Nos bastidores do Palácio do Planalto, corre a história de que Lula está enfurecido com a lambança relacionada ao caso de uma empresária que, com supostos interesses no governo, pagou por joias encomendadas pelo seu chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”.
O caso ganha octanagem de nitroglicerina desde a descoberta de uma suspeita troca de mensagens da tal empresária com Lulinha, filho do presidente, no curso de investigações da Polícia Federal.
No que diz respeito a Marcola, o PT trabalhou rápido para evitar uma contaminação do processo eleitoral, afastando o ex-chefe de gabinete de Lula do chamado Estado-Maior da campanha de reeleição. O isolamento veio seguido da providência de cancelamento da indicação de recondução de Marcola para uma vaga no cobiçado Conselho da Terracap.
A operação de cancelamento de Marcola repete o modus operandi que tirou de circulação o inesquecível Silvio Pereira, então secretário-geral do PT, no escândalo do mensalão, em 2005. Marcola está vivendo o mesmo “exílio político” que Silvio Pereira sofreu, com a perda imediata do poder, o silêncio dos antigos amigos e o isolamento implacável.
Silvio ganhou uma Land Rover de uma empresa com negócios na Petrobras. Marcola recebeu dinheiro da empresária que pagou pelas joias que ele tinha encomendado.
Em 2005, o isolamento de Silvio funcionou bem, e Lula foi reeleito, mesmo sob o signo do mensalão. Uma missão complicada, visto que Lula disputava o voto com Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, respeitado pelo seu padrão moral.
Mas a família Lula da Silva não estava inserida no contexto do escândalo do mensalão que, aliás, surgiu da versão de um político que usou uma entrevista como estratégia de contra-ataque, depois de incriminado num esquema de corrupção na estatal brasileira dos Correios.
O último Datafolha, entretanto, confirma a primeira impressão de sucesso para a operação que “cancelou” Marcola. O Datafolha sugere que 72% dos eleitores já estão totalmente decididos sobre em quem votar, dificultando que notícias negativas mudem rapidamente a cabeça das pessoas.
Lula lidera com 39% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 33%.
Todavia, ninguém pode ignorar que a imutabilidade de 72% dos eleitores também vale para Flávio Bolsonaro, que segue no retrovisor de Lula.
A briga é delicada e será decidida pelos 28% dos eleitores que não habitam as bolhas do PT ou do bolsonarismo.
Lula não precisa proteger Lulinha. Precisa proteger sua candidatura de uma suspeita sobre uma tentativa de protegê-lo.
Segundo vazamentos, a empresária que pagou despesas pessoais de Marcola é Roberta Luchsinger, que teria encaminhado a Marcola a minuta relacionada à venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com previsão de contratação sem licitação.
O negócio não prosperou. Mas o noticiário botou no mesmo balaio a empresária com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, de quem teria recebido R$ 1,5 milhão no contexto das articulações sobre o canabidiol.
O conjunto da obra é eleitoralmente explosivo, na medida em que reúne ingredientes como conversas sobre negócios, integrantes do governo, despesas pagas, joias, proposta comercial destinada a um ministério e, para completar, uma conversa meio sem noção entre o filho do presidente e a empresária Roberta Luchsinger, que fala sobre um “futuro na Suíça”.
O presidente Lula, entretanto, em entrevista exclusiva à Record no último domingo, soube se proteger de um suicídio político no curso das suspeitas contra seu filho Lulinha e seu ex-chefe de gabinete.
Ele jogou água no chope da oposição no momento em que deixou claro que jamais agirá para evitar a investigação de um suspeito, salientando: “isso vale para o meu filho, vale para qualquer pessoa. Ninguém está acima da lei se cometer erro”.
Prevalecendo este caminho, Lula tem tudo para vencer mais essa crise. Apesar do “já ganhou” que sempre seduz bajuladores palacianos.