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Analice Nicolau
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Médica-veterinária Jéssica Matos propõe novo modelo de prevenção e gestão de saúde para pequenos animais

Colunista Analice Nicolau

31/10/2026 17h23

Jessica Matos medicina veterinária baseada em evidências

A médica-veterinária Jessica Matos alerta para os sintomas silenciosos de doenças renais e cardíacas em cães e gatos e defende a prevenção baseada em evidências Créditos: Divulgação

Mestranda pela MUST University e fundadora do Vitta Vet, especialista alerta sobre os riscos da automedicação e dos diagnósticos tardios

O aumento da expectativa de vida dos animais de companhia no Brasil trouxe para o centro da rotina clínica veterinária um desafio complexo: a proliferação de enfermidades crônicas e degenerativas que evoluem de maneira assintomática. O hábito comum entre tutores de associar apatia, redução de apetite ou lentidão exclusivamente ao envelhecimento natural mascara quadros clínicos severos que poderiam ser controlados se identificados precocemente. À frente do Vitta Vet Consultório e Pet Store e com sólida passagem pelo setor de cardiologia do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Goiás (UFG), a médica-veterinária Jessica Zulianeli de Carvalho Matos alerta que a barreira do diagnóstico tardio decorre da incapacidade instintiva dos animais de expressarem sofrimento nos estágios iniciais de falência orgânica.

A gravidade desse cenário ganha respaldo em consensos científicos internacionais. Conforme as diretrizes globais da International Cat Care (iCatCare), a prevalência da doença renal crônica oscila entre 28% e 81% em felinos com mais de 12 anos, configurando uma das causas mais recorrentes de mortalidade em gatos idosos. Na cardiologia de pequenos animais, os relatórios de consenso do American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM) apontam que aproximadamente 10% dos cães avaliados em clínicas de atenção primária apresentam algum tipo de cardiopatia. Em raças de pequeno porte, lesões compatíveis com a degeneração mixomatosa da valva mitral chegam a afetar até 85% dos indivíduos aos 13 anos de idade. Entre os felinos, a cardiomiopatia hipertrófica incide em cerca de 15% da população geral, podendo alcançar 29% nos animais em faixas etárias avançadas.

A dificuldade primária de contenção reside na compensação fisiológica natural, mecanismo pelo qual o organismo do pet tolera alterações metabólicas e circulatórias sem manifestar sintomas alarmantes. Quando o tutor percebe a enfermidade, o órgão afetado já pode ter perdido a maior parte de sua capacidade funcional: “Na medicina felina, muitas doenças evoluem de maneira silenciosa enquanto o gato mantém a maior parte da sua rotina; por disfarçarem a dor, eles parecem saudáveis mesmo quando já enfrentam desequilíbrios graves, o que exige um olhar atento para alterações discretas na ingestão de água, perda gradual de peso e padrão urinário”, explica Jessica Matos, que é associada da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) e desenvolve pesquisa em insuficiência cardíaca congestiva.

A médica-veterinária Jessica Matos discute o impacto da Medicina Baseada em Evidências na longevidade animal Créditos: Divulgação

Para além das alterações renais, os sinais cardiovasculares exigem vigilância doméstica simples, porém rigorosa, por parte dos tutores. Parâmetros cotidianos, como tosse persistente, cansaço desproporcional após pequenos esforços e intolerância a caminhadas, devem conduzir a avaliações médicas imediatas. Um dos indicadores preventivos mais eficazes ao alcance da família é o monitoramento da frequência respiratória em repouso: “Orientamos os tutores a observarem a respiração do animal enquanto dorme; uma frequência que se mantenha persistentemente acima de 30 movimentos por minuto exige investigação clínica. Se houver respiração de boca aberta em gatos, dificuldade respiratória evidente, mucosas arroxeadas ou desmaios, a conduta deve ser de socorro emergencial imediato”, pontua a especialista.

O atrito financeiro e clínico que mais penaliza as famílias é a tentativa de gerenciar sintomas em casa por meio de buscas não verificadas na internet ou uso indevido de fármacos humanos. Fármacos comuns para humanos, como paracetamol e anti-inflamatórios à base de ibuprofeno, apresentam alta toxicidade metabólica para felinos e caninos, provocando lesões gastrointestinais, necrose hepática e falência renal aguda. A conduta de adiar o atendimento especializado frequentemente transforma intervenções ambulatoriais de baixo custo em internações de terapia intensiva: “Esperar para ver se o pet melhora, especialmente em quadros em que o animal faz força para urinar sem conseguir produzir volume, pode custar a vida do paciente e multiplicar os custos do tratamento”, adverte a veterinária.

A reversão desse padrão epidemiológico depende da estruturação de rotinas baseadas na Medicina Veterinária Baseada em Evidências (MVBE), articulada com governança clínica. Cursando mestrado em Gestão e Cuidados da Saúde pela MUST University, na Flórida, Jessica Matos aplica no Vitta Vet protocolos preventivos que unem acompanhamento longitudinal a indicadores de desfecho assistencial: “O conhecimento técnico precisa sair do papel e se transformar em processos organizados de acolhimento e acompanhamento, combatendo o mito de que o animal só precisa de assistência quando já está prostrado. A gestão de saúde veterinária permite desenhar planos de prevenção que cabem na realidade do tutor e blindam o bem-estar do pet antes que as crises se instalem”.

O ponto comum entre ciência diagnóstica, educação continuada do tutor e o conceito de Saúde Única (One Health) redefine o papel do médico-veterinário perante a sociedade contemporânea. Ao integrar dados epidemiológicos internacionais a um modelo de atendimento humanizado, a medicina de pequenos animais consolida-se como pilar de proteção à saúde de toda a família. “Cuidar da saúde de um animal é enxergar além dos sintomas: é prevenir hoje, proteger o amanhã e respeitar a vida em cada detalhe”, sintetiza Jessica Matos, reafirmando que o rastreio precoce e a disciplina clínica são os únicos instrumentos capazes de assegurar longevidade com dignidade aos animais de estimação.

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