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Analice Nicolau
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Gol é acusada de racismo após passageira ser expulsa de voo por recusar a despachar bagagem

Samantha Vitena Barbosa foi acusada de perturbar a ordem pelo comandante da aeronave; passageiros protestaram contra expulsão dela

Analice Nicolau

02/05/2023 15h30

Samantha Vitena Barbosa foi acusada de perturbar a ordem pelo comandante da aeronave; passageiros protestaram contra expulsão dela

Samantha Vitena Barbosa, uma mulher negra de 31 anos que estava no voo 1575 da Gol Linhas Aéreas com destino ao aeroporto de Congonhas em São Paulo, foi obrigada por três policiais federais a descer da aeronave, a pedido do comandante do avião, na noite da última sexta-feira (28), no aeroporto de Salvador.

Passageiros se ofereceram para descer da aeronave com Samantha
Crédito: Reprodução/Redes Sociais


Vídeos registrados por passageiros, que viralizaram nas redes sociais mostram Samantha sendo expulsa após negar o despache de uma bagagem com um notebook. A confusão começou quando funcionários tentaram despachar a mochila da professora de inglês, alegando que não haveria espaço para a bagagem no compartimento de carga, acima das poltronas, nem abaixo do assento.


Samantha falou ao vivo com a apresentadora Jéssica Senra, no Programa Bahia Meio Dia, da TV Bahia, e contou que a Justiça vai dizer se o caso foi de racismo ou não, e que a situação deixa a possibilidade para questionamentos. “Eu acredito que isso quem vai poder dizer é a Justiça, mas o que eu fico me questionando é isso, será que aconteceria com uma pessoa diferente de mim? No mesmo voo, a jornalista Elaine [Hazin] foi testemunha, com uma outra passageira, o tratamento foi diferente”.


Em entrevista concedida ao programa Encontro da TV Globo, na manhã de segunda-feira (1º) Samantha disse que está tentando entender o que houve. “Eu ainda estou tentando entender tudo. Os testemunhos e vídeos têm me ajudado a entender”. A professora contou toda a cronologia dos fatos e explicou que após o comissário ter pedido que ela despachasse a bagagem, ela se recusou por causa do notebook. “Até onde eu sei a gente não pode despachar um laptop, não é recomendado por questão de risco e tudo mais, então falei que isso não seria possível”.


Samantha explicou na entrevista que um passageiro retirou uma sacola para que ela conseguisse guardar sua bagagem e que depois de acomodar a mochila, se sentou e aguardou a decolagem, até que os policiais entraram na aeronave. “Quando os policiais entraram eu não sabia por que eles estavam ali, não poderia imaginar que era por mim. Quando eles olharam pra mim e falaram levante e se retire, eu acredito que qualquer pessoa reagiria dessa forma. Perguntei o que aconteceu, qual o motivo”, contou Samantha.


A professora ainda disse que recebeu bastante apoio dos passageiros quando recebeu a ordem para descer do avião, e que muitos deles começaram a pegar suas bagagens para descer com ela, que preferiu que eles seguissem viagem. Ainda sem entender, questionou o policial sobre o motivo da sua saída do voo, que respondeu que ela conversaria com o comandante; o que não aconteceu. “O outro policial me falou: ‘Você não vai conversar com o comandante, me acompanhe’ e aí eu o acompanhei até a delegacia. Em nenhum momento houve resistência. Houve o questionamento e eu cheguei a perguntar ao delegado se eu não poderia ter perguntado e ele me disse que sim, que era o meu direito”, explicou.


No Twitter, o Ministério das Mulheres condenou o caso. “O episódio contra Samantha Vitena em um voo de Salvador na madrugada deste sábado demonstra o racismo e a misoginia que atingem de forma estrutural as mulheres negras em nosso país”. E continuou: “Ela foi retirada da aeronave por três homens da Polícia Federal cerca de uma hora depois de o problema da bagagem ter sido resolvido, conforme seu relato e o de testemunhas”, concluindo com a afirmação de que pedirá providências: “A cena é uma afronta a Samantha e a todas as mulheres negras. Pediremos providências à companhia aérea e à PF, que devem desculpas e explicações após a abordagem”.


Em nota, a Gol explicou a sua versão sobre o ocorrido:
“Durante o embarque do voo G3 1575 (Salvador – Congonhas), havia uma grande quantidade de bagagens para serem acomodadas a bordo e muitos Clientes colaboraram despachando volumes gratuitamente. Mesmo com todas as alternativas apresentadas pela tripulação, uma Cliente não aceitou a colocação da sua bagagem nos locais corretos e seguros destinados às malas e, por medida de segurança operacional, não pôde seguir no voo. Lamentamos os transtornos causados aos Clientes, mas reforçamos que, por medidas de Segurança, nosso valor número 1, as acomodações das bagagens devem seguir as regras e procedimentos estabelecidos, sem exceções. A Companhia ressalta ainda que busca continuamente formas de evitar o ocorrido e oferecer a melhor experiência a quem escolhe voar com a GOL e segue apurando cuidadosamente os detalhes do caso.
Como complemento, informamos que:

  • A passageira acomodou sua bagagem em local que obstruía a passagem, o que trazia risco a segurança do voo.
  • Em casos como este, a tripulação não pode seguir viagem e, obrigatoriamente, precisa reacomodar a bagagem.
  • A Tripulação da GOL ofereceu para a cliente o despacho gratuito da bagagem, em seguida ofereceu que o computador fosse retirado da mochila e por fim troca de assento para onde seria possível a acomodação da bagagem.
  • A Companhia informou, por fim, que ela teria que desembarcar para que o avião pudesse partir.
  • A impossibilidade de chegar a um acordo e a necessidade de se reestabelecer a ordem fez com que a Polícia Federal fosse acionada.

A GOL está empenhada em colaborar para a apuração dos fatos com a Polícia Federal, assim que for notificada. A Companhia está à disposição das autoridades e tem total interesse nos esclarecimentos, tendo inclusive contratado uma empresa independente com a finalidade de elucidar o caso”.
O advogado da professora, Fernando Santos, informou que vai entrar com ação judicial contra a Gol Linhas Aéreas, e que o processo se baseará em discriminação racial. A Polícia Federal [na Bahia] informou que abriu um inquérito para apurar crime de racismo contra a professora, e que a decisão foi tomada depois que os ministérios da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos acionaram a Procuradoria-Geral da República na Bahia e a PF, para que crimes, infrações e ou violações relacionados ao caso fossem apurados.

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