A crise do Supremo deixou de ser apenas uma crise do Supremo. Virou problema eleitoral e bateu à porta do Palácio do Planalto. Lula enfrenta um dilema clássico, com prazo de validade: pode assumir a iniciativa de reunir os chefes dos Três Poderes para discutir uma reforma emergencial do Judiciário ou permanecer na zona de conforto, administrando gestos cheios de dedos para não ferir suscetibilidades.
O problema é que o conselho da primeira alternativa dificilmente partirá de um bajulador palaciano, espécie que costuma congestionar o entorno do poder, fazendo cara de paisagem. Lula não é responsável pelas condutas individuais dos ministros, nem pelas suspeitas e bate-bocas que atingem a Corte. Mas eleição não respeita a delicadeza da separação constitucional dos Poderes.
Na campanha, associação vale quase tanto quanto responsabilidade. E os adversários perceberam isso. Flávio Bolsonaro tenta associar o governo à crise do STF, enquanto outros candidatos transformam o desgaste da Corte em tema eleitoral. Lula procura marcar distância e, simultaneamente, defende investigação e mudanças no Judiciário.
Há motivo para preocupação. As últimas pesquisas divulgadas não são alentadoras. Lula pode assistir à oposição transformar a reforma do Judiciário em bandeira eleitoral justamente quando setores do PT e da base já defendem mudanças. Ou pode disputar a autoria dessa agenda.
Lula declarou que ninguém deveria permanecer décadas no cargo e defendeu novos critérios de escolha para o Supremo. Mas isso é pouco. Do outro lado, Damares Alves conseguiu aprovar na Comissão de Direitos Humanos do Senado indicação para que a CCJ reúna propostas e tente produzir, em 60 dias, uma reforma do Judiciário.
Portanto, a questão não é mais saber se haverá debate, mas quem dará significado a ele. Do jeito que está, caminha para disputa de linha de galo.
Uma coisa é revanche. Outra é saneamento institucional. Se Lula assumir protagonismo, poderá defender instituições submetidas a regras, inclusive quando elas limitarem ministros indicados por ele. Se apenas reagir, permitirá aos adversários escreverem a narrativa da crise.
E adversário político não costuma escrever biografia alheia com generosidade.
Curiosamente, Lula parece ter percebido parte disso antes de alguns estrategistas. Já defendeu investigação de ministros eventualmente envolvidos com Daniel Vorcaro, mandatos e novos critérios para o STF. Segundo a CNN, chegou a pedir atualizações periódicas sobre a sessão do Supremo.
Informação, portanto, não falta. Talvez falte metabolismo.
Assessoria que apenas avisa ao presidente que o telhado está pegando fogo presta serviço importante, mas não exatamente sofisticado. Para isso existe alarme de incêndio. Marqueteiros e estrategistas são pagos para enxergar movimentos antes que virem slogans adversários.
Talvez haja no entorno presidencial gente excessivamente dedicada à velha especialidade de explicar ao chefe como ele está certo. Bajulação é atividade política antiquíssima. Análise dialética dá mais trabalho.
Lula construiu sua trajetória percebendo mudanças, negociando com adversários e ocupando espaços que pareciam pertencer aos outros. Foi assim que o sindicalista incendiário virou o candidato da Carta ao Povo Brasileiro. A política sobrevive de movimento.
E a crise do Supremo tem combustível para atravessar a campanha. O julgamento foi interrompido por pedido de vista, propostas de reforma avançam no Congresso e os conflitos internos da Corte continuam produzindo repercussão.
Numa eleição apertada, ninguém escolhe carregar um piano para descobrir depois quanto ele pesava.
Lula precisa decidir se será o presidente que observa uma instituição tentando resolver sua crise ou o chefe do Executivo que toma a iniciativa e participa do debate sobre novas regras, preservando a independência judicial e submetendo todos os Poderes a controles mais claros.
Porque crise política tem uma característica desagradável: quando alguém deixa um espaço vazio, outro ocupa.
E normalmente não pede licença.