O crescimento das viagens na classe média reflete estratégias de orçamento, uso consciente de milhas e previsibilidade financeira
O perfil do consumidor de turismo no Brasil atravessa uma transformação estrutural que reconfigura as dinâmicas do setor nacional. Dados de uma sondagem do Ministério do Turismo, elaborados em parceria com a Fundação Getulio Vargas, revelam um crescimento de 78% na intenção de viagem entre famílias com renda de até três salários mínimos, ante 24,5% na faixa seguinte. Esse movimento sinaliza que a recente expansão do mercado não é impulsionada por consumo suntuoso ou decisões impulsivas, mas por uma parcela da população que integrou o deslocamento a um rigoroso planejamento financeiro de longo prazo.
Esse comportamento rompe com a visão histórica de que o hábito de viajar pertenceria exclusivamente às faixas de alta renda. Levantamentos da Serasa Experian em 2026 identificaram 17,9 milhões de brasileiros com perfil viajante, dos quais 38,8% apresentam capacidade de gasto adicional de até R$ 1 mil mensais voltados ao turismo. Em um cenário no qual o lazer disputa orçamento direto com projetos como compra de veículos, reformas ou educação, a busca por previsibilidade e custo-benefício tornou-se o principal pilar para viabilizar experiências sem comprometer a estabilidade familiar.
Considerado uma das maiores referências do país em inteligência financeira para viagens e gestão de milhas, Lucas Estevam, criador de conteúdo nascido em Campinas, no interior de São Paulo, analisa que a ausência de margem para erros obrigou o consumidor a adotar uma postura técnica rigorosa. Com a bagagem empírica de quem já explorou 95 países utilizando estratégias de orçamento, o especialista destaca que o mapeamento prévio de custos é o fator determinante para a democratização do setor. Ao examinar essa metodologia de consumo, Estevam afirma que “quem tem orçamento apertado planeja melhor, porque não tem margem para errar. A pessoa que separa um valor fixo durante meses sabe quanto custa cada trecho, cada diária e cada escolha do roteiro. Não foi sobra de dinheiro que me colocou em 95 países, foi conta feita antes.”

O impacto dessa disciplina altera diretamente a governança e as estratégias comerciais de companhias aéreas, redes hoteleiras e operadoras de turismo. Dados citados pelo Ministério do Turismo mostram que a classe C já responde por cerca de 20% das vendas das grandes empresas do setor, equiparando-se à participação da classe A. Para capturar esse público altamente analítico, o mercado é forçado a abandonar políticas engessadas e investir em transparência tarifária, comunicação clara sobre custos operacionais e opções de parcelamento que permitam a construção gradual do roteiro.
Dentro dessa equação estratégica, ferramentas como programas de fidelidade e cupons de desconto deixam de ser benefícios secundários para se tornarem a espinha dorsal do planejamento. Os dados mais recentes da Serasa Experian apontam que 79,5% desse público viajante demonstram afinidade com milhas, 53,9% buscam descontos e 91,7% realizam compras online. Como autoridade no uso de milhagem para otimização de viagens, Lucas Estevam pondera que a disseminação desse conhecimento reduziu a distância entre o desejo e o embarque real: “A viagem não precisa começar quando a passagem é comprada. Ela começa antes, quando a pessoa entende o orçamento, cria uma meta e aprende a aproveitar as oportunidades que fazem sentido para ela.”

A consolidação desse turismo planejado ocorre em um momento de transição cultural, no qual as experiências ganham prioridade nas decisões de consumo doméstico. A busca ativa por comparadores de preço, o monitoramento de tarifas promocionais e a inteligência no uso de cartões de crédito evidenciam a formação de um mercado mais exigente e pulverizado. A autonomia conquistada por novos viajantes demonstra que a democratização do turismo não depende do barateamento irresponsável do serviço, mas sim do acesso à informação e do alinhamento entre produto e tempo financeiro do cliente.
A maturidade demonstrada pelo consumidor emergente exige que a indústria do turismo readeque sua visão sobre poder aquisitivo e capacidade de compra. O desafio atual das marcas não é despertar o desejo de viajar, que já se provou consolidado, mas sim desenvolver soluções capazes de atender um cliente altamente informado e disciplinado. As empresas que reconhecerem a autoridade do planejamento e souberem dialogar com esse público sem tratar a cautela orçamentária como limitação de consumo assumirão a liderança de um setor em plena transformação.