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Analice Nicolau
Analice Nicolau

Violinista contemporânea, Nathália Rodrigues conta sobre desafios artísticos enfrentados em sua carreira e as dificuldades de ser uma mulher trans

A artista teve uma infância marcada pelo preconceito, mas encontrou na música um refúgio e uma profissão.

Analice Nicolau

18/05/2023 17h30

Natural de Nilópolis, cidade de baixada fluminense do Rio de Janeiro, Nathália Rodrigues foi criada pelos avós. Por causa da disforia de gênero que ela apresentava desde a infância, os avós que eram seus cuidadores preferiram colocá-la em colégios particulares para que ela não sofresse preconceito. Mas infelizmente, mesmo com as medidas de cuidados, ela sofreu bullying na época escolar.

“Quando eu migrei da sétima série em diante, que foi quando eu comecei a me descobrir mais, eu comecei a sofrer muito bullying na escola. Eu estava até conversando isso com um amigo meu da época da escola ontem, sendo que ele é gay e eu sou trans. Na época, eu era pré-adolescente, eu não havia começado a transição ainda e foram momentos horríveis. Em uma das escolas que eu estudei, tinha dois portões, um saía o primário e outro saía o ginásio, eu evitava sair pelo portão do ginásio, no caso a minha turma, porque tinha uma padaria ao lado onde ficava todos os meninos da escola e já me tacaram ovo, já me tacaram pedra”, relembra.

Além do bullying, Nathália sofria intolerância religiosa por ser adepta de religiões pagãs, no caso a Wicca. Logo, além do preconceito, ela sofreu com distanciamento das pessoas. “Quando eu migrei para ensino médio, eu mudei de escola e eu já estava meio que blindada com essas coisas todas que aconteceram na outra escola, eu já fui para outra escola mais em alerta e foi quando eu comecei a revidar. Eu comecei a não levar desaforo para casa. Porque tinha vezes que minha mãe precisava me buscar, mas aí eu prometi que ninguém mais ia me humilhar”, recorda.

Foi também no ensino médio que ela começou as aulas de música, mais precisamente no primeiro ano. “Foi tudo um conjunto, por eu ser uma pessoa naquela época que sofria muito bullying, eu evitava sair de casa, eu ficava sempre em casa assistindo documentários no Discovery Channel, no
History Channel e sempre passava documentários sobre as civilizações antigas, as quais me despertavam muito interesse, por eu já gostar desse mundo, aí eu fui me aprofundar mais, gravava os horários dos programas e eu aprendi muito, nisso eu estudei a cultura dos Celtas, que no caso a Wicca veio deles, eu estudei a cultura dos Egípcios, dos Gregos e foi quando eu acidentalmente me deparei com a música. Porque estudando a história geral das civilizações eu me apaguei muito a música Celta, a música Irlandesa e ao New Age que é um filhote da música Celta, porque ele foi criado pela Enya. E na música Celta o violino ele é usado bem diferente do jeito que ele é usado nas Orquestras, a pessoa dança tocando o violino, porque são músicas folclóricas, são músicas para as pessoas dançarem e gostei da forma leve da música tradicional Irlandesa, da música Celta usavam o violino e aquilo me encantou. Foi quando eu decidir fazer aula de violino, eu comecei a fazer bem antes da transição e fiquei dois anos fazendo, até que quando eu comecei a me descobrir, que eu não era homossexual, eu era transgênero, que foi quando eu comecei a tomar hormônio escondida, eu acidentalmente, eu digo acidentalmente por que foi uma coisa que eu não queria, aconteceu sem eu perceber, eu me afastei da música”, lembra.

Após ficar alguns anos distanciada da música, Nathália decidiu retomar sua carreira artística e ir atrás de seus sonhos. “Em 2020 em perdi os meus avós, eles que foram os que mais me incentivaram a entrar na música, porque eles viam que eu era uma pessoa que eu não saía muito, eles viam que não era uma pessoa que me socializava muito, eles me incentivavam muito na música. Eles colocavam o DVD do André Rieu para eu assistir e eu ia me encantando cada vez mais com o mundo da música. Quando foi 2020 que eles faleceram por conta da Covid-19, o meu avô foi dez dias depois da minha avó, foi bem no pico pandemia. Eu passei por um choque de realidade muito grande, porque a gente estava em lockdown, estava todo mundo em casa, eu pensei muito, foi um momento de muita reflexão para mim, vivi o luto também. Quando foi no final de 2021, que tudo estava voltando ao normal, eu imediatamente procurei um curso para poder voltar as aulas, porque os instrumentos eu já tinha, porque meus avós tinham me dado, como eu fiquei muito tempo afastada eu meio que desaprendi. Aí eu fui e comecei o maestro da Orquestra Sinfônica da Baixada Fluminense, fiz aula com ele, me preparei com ele entrei para OSBF (Orquestra Sinfônica da Baixada Fluminense) e estou até hoje. Eu toco na orquestra, mas eu também tenho o meu lado na música que eu uso na música Celta, já fui convidada pela Consulado Geral da Irlanda para me apresentar, eu sou uma violinista bem contemporânea, eu toco vários estilos. Assim eu estou seguindo, estou avançado no mundo da música, ainda continuo como artista independente, eu sei que tudo isso é uma fase, mas estou vendo que eu sozinha estou tendo um resultado bem positivo e eu estou gostando muito, eu estou bem feliz. Eu ouvia muito no passado que eu não ia conseguir nada na vida sendo quem eu sou, as pessoas tentavam o tempo todo me limitar, eu trans, eu sendo quem eu sou, que eu não ia conseguir nada na vida, que eu não ia conseguir fazer nada. Na pandemia eu retifiquei meus documentos e depois disso eu comecei, foi praticamente como eu tivesse começado do zero e pensei ‘Bem, como eu tenho meus documentos retificados, ninguém pode falar mais nada’, e foi quando eu comecei a encarar as coisas com cabeça erguida tanto na parte da música, como na parte da vida social em geral”, completa.

Além de sua atuação como violinista na Orquestra Sinfônica da Baixada Fluminense, Nathália também é convidada para tocar em diversos lugares, dessa forma ela consegue apresentar todo seu talento e versatilidade como artista. Germano Dusha a convidou para participar da exposição artística Esfíngico Frontal, que aconteceu na galeria Mendes Wood DM em São Paulo. Nathália integrou um quarteto de cordas na exposição do TIERRA MEMORIA, que conta com a organização de Vinícius Duarte, a participação do contrabaixista Vinicius Frate, a violinista Nádia Fonseca, o violoncellista Matheus Macedo, o DJ Sávio de Queiroz. O evento contou com a exposição de diversos artistas do mundo inteiro.

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