Conselheira Consultiva da CMK Business Advisory explica como disputas bilionárias asfixiam a rotina hospitalar e defende conselhos independentes na saúde
A crise corporativa que atinge grandes redes hospitalares recoloca a governança assistencial no centro do debate econômico brasileiro. Em São Paulo, a conselheira consultiva Carol Kaderli, certificada pelo Advisory Board Institute (ABI) e fundadora da CMK Business Advisory, executiva com mais de duas décadas de liderança na SAMP Assistência Médica, Associl, Gama Saúde e Athena Saúde, somando a gestão de 1,5 milhão de beneficiários, adverte que a busca desenfreada por faturamento bruto sem lastro de processos acelera a insolvência de operadoras de médio e grande porte. A análise ganha relevância imediata diante do racha societário na Oncoclínicas, onde médicos acionistas minoritários denunciam desabastecimento de insumos e atrasos operacionais em meio a uma disputa arbitral estimada entre R$ 6 bilhões e R$ 11 bilhões contra a gestora Centaurus Capital.
O descompasso financeiro nas estruturas de saúde decorre da falsa premissa de que a expansão de vendas resolve problemas de liquidez imediata. Indicadores consolidados pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e balanços regulatórios da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) apontam que desperdícios assistenciais, falhas de auditoria de contas médicas e ineficiências de processos consomem até 12,7% das receitas anuais do setor no país. Esse percentual representa um dreno bilionário recorrente, confirmando que a deterioração das margens de contribuição tem origem na falta de controle interno e na ausência de padronização dos fluxos clínicos, e não na capacidade comercial de captação de novos pacientes.
A perda de foco no core business intensifica-se quando corporações de capital pulverizado priorizam expectativas de ganhos judiciais ou especulativos em detrimento da sustentabilidade de caixa. Quando conselhos administrativos se distanciam da realidade hospitalar para travar batalhas em câmaras de arbitragem, o atendimento básico é desestabilizado pela escassez de materiais e pela precarização do corpo clínico. Essa cisão entre o planejamento financeiro de gabinete e a rotina dos consultórios compromete o cumprimento de diretrizes regulatórias e destrói o valor intrínseco das marcas, demonstrando que a perenidade de uma instituição médica repousa na previsibilidade de seu fluxo de caixa cotidiano, e não na dependência de litígios societários prolongados.

O isolamento decisório do fundador ou da diretoria executiva atua como o principal catalisador desse colapso operacional silencioso. “A queixa inaugural que recebo em quase todos os diagnósticos corporativos é a necessidade imediata de vender mais, mas aumentar vendas sem capacidade de entrega inflaciona custos e destrói o demonstrativo de resultados”, adverte Carol Kaderli. A especialista pontua que as equipes internas frequentemente silenciam sobre gargalos de atendimento e perda de clientes por receio de serem os “portadores das más notícias”, pelo medo de não serem compreendidas pela diretoria ou, simplesmente, para não se exporem, afinal, a responsabilidade pela falha pode ser delas mesmas. Esse apagão comunicacional faz com que a liderança tome decisões estratégicas no escuro, recorrendo a empréstimos bancários onerosos para cobrir rombos provocados por desorganização estrutural.

A reversão do endividamento exige a implementação de conselhos consultivos independentes e o estabelecimento da diretriz corporativa CNPJ First. “Quando a liderança trata uma instituição médica como um bilhete de loteria financeiro voltado a desfechos arbitrais, a atividade assistencial acaba sufocada pela falta de liquidez imediata”, explica a especialista da CMK Business Advisory ao detalhar que a governança técnica atua para desarmar choques de vaidade entre sócios e blindar o patrimônio. Com a introdução de conselheiros externos, a diretoria substitui percepções emocionais por métricas periciais, impedindo a concessão de descontos predatórios que comprometem o capital de giro.
O respaldo a essa metodologia de blindagem institucional apoia-se em pesquisas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que indicam que a carência de colegiados estruturados responde pelo encerramento precoce de 70% dos negócios no mercado nacional. Paralelamente, levantamentos da consultoria McKinsey revelam que investidores institucionais aceitam pagar ágios de até 83% sobre ativos dotados de conselhos atuantes e auditoria contínua. “O empresário precisa entender que a dívida bancária nunca é a causa do problema, mas apenas o sintoma final de uma operação gerencialmente desgovernada”, reforça a conselheira, sublinhando que a padronização de condutas assegura a solvência do negócio perante credores e fundos de investimento.

A reestruturação definitiva da saúde suplementar passa pela maturidade das lideranças em submeter suas decisões a colegiados dotados de metodologia validada. “A pergunta fundamental que faço aos conselhos não é quanto a operação faturou no último mês, mas onde ela estará sustentada daqui a três anos com governança e paz de espírito”, arremata Carol Kaderli ao defender que dados técnicos devem nortear o futuro das companhias. Ao resgatar a centralidade da atividade clínica e colocar a saúde financeira do negócio acima de interesses pessoais dos acionistas, as redes de saúde garantem a segurança do paciente e consolidam sua longevidade em um mercado cada vez mais desafiador.