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Analice Nicolau
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Novo livro de José Eduardo Leonel resgata Paraty oitocentista

Colunista Analice Nicolau

25/05/2026 15h13

Novo livro de José Eduardo Leonel resgata Paraty oitocentista O escritor e doutor em Direito José Eduardo Leonel lança romance histórico que reconstrói disputas coloniais por poder

O mestre e doutor em Direito José Eduardo Leonel Crédito: Liliane Dantas

O escritor e doutor em Direito José Eduardo Leonel lança romance histórico que reconstrói disputas coloniais por poder

O mercado literário nacional recebe uma obra que redefine as fronteiras da ficção histórica ao cruzar o rigor da pesquisa documental com a densidade do suspense psicológico. Após um hiato de alguns anos dedicado à carreira acadêmica e às palestras, o mestre e doutor em Direito José Eduardo Leonel retorna ao cenário editorial com o lançamento de seu novo romance, intitulado “O anteparo”. Abandonando o formato de crônicas de sua estreia com Escravos da Insensatez, o jurista e escritor agora investe em uma narrativa de fôlego que resgata as memórias e contradições do Brasil oitocentista. A produção literária não apenas presta tributo à paixão do autor pela investigação histórica, mas também estabelece um panorama aprofundado sobre os dramas humanos e as ferrenhas disputas por hegemonia que moldaram o território fluminense.

Historicamente, o cenário econômico que serve de pano de fundo para a narrativa remete a um período de transição crucial para o desenvolvimento da infraestrutura e das rotas comerciais do país. Entre os anos de 1850 e 1860, o município litorâneo de Paraty acumulava uma prosperidade extraordinária devido à produção açucareira e ao seu porto estratégico, que escoava a produção cafeeira do Vale do Paraíba em direção à capital do Império. Essa centralidade logística gerou fortunas expressivas para as elites agrárias locais, mas começou a sofrer um severo processo de esvaziamento econômico nas décadas seguintes devido à modernização dos transportes nacionais. O declínio acelerou-se com a expansão da malha ferroviária e a construção da linha Dom Pedro II, que conectou diretamente os produtores à capital e isolou a região colonial das principais dinâmicas financeiras.

O desdobramento prático dessa conjuntura na obra de José Eduardo Leonel reflete-se na construção de uma Paraty dividida entre a opulência e as primeiras agitações sociais decorrentes do avanço das ideias abolicionistas no território nacional. A trama principal acompanha a complexa trajetória de David Gotardo, um promissor senhor de engenho pardo, cuja suspeita de ser filho de uma relação entre a sinhá e um homem escravizado desafia as estruturas hierárquicas da época. Ao assumir a gestão de suas propriedades, o jovem adota uma conduta vanguardista ao alforriar todos os trabalhadores de suas terras e contratá-los formalmente como empregados assalariados. Essa postura libertária e a promoção de benfeitorias públicas geram forte admiração entre as classes populares, ao mesmo tempo em que despertam a ira e a retaliação dos usineiros conservadores locais.

O mestre e doutor em Direito José Eduardo Leonel Crédito: Liliane Dantas

O aprofundamento das variáveis que movem esse conflito agrário revela o uso de mecanismos escusos e alianças de bastidores por parte das elites tradicionais para frear a ascensão de novas lideranças. O principal antagonista da história, Lindolfo Labres, personifica o medo e o preconceito da velha guarda açucareira, recorrendo à impiedade e a supostas práticas de misticismo para desestruturar a autoridade de David. O cerco político ganha contornos de traição com o coronel Prates, um sujeito ambicioso que se aproxima dos conspiradores em segredo, utilizando o noivado com Hermínia, irmã do protagonista, como moeda de troca. De acordo com o autor, o universo da narrativa se desenvolve em um ambiente em que o mistério e a barbárie caminham de mãos dadas, tensionando os limites da realidade.

Em contrapartida, as soluções e frentes de resistência na estrutura dramática são preenchidas por figuras femininas de forte densidade psicológica, que desafiam os papéis tradicionais de submissão da sociedade colonial. Além do apoio incondicional de Hermínia, o núcleo de David Gotardo conta com a ambiguidade da governanta dinamarquesa Cristina, que transita em uma linha tênue de interesses com os adversários, e com a lealdade oculta de dona Zélia. Esta última, uma ex-escravizada que atua no solar dos Gotardos, revela-se detentora de uma influência e de um poder muito maiores do que as aparências sociais sugeriam. Conforme explica José Eduardo Leonel, boa parte dessas histórias e lendas locais foram baseadas em memórias afetivas e nos relatos orais de sua avó, que atuou como historiadora na região.

“O anteparo” de José Eduardo Leonel

A arquitetura narrativa de O anteparo” da Editora Labrador, distancia-se dos romances de época convencionais ao fundir a crueza do drama social com ferramentas estéticas do terror psicológico e do ocultismo. Ao expor os mecanismos de coerção, heranças senhoriais e contratos de trabalho da época, o jurista constrói um thriller de alta performance técnica, caracterizado por viradas imprevistas e ganchos que prendem a atenção do leitor moderno. O autor detalha que a “vantagem que só foi se perder por volta da década de 1870, com a crescente construção da ferrovia Dom Pedro II, que passou a ligar diretamente os cafeicultores com a Capital, excluindo Paraty de qualquer rota comercial relevante”, funciona como o marco cronológico da decadência aristocrática.

José Eduardo Leonel Crédito: Liliane Dantas

A conclusão da obra reforça que, para além do resgate histórico e do suspense, o eixo central do livro reside na radiografia perene das disputas humanas por poder e território. Essa herança brutal evidencia as fissuras de uma sociedade historicamente injusta, erguida sobre a exploração implacável da miséria e as marcas profundas do sistema escravocrata. Ao conduzir o leitor pelas ruas de pedra, pelos engenhos e pelos segredos de uma Paraty marcada pelo pêndulo entre o esplendor e a ruína, Leonel entrega uma narrativa blindada que resgata a soberania da memória nacional. Afinal, conforme o fechamento proposto pela própria governança do enredo, o verdadeiro valor de uma obra reside na sua capacidade de organizar as complexidades do passado e traduzir as contradições da nossa própria formação social.

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