Jornal de Brasília

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Analice Nicolau

Com falha na segurança, TJRS sofre atake hacker

75% do sistema está inoperante e sem previsão de retorno

Por Analice Nicolau 04/05/2021 7h37
TJRS Prédio do TJRS

Na última quarta-feira, 28, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul foi vítima de um ataque hacker que deixou a corte sem acesso aos sistemas por mais de 24 horas. A invasão ocorreu durante a madrugada e foi identificada na manhã do mesmo dia, quando os funcionários começaram a trabalhar. Sistemas de e-mails e o próprio site do Tribunal ficaram sem operar. Em decorrência do ataque, estão suspensos os prazos processuais dos processos físicos e eletrônicos, tanto na área judicial quanto administrativa. Os funcionários estão sendo orientados a usarem, somente, seus aparelhos eletrônicos pessoais, e a não acessarem o sistema.

“Já tivemos tentativas de ataques, mas nunca tivemos um nessa escala. É algo sem precedentes”, disse o desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, do Conselho de Comunicação do TJ, em entrevista a Tilt.

Segundo BleepingComputer, que recebeu capturas de tela de conversas entre funcionários do tribunal, o TJ-RS foi infectado com um malware Ransomware REvil, que criptografou dados do servidor e também dos funcionários, fazendo a corte optar pela precaução e desligar sua rede. Em negociação feita para resgate das informações criptografadas, os hackers esperam adquirir o montante de US$ 5 milhões, ou R$ 26 milhões.

O desembargador ressalta que ”constatado que o problema ocorreu internamente, desde quinta-feira (29/4), todos os sistemas que podem ser acessados pela internet, sem necessidade de acesso pela rede interna, estão disponíveis, tais como eproc (processos eletrônicos), SEEU (execução unificada) e SEI (expedientes administrativos)”. Entretanto em momento algum o TJ-RS fala sobre o pedido ou pagamento pelo resgate dos dados.

O advogado e membro da Comissão Especial da Diversidade Sexual e Gênero da OAB, Saulo Macalós, diz que a situação é complicada e que_”todos os advogados, todos os servidores, todos os juízes e todos os promotores fora afetados”_, e levanta um questionamento importante: será que existe preparo para que processos aconteçam somente em âmbito virtual?

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”Sumiu processo eletrônico, os físicos estão preservados. Eu me pergunto: será que nós estamos prontos somente para processos virtuais? Porque em um ataque de hackers, se o advogado não tiver um espelho dos processos, ou seja, se não tiver tudo físico para fazer a chamada restituição de autos, a gente não consegue fazer. Eu sou, por exemplo, muito prevento. Tudo o que eu faço e coloco virtualmente, eu tenho que fazer físico, eu guardo. Quando o juiz decide ter um espaço virtual, eu imprimo. Quando a outra parte contra-ataca, eu imprimo. Então para mim é fácil restituir, e para os outros? E assim mesmo, se nós tivermos que fazer essa restituição, quanto tempo vai demorar? Qual é o prejuízo para a sociedade? Imenso. Porque nós já vamos ter um atraso de um ano da pandemia.”, comenta o advogado, preocupado com a população.

E continua: “Eu me faço a seguinte pergunta: quem tem interesse no crime? A quem interessa destruir os dados do Tribunal de Justiça? O Tribunal de Justiça é sempre a última instância, lá tem coisas muito grandes, que envolvem muito dinheiro. É alguém que está interessado em destruir informações lá de dentro? Ou, opinião minha, é realmente sequestro de dados: eles querem dinheiro em troca de tudo o que foi.”, relata Saulo.

”Durante a pandemia, com a suspensão de prazos, muito pai deixou de pagar pensão, porque não tinha juiz pra despachar quando os prazos estão suspensos. Quando os prazos estavam suspensos, a gente colocava a petição lá no sistema eletrônico e não era aberto. Não pagar pensão alimentícia para filho já devia ser crime hediondo, porque você mata o filho de fome. Os pais se prevaleceram da situação da pandemia e agora vem um evento tecnológico e novamente, quem é devedor, se prevalece disso pra não fazer os pagamentos, então quem paga é o destinatário final, que é o cidadão”, reflete o advogado.

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O advogado e membro da Comissão Especial da Diversidade Sexual e Gênero da OAB, Saulo Macalós, diz que a situação é complicada e que ”todos os advogados, todos os servidores, todos os juízes e todos os promotores foram afetados”

Saulo diz que se sente frustrado com toda essa situação, pois afeta, diretamente, seus clientes.

Hoje, 04/05, quase uma semana após o ataque, 75% dos processos estaduais continuam fora do ar e não há previsão de retorno. O TJ-RS mantém demais informações de forma sigilosa. Não podemos deixar de observar que, mais uma vez as atividades foram suspensas, o que pode, de certa forma, ser cômodo para promotores e magistrados, que têm seu salário garantido e todas as comodidades que seus cargos lhes conferem mesmo com o judiciário semi-operante. No entanto, essa não é a realidade dos advogados que trabalham de forma autônoma, precisam de clientes e dependem das audiências.

Confira, na íntegra, a nota oficial do TJ-RS:

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NOTA OFICIAL DE ESCLARECIMENTO DO TJRS: USO DO SISTEMA POR ACESSO EXTERNO E SUSPENSÃO DE PRAZOS

O Tribunal de Justiça do RS (TJRS) comunica que está trabalhando diuturnamente para o restabelecimento de todos os seus sistemas operacionais com a máxima brevidade possível, após ter ocorrido invasão em suas redes internas.

Como medida de segurança, desde a confirmação do problema todo e qualquer acesso interno foi e segue bloqueado, seja de dentro das dependências do Judiciário ou via acesso remoto.

Constatado que o problema ocorreu internamente, desde quinta-feira (29/4) todos os sistemas que podem ser acessados pela internet, sem necessidade de acesso pela rede interna, estão disponíveis, tais como eproc (processos eletrônicos), SEEU (execução unificada) e SEI (expedientes administrativos).

Ressalta-se que nenhum problema foi detectado a partir do uso por computadores domésticos fora das instalações do TJRS. Até o momento também não houve evidência de vazamento de dados de usuários ou de banco de informações do Judiciário gaúcho.

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Para garantir tranquilidade aos operadores do Direito durante esse período, os prazos relativos aos processos físicos e eletrônicos estão suspensos, por meio da Resolução nº 003/2021-P.

Por fim, orienta-se a todos que acessem com segurança o site www.tjrs.jus.br, onde constam, além dos sistemas disponíveis, informações constantemente atualizadas sobre os avanços obtidos no trabalho que está sendo realizado, com total transparência e de forma ampla e equânime para instituições, entidades e sociedade em geral.

Desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira,
Presidente do Conselho de Comunicação Social do TJRS

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