como culto à tradição, intolerância à divergência, pensamento conspiratório e empobrecimento deliberado do debate público.
Se pensarmos em uma tradução psicológica, o fascismo se apoia em engenharia de identidade social (“nós puros” vs “eles, inimigos”), em ameaça percebida e em dinâmicas de obediência/adesão que recompensam conformidade e punem dissenso. Assim, é justo e democrático que grupos, instituições ou mesmo pessoas discordem da política do ex ou atual presidente, de suas condutas e do que mais quiserem, mas, pelo menos, que saibam o que estão falando, já que um foi chamado de fascista e o outro tem sido chamado de ditador.
Vamos agora à “Tirania”, que é um conceito mais antigo e mais “moral” do que tipológico: refere-se ao governo arbitrário que ignora limites legais/éticos e governa em benefício próprio (ou de um círculo), muitas vezes com personalismo, medo e punição seletiva. Na tradição moderna, ela não precisa mobilizar massas com uma ideologia totalizante; pode funcionar com arbitrariedade, coerção e clientelismo.
Se pensarmos em uma tradução psicológica, a tirania opera pela aprendizagem do medo, pela imprevisibilidade (que desorganiza a resistência) e por “lealdades” (troca de proteção por submissão).
Na “Ditadura” temos um regime: suspensão ou esvaziamento de competição política real, concentração de poder e redução de liberdades civis. Pode ser militar, partidária, personalista, etc. Ela pode existir sem o componente mítico-mobilizador típico do fascismo e sem a arbitrariedade total da tirania (algumas ditaduras são “institucionalizadas”, com regras internas). Arendt ajuda a separar: ditaduras “clássicas” reprimem sobretudo opositores; regimes totalitários (um extremo) tentam controlar a vida inteira e a realidade compartilhada.
Temos ainda a tradição da personalidade autoritária. Adorno e colegas descreveram constelações de traços/atitudes (convencionalismo, submissão à autoridade percebida como legítima, agressividade contra “desviantes”) associadas à atração por soluções duras e hierárquicas. Modelos mais atuais (ex.: Right-Wing Authoritarianism) tratam o autoritarismo como síndrome atitudinal (submissão, agressão autorizada, convencionalismo), que cresce quando as pessoas percebem ameaça/caos e buscam ordem.
Em paralelo, a Social Dominance Theory descreve preferências por hierarquias entre grupos (desigualdade “naturalizada”) e como instituições e ideologias legitimam essas hierarquias.
Mesmo fora de “personalidades autoritárias”, pessoas comuns podem aderir a práticas abusivas quando:
- há autoridade, difusão de responsabilidade e rotinas (o tipo de mecanismo popularizado por Milgram, ainda que a literatura recomende cautela com simplificações);
- há identidade de grupo forte e polarização (“se você critica, você trai”), o que aproxima o fenômeno da dinâmica “discordância igual a deslealdade” que Eco discute.
Voltando à nossa realidade, é sempre bom lembrar que o Brasil é uma democracia constitucional com conflitos institucionais, e conflitos entre poderes não equivalem, por si só, a fascismo, tirania ou ditadura. O que a Psicologia nos ajuda a enxergar são padrões que, se acumulados, podem degradar a democracia: deslegitimação sistemática de árbitros, culto a inimigos, incentivo à violência, “verdades paralelas”, etc.
Quando a política vira identidade (“quem discorda é inimigo”), o debate deixa de ser sobre fatos e passa a ser sobre pertencimento. Isso aumenta a tolerância a medidas “excepcionais” do próprio lado e a indignação maximalista contra o outro. O resultado típico é escalada de cinismo, paranoia e disposição a punições.
No Brasil, o tema desinformação aparece como um eixo central dessa erosão: o Senado tem discutido propostas de enfrentamento e os limites entre liberdade de expressão, responsabilidade de plataformas e proteção do processo democrático. A Câmara também debate há anos propostas de regulação (como o PL 2630), frequentemente associadas a disputas sobre moderação, transparência e alcance de mensagens.
Em cenários polarizados, cortes constitucionais tendem a virar totens: para uns, “último dique”; para outros, “inimigo interno”. Isso é psicologicamente previsível: instituições que impõem limites geram frustração, e movimentos populistas (de várias cores) costumam tentar converter frustração em narrativa moral (“eles roubam sua voz”).
No noticiário recente, há debate público sobre inquéritos instaurados de ofício no STF e críticas/defesas sobre desenho institucional, devido processo e separação de funções, discussão que virou tema de cobertura analítica nesta semana. Também há sinais de tensão entre STF e Congresso já no início de 2026, em torno de regras e fiscalização de emendas parlamentares, com expectativa de novos embates institucionais.
Do ponto de vista psicopolítico, dois riscos opostos podem coexistir:
- Deslegitimação total da Corte (tratá-la como inimiga do povo), que é combustível clássico para erosão democrática.
- Hiperjudicialização/hiperexcepcionalidade (a política migrando demais para decisões judiciais), que pode alimentar ressentimento, teorias conspiratórias e a sensação de “tutela”, ampliando a polarização.
O ponto não é “quem está certo” no atacado, mas o ciclo: desinformação → desconfiança → medidas excepcionais → reação → mais desconfiança.
Um marcador historicamente grave de degradação democrática é quando atos contra as instituições deixam de ser “impensáveis” e viram “opinião legítima”. Neste sentido, temos o 8 de janeiro. No Brasil, o STF segue julgando e condenando “envolvidos” nos atos de 8 de janeiro de 2023; o próprio STF reportou novas condenações e números acumulados de responsabilização.
Veículos públicos e agências têm noticiado constantemente desdobramentos desses julgamentos, inclusive declarando o ocorrido como uma tentativa de “golpe”. Neste sentido, não me cabe aqui julgar este mérito, afinal, não estava lá, não sou das forças policiais e investigativas e só acompanhei, como a maioria dos brasileiros, o ocorrido pelas imagens da televisão e das redes sociais. Entretanto, como psicólogo e estudante da psicologia forense, me instiga a ideia de um golpe sendo realizado em um domingo, sem armas, sem apoio do exército, sem apoio de pelo menos grande parte de prefeitos e governadores, já que somos um país de dimensões continentais.
Mas, como disse, não me cabe o julgamento, apenas o questionamento à luz da psicologia forense (que analisa dados, documentos e comportamentos, entre outras coisas).
Essa visão passada à população me assusta, já que, psicologicamente, isso conversa com Arendt: quando a esfera pública se organiza por propaganda/ficções e a violência vira instrumento “moral”, cresce a disponibilidade para soluções autoritárias, mesmo sem “regime” formal já instalado.
Diante do exposto, espero que meus alunos saibam, a partir de agora, distinguir os termos erroneamente utilizados pelos militantes de plantão:
- Fascismo: tende a ser um movimento de massas com mito de renascimento nacional, inimigos internos, anti-intelectualismo e conversão da política em guerra cultural permanente.
- Tirania: tende ao arbítrio personalista, medo e punição seletiva, com menos necessidade de mito estruturado.
- Ditadura: é o arranjo institucional que concentra poder e reduz competição/garantias; pode ser mais “burocrática” ou mais personalista.
E lembrando do que disse nosso aclamado ator a respeito do ex-presidente do Brasil, acredito que, desde o governo Dilma, temos passado por uma disputa pela legitimidade das instituições (incluindo, recentemente, o STF), num ambiente de desinformação e polarização, com efeitos de “tribalização” do debate público e incentivos para decisões e reações cada vez mais excepcionais.
E quando busco, em meus textos, explicar a meus alunos, leitoras e leitores os acontecimentos à luz da psicologia, o faço com a certeza de que a lente da Psicologia ajuda a mapear como pessoas e grupos passam a aceitar o inaceitável: por ameaça percebida, identidade, obediência, recompensas sociais e desumanização simbólica do outro, e como isso pode levar a trajetórias de erosão democrática mesmo sem “golpe clássico”.
Até a próxima…