Como psicólogo, assusta-me observar nas redes sociais colegas de profissão, em seus perfis profissionais, tratando escolhas eleitorais como prova imediata de ignorância ou incoerência, com frases como “vocês não amam o Brasil”, “as mulheres levaram anos para votar e agora elegem quem não as permite votar” ou ainda “triste ver o Brasil se render a essa gente”. A minha inquietação não nasce da discordância política, mas da rapidez com que o julgamento substitui a tentativa de compreender o outro. Fico imaginando: se o resultado nas urnas fosse diferente, o que teríamos?
E, antes que a turma do viés ideológico se manifeste, já me adianto: a coluna desta semana não trata de preferência político-ideológica, e sim do fenômeno ocorrido no primeiro turno e das reações de uma categoria que deveria reconhecer a diversidade, e não condená-la quando diverge de suas escolhas. Diante disso, quando transformamos uma escolha em definição total de quem a fez, deixamos de perguntar pelos processos que a produziram e passamos a interpretar a pessoa a partir de uma conclusão previamente estabelecida. A pergunta que deveria mobilizar nossa escuta talvez não seja “como alguém pode ser contraditório a esse ponto?”, mas “o que essa escolha significa para quem a fez?”. Essa inversão não exige abandonar posições políticas nem suspender a crítica aos efeitos sociais de uma decisão. Exige reconhecer que discordar de alguém e compreender seu funcionamento psicológico são tarefas distintas, e que a primeira não substitui a segunda.
O primeiro turno das eleições brasileiras de 4 de outubro de 2026 oferece uma ocasião particularmente instigante para essa reflexão. Segundo a divulgação do Tribunal Superior Eleitoral, com 99,99% das urnas apuradas, o candidato de direita alcançou 47,03% dos votos válidos, e o de esquerda, 45,16% (Brasil, 2026). A proximidade na disputa presidencial conviveu com resultados diferentes em outras esferas: segundo levantamento da Folha de S.Paulo, os partidos classificados pelo jornal como de direita conquistaram 59,1% das cadeiras da Câmara dos Deputados; o UOL registrou a eleição de 19 senadores do PL entre as 54 vagas disputadas; e reportagem de João Pedro Pitombo apontou vitórias de aliados do candidato de direita em dez governos estaduais, diante de cinco vitórias de aliados do candidato de esquerda no primeiro turno (Watanabe; Branco, 2026; UOL, 2026; Pitombo, 2026). Esses recortes não são equivalentes: classificação ideológica, filiação partidária e apoio presidencial não designam a mesma coisa. Ainda assim, ajudam a formular a questão central deste ensaio: por que o apoio a uma liderança presidencial não precisa reproduzir, em todas as outras escolhas, o apoio ao seu campo político?
Antes de interpretar essa diferença, é preciso distinguir o comportamento coletivo da experiência individual. Um estado não é uma mente: reúne pessoas com histórias, interesses e avaliações distintas. Uma votação expressiva em um candidato presidencial de esquerda, quando acompanha a eleição de um governador de direita, não identifica automaticamente quais eleitores combinaram essas escolhas. A advertência de Robinson (1950) sobre as correlações ecológicas permanece pertinente: relações observadas entre conjuntos não podem ser transportadas diretamente para os indivíduos que os compõem. O problema psicológico começa quando uma mesma pessoa efetivamente realiza essa combinação, e não quando apenas a imaginamos a partir de totais eleitorais. Por isso, as teorias mobilizadas aqui oferecem hipóteses para compreender escolhas cruzadas, sem demonstrar sua frequência nem estabelecer os motivos dos brasileiros que votaram em 2026.
A expectativa de que todos os votos de alguém expressem um pertencimento único pressupõe que as atitudes humanas se organizem como um bloco indivisível. Ajzen e Fishbein (1977), ao examinarem a relação entre atitudes e comportamentos, destacaram a importância da correspondência entre os elementos considerados: alvo, ação, contexto e tempo. Uma atitude geral diante de uma categoria política não equivale à avaliação de votar em determinada pessoa para determinado cargo. A formulação não foi construída para explicar esta eleição, mas permite questionar uma passagem frequentemente feita sem cuidado: da preferência presidencial à suposição de adesão integral a todos os candidatos associados à mesma orientação. Aplicada ao problema deste ensaio, ela sugere que esquerda, direita, partido, liderança e decisão eleitoral são objetos relacionados, mas não intercambiáveis. Não se trata de afirmar que uma atitude geral seja irrelevante; trata-se de reconhecer que sua capacidade de explicar uma ação depende do nível em que ambas são examinadas.
Na experiência cotidiana, essa diferenciação costuma causar menos estranhamento. Podemos confiar em um professor e desaprovar a instituição em que ele trabalha, reconhecer a competência de um médico e discordar de suas opiniões, ou admirar alguém em uma função sem lhe atribuir autoridade em todas as outras. Nesses exemplos, a confiança tem um objeto e um alcance. Por analogia, é concebível que um eleitor atribua a um presidente a capacidade de proteger condições de vida e a um governador de outro campo a capacidade de administrar problemas locais. Essa ilustração não identifica uma motivação eleitoral real, mas explicita a estrutura da hipótese: a pessoa pode distribuir sua confiança segundo funções e expectativas distintas. A aparente incompatibilidade surge quando o observador exige que essas avaliações particulares sejam subordinadas a uma única classificação.
Outra possibilidade é que o voto seja organizado, em parte, pelo que se deseja impedir. Areal (2022), utilizando estudos eleitorais brasileiros de 2014 e 2018 e uma pesquisa independente, investigou o papel das identidades políticas negativas na polarização afetiva. Seus resultados ressaltam a relevância de uma identificação constituída pela rejeição a um partido ou liderança, que pode existir sem um pertencimento positivo de força equivalente. O objeto desse estudo foi a hostilidade entre cidadãos de campos opostos, e não a combinação de votos na eleição de 2026. A aproximação proposta neste ensaio é, portanto, interpretativa: pessoas podem convergir em uma candidatura porque rejeitam uma alternativa, embora não compartilhem um projeto político abrangente. Convém preservar uma distinção: uma recusa ocasional não constitui, por si, uma identidade negativa estável. Mesmo assim, a pesquisa ajuda a tornar plausível a hipótese de uma convergência eleitoral sustentada mais pela oposição comum do que pela identificação comum.
Nesse registro, uma pessoa poderia apoiar um governador conservador e votar no candidato da esquerda para presidente para impedir a vitória do candidato da direita; outra poderia preferir candidaturas de esquerda em seu estado e votar no candidato da direita para presidente para evitar a continuidade do candidato da esquerda. As possibilidades são simétricas e não devem ser convertidas em descrições comprovadas dos eleitores. O ponto psicológico é que adesão e recusa podem participar da mesma decisão em proporções diferentes. Duas pessoas que assinalam o mesmo nome na urna podem ter percorrido caminhos subjetivos quase opostos: uma se aproxima de uma promessa; outra se afasta de uma ameaça. O resultado reúne aquilo que a experiência separa. Dessa maneira, uma candidatura pode receber votos de pessoas que não formariam, entre si, uma comunidade de valores ou de expectativas para os demais cargos.
A teoria de campo de Kurt Lewin (1935) permite aprofundar a relação entre escolha e significado. A conduta deve ser compreendida na configuração entre a pessoa e seu ambiente psicológico, considerando necessidades, objetivos, obstáculos e as forças de atração ou afastamento presentes na situação. Duas alternativas formalmente semelhantes podem adquirir valores distintos nesse campo; uma mesma alternativa pode, por sua vez, reunir aspectos desejáveis e indesejáveis. Aplicada como lente ao voto, essa formulação permite pensar que presidente, governador, senador e deputado ocupem posições diferentes na experiência do eleitor. Uma escolha pode estar ligada à lembrança de proteção econômica; outra, à expectativa de segurança, continuidade administrativa ou confiança pessoal. São exemplos hipotéticos de significados possíveis, não funções psicológicas fixas de cada cargo. A contribuição de Lewin está em deslocar a análise da etiqueta isolada para a configuração em que a alternativa se torna relevante para quem decide.
Essa configuração também pode incluir conflitos. Na análise de Lewin (1935), alternativas dotadas de valências positivas e negativas ajudam a compreender situações em que a decisão envolve atração, afastamento ou a necessidade de escolher entre possibilidades indesejáveis. Votar, nessa perspectiva, pode significar aceitar limitações para evitar uma consequência considerada mais ameaçadora. Uma analogia cotidiana torna essa estrutura reconhecível: alguém aceita um emprego cuja estabilidade valoriza, embora desaprove parte de suas condições, porque avalia como pior permanecer sem renda. A escolha não demonstra aprovação integral do trabalho. De modo semelhante, escolher uma candidatura não revela, por si, entusiasmo, identificação ou concordância completa. A tensão pode permanecer depois da decisão; decidir resolve uma exigência prática sem necessariamente reconciliar todas as avaliações que a antecederam.
O que parece descontinuidade entre votos pode, assim, abrigar uma continuidade de finalidade. Um eleitor poderia procurar preservar aquilo que considera indispensável em cada esfera e utilizar candidaturas diferentes como meios para esse objetivo. Essa hipótese não torna toda escolha dividida coerente, informada ou refletida; tampouco elimina contradições efetivas. Ela apenas impede que o desacordo entre rótulos seja tomado como demonstração suficiente de incapacidade de pensar. A coerência subjetiva precisa ser examinada, e não concedida automaticamente ou recusada de antemão. Para a psicologia, interessa compreender quais relações a pessoa estabelece entre suas expectativas, suas lembranças e as consequências que imagina, inclusive quando essas relações parecem inadequadas ao observador.
A formação de impressões acrescenta outra camada a essa interpretação. Lodge, McGraw e Stroh (1989) compararam modelos de avaliação de candidatos e encontraram evidências favoráveis a um processo em que as informações alimentam uma impressão à medida que são encontradas. O julgamento posterior, portanto, não depende apenas da recuperação dos detalhes disponíveis na memória. A aproximação com o problema aqui discutido permite levantar a hipótese de que uma avaliação pessoal relativamente duradoura continue orientando o voto, mesmo quando o eleitor não consegue enumerar todas as experiências que a sustentaram. Isso não demonstra precisão ou qualidade da avaliação, nem exclui vieses. Sugere, contudo, que a confiança em uma liderança possa conservar certa autonomia diante da imagem de seu partido. Alguém pode manter uma impressão favorável de um presidente e, simultaneamente, avaliar positivamente um governador de outro campo, sem organizar ambas as impressões por uma única regra ideológica.
A teoria da dissonância cognitiva de Festinger (1957) exige um cuidado adicional. Relações dissonantes entre cognições podem produzir desconforto e motivar tentativas de reduzi-lo, por exemplo, mediante novas justificativas ou mudanças na importância atribuída aos elementos envolvidos. Esse processo não equivale a qualquer diferença entre escolhas. Um eleitor que considera obrigatório apoiar exclusivamente um campo político pode experimentar tensão ao votar de forma cruzada; outro, para quem os cargos exigem critérios distintos, pode integrar a combinação sem o mesmo conflito. A avaliação depende das relações entre suas cognições, e não apenas da surpresa de quem o observa. Dissonância, ambivalência e incoerência não são termos equivalentes. Invocar Festinger para classificar todo voto dividido como dissonante substituiria a investigação por uma aplicação automática da teoria, precisamente o procedimento que uma leitura psicológica cuidadosa deveria evitar.
Há, portanto, uma pergunta que retorna ao próprio intérprete: que modelo de pessoa estamos utilizando quando exigimos que todas as suas escolhas reproduzam uma identidade uniforme? Talvez estejamos atribuindo às categorias políticas o poder de organizar integralmente as relações de confiança, as lembranças e os temores de alguém. Reconhecer o valor dessas categorias não obriga a tratá-las como explicação total. Também não obriga a negar que existam desinformação, preconceitos ou decisões contraditórias. Obriga, sim, a distinguir o que foi observado daquilo que foi inferido. Para quem trabalha com psicologia, uma posição política pode orientar a crítica pública, mas não oferece, sozinha, fundamento para definir a inteligência, a personalidade ou a saúde mental de quem votou de maneira diferente.
Talvez o aspecto mais provocador desse fenômeno esteja na distância entre a uniformidade do registro e a pluralidade das experiências. Pessoas podem coincidir no voto e, ainda assim, atribuir sentidos muito diferentes ao que fizeram. A aparente contradição entre Presidência, Governo Estadual, Senado e Câmara pode, em alguns casos, refletir tensões reais; em outros, uma coerência que os critérios do observador não alcançam. Compreender essa pluralidade não exige aprovar todas as escolhas, mas exige resistir à redução da pessoa ao rótulo que lhe atribuímos. A urna registra a alternativa escolhida; não registra a lembrança que a tornou confiável, o receio que tornou outra intolerável ou o conflito que permaneceu depois da decisão. Nesse sentido, a psicologia começa justamente onde termina a contagem: no esforço de compreender por que o mesmo gesto pode carregar histórias tão diferentes.
Àqueles que tão prontamente desqualificam o eleitor diferente, cabe um exercício menos confortável: aplicar a defesa da diversidade mesmo quando ela deixa de lhes oferecer o prazer da concordância. Afinal, é bastante cômodo celebrar a liberdade religiosa quando a crença alheia recebe nossa aprovação, defender a autonomia quando o outro escolhe o que escolheríamos e acolher a pluralidade quando todas as vozes dizem, com pequenas variações, aquilo que já pensamos. Nessa versão tão conveniente da tolerância, o outro tem plena liberdade para ser diferente, desde que não leve a diferença muito a sério. Quando ultrapassa esse limite, sua autonomia passa a ser ignorância, sua convicção vira alienação e seu voto parece autorizar um diagnóstico à distância.
Compreender alguém não exige aprovar suas escolhas; exige, porém, mais do que conceder humanidade apenas a quem confirma nossos valores. Assim, antes de interpretar a suposta incoerência do eleitor, convém examinar essa curiosa diversidade que só admite semelhantes.
Até a próxima…