Na Higiexpo, lideranças femininas debatem a transição da informalidade para a gestão estratégica e a biossegurança no setor
A atividade de higienização no Brasil vive uma reconfiguração profunda ao romper com os estigmas históricos que a limitavam ao trabalho doméstico e à informalidade. No centro desse movimento, o protagonismo feminino desponta como força motriz na conversão da prestação de serviços braçais em empresas estruturadas, transformando a limpeza profissional em um dos caminhos mais sólidos para a emancipação financeira, a mobilidade social e a inclusão produtiva. Essa mudança estrutural pautou os debates do congresso da Higiexpo 2026, maior encontro do setor na América Latina promovido pela Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional (ABRALIMP), onde especialistas apresentaram as diretrizes para que mulheres convertam a urgência de renda em modelos corporativos sustentáveis e de alta rentabilidade.
A facilidade para captar o primeiro cliente, impulsionada pela demanda contínua de residências e condomínios por asseio, contrasta com a alta mortalidade dos pequenos negócios que operam sem metodologia financeira e técnica. Historicamente desprovido de governança, o trabalho autônomo esbarra na barreira da escala quando a prestadora não domina fluxos de caixa, contratos de prestação continuada e controle de insumos. A transição desse perfil para o ambiente corporativo responde a uma exigência das próprias empresas contratantes, que, guiadas por critérios de Governança Ambiental, Social e Corporativa (ESG), passam a exigir fornecedores formalizados, tecnicamente auditáveis e comprometidos com práticas rigorosas de proteção à saúde coletiva.
A valorização do segmento passa diretamente pela redefinição do serviço: a higienização deixa de ser entendida como mera conservação visual para se consolidar como protocolo essencial de biossegurança pública. Em ambientes hospitalares, corporativos e industriais, a execução de rotinas sanitárias exige domínio absoluto das normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), neutralizando agentes patogênicos e preservando a infraestrutura das edificações. Sem a qualificação adequada sobre o uso correto de maquinários e a diluição precisa de químicos de alto rendimento, a prestadora de serviço compromete margens operacionais, danifica superfícies de alto custo e permanece refém de remunerações aviltantes, incapaz de comprovar o diferencial técnico de sua entrega.
O rompimento com o ciclo da informalidade exige uma mudança de mentalidade na condução do negócio, integrando a sensibilidade prática acumulada por gerações à disciplina de gestão empresarial: “A limpeza está historicamente conectada à mulher, seja no ambiente doméstico ou corporativo, mas há um despertar claro de oportunidade de negócio quando aliamos essa experiência à capacitação técnica e à gestão estratégica”, destaca a especialista e empresária Adriana Ferro, apontando que a formalização confere segurança jurídica e abre portas para parcerias com o mercado corporativo. Ao estruturar processos padronizados de atendimento, a empreendedora deixa de vender horas isoladas de esforço físico para comercializar soluções técnicas com garantias operacionais.
A virada de chave para a rentabilidade dos negócios liderados por mulheres reside no abandono do modelo rudimentar de diárias, substituído por fórmulas avançadas de precificação que contemplem o custo real de cada intervenção: “Uma profissional do setor precisa entender detalhadamente a física e a química do processo: qual saneante aplicar em determinada superfície, a razão técnica da escolha e qual o resultado esperado. Além disso, a informação possui valor real de mercado. Aprender a precificar o serviço adequadamente é o que separa a informalidade da gestão de uma empresa lucrativa”, complementa Cristina Magalhães, diretora comercial da Bellinzoni, pontuando que o desconhecimento dos custos com insumos e depreciação de equipamentos drena a receita de quem atua sem metodologia contábil.
A estruturação dessas empresas fundamenta-se em três pilares estratégicos que sustentam a transição da urgência financeira para negócios escaláveis: a capacitação em biossegurança e diluição correta de saneantes, a gestão analítica de custos que protege a margem de lucro e a formalização com geração de empregos formais. O domínio dessas variáveis permite que as empreendedoras expandam seu escopo de atuação para verticais mais lucrativas, como limpeza pós-obra pesada, desinfecção de plantas industriais, consultorias técnicas e redes de microfranquias. Essa sofisticação operacional não apenas eleva o faturamento médio dos negócios, mas estimula a contratação de outras mulheres em situação de vulnerabilidade, retroalimentando um ecossistema sustentável de ascensão econômica.
A consolidação desse ecossistema conta com o suporte institucional da ABRALIMP, entidade que reúne mais de 250 empresas associadas organizadas em câmaras setoriais de Químicos, Distribuidores, Máquinas, Equipamentos e Prestadores de Serviços para elevar a régua regulatória do mercado. Por meio da UniAbralimp, seu braço educacional dedicado à formação técnica e corporativa, a instituição oferece programas que vão das boas práticas de segurança à gestão estratégica de operações fabris e comerciais. Ao investir na profissionalização contínua de suas lideranças femininas, o setor de higienização prova que o conhecimento técnico é a ferramenta mais eficaz para converter trabalho invisível em autoridade empresarial, riqueza compartilhada e soberania econômica para milhares de famílias no Brasil.