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Benny Briolly lidera ato contra intolerância religiosa e acusa o pastor Felippe Valadão de incitar ódio contra religiões de matriz africana

A vereadora de Niterói reuniu diversos representantes religiosos durante a manifestação, que ocorreu em frente ao local onde o líder da Lagoinha Niterói se manifestou em relação às religiões afro-brasileiras

Por Analice Nicolau 24/05/2022 10h00

Na última quinta-feira (19), o pastor Felippe Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha de Niterói, realizou a abertura da comemoração dos 189 anos de Itaboraí, evento oficial promovido pela prefeitura do município, localizado na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Na ocasião, Valadão relatou terem colocado, em frente ao palco do evento, oferendas (chamadas de despachos), que geralmente são vindas de religiões com matrizes africanas. O líder evangélico se chateou com o ocorrido e declarou que “a igreja está na rua” e que terão muitos centros de Umbanda fechados na cidade.

Pastor Felippe Valadão

“Vocês sabem o que fizeram de ontem pra hoje? Tinha quatro ’despacho’ aqui na frente do palco. Avisa aí, ó, pra esses ‘endemoniados’ de Itaboraí: o tempo da bagunça acabou, meu filho. A igreja está na rua! A igreja está de pé! Pode matar galinha, pode fazer farofa, vai fazer o que você quiser. Ainda digo mais: prepara para ver muito centro de Umbanda sendo fechado nessa cidade. Eu declaro, vem um tempo aí ó, que a igreja vai começar a salvar esses Pai de Santo que tem aqui na cidade. Você vai ver coisa que você nunca viu na vida. Chegou o tempo, Itaboraí”, disse o pastor.

Após o ocorrido, tomado como discurso de ódio contra as religiões de matriz africana, que provocou revolta entre os adeptos dos segmentos religiosos atingidos pela fala de Felippe, a vereadora Benny Briolly (PSOL), de Niterói, e pré-candidata a deputada estadual do Rio de Janeiro, reuniu neste domingo (22) diversas lideranças das religiões de matriz africana de todo o Estado e movimentos sociais para manifestação em frente a Praça Marechal Floriano, um ato contra a intolerância religiosa, mesmo local em que o líder da igreja Lagoinha Niterói abriu o evento de aniversário de Itaboraí.

Durante a celebração dos 189 anos da cidade, Valadão ainda deixou um recado: “Aquele espírito maligno na política acabou. Eu vou repetir: o tempo de bagunça e roubalheira nessa cidade acabou. Itaboraí vai ser uma das cidades mais prósperas do Rio de Janeiro. Anota aí, ó: vai subir!”.

Prefeito de Itaboraí/RJ, Marcelo Delaroli

Benny Briolly é autora de um PL que institui Maria Mulambo como a protetora da cidade de Niterói e já sofreu ataques na Câmara Municipal por vereadores contrários à vereadora.

Em sua conta do Instagram, Briolly deixou sua impressão sobre o ocorrido e falou sobre a manifestação.

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“Neste domingo (22), estive com centenas de lideranças religiosas e o povo de terreiro em um lindo ato contra a intolerância religiosa em Itaboraí. Rodeado de crianças de axé e atabaques, entoamos cânticos de Exú a Oxalá e as nossas entidades sagradas da Umbanda e Candomblé. Clamamos por respeito e demos o nosso recado: não toleraremos desrespeito ou qualquer incitação de ódio por parte do criminoso do Felippe Valadão, do prefeito Marcelo Delaroli ou qualquer fundamentalista religioso. O Estado é laico e exigimos respeito e a liberdade de expressar a nossa fé conforme nos é garantido pela Constituição”, disse.

Benny Briolly é autora de um PL que institui Maria Mulambo como a protetora da cidade de Niterói e já sofreu ataques na Câmara Municipal por vereadores contrários à vereadora.

E prosseguiu: “Eu, minha mandata, os movimentos sociais, a CONEPLIR e os diversos órgãos de combate à intolerância religiosa nos certificaremos que o (ato) criminoso do dito pastor seja devidamente punido no rigor da lei, para que sirva de exemplo para qualquer outro que ousar em desrespeitar o nosso axé. É urgente ter uma mulher preta e de axé na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e se Xangô quiser, vai ter sim DepuTRAVA no ano que vem. O meu povo preto e de axé resistiu à escravidão, à ditadura militar e resistiremos ao fascismo bolsonarista. O axé sempre esteve e sempre permanecerá em luta!”, conclui.

Além do ato em prol do respeito à liberdade religiosa e contra a intolerância, a presidente da CONEPLIR, Tânia Amorim, deve realizar denúncia ao Ministério Público e cobrará medidas urgentes. O deputado Átila Nunes (MDB), relator da CPI da Intolerância Religiosa, na ALERJ, também pretende acionar o Ministério Público para investigar o uso de dinheiro público de Itaboraí para financiar o evento no qual Valadão declarou falas consideradas de ofensa contra os líderes espirituais da região.

A vereadora de Niterói reuniu diversos representantes religiosos durante a manifestação, que ocorreu em frente ao local onde o líder da Lagoinha Niterói se manifestou em relação às religiões afro-brasileiras

A Prefeitura Municipal de Itaboraí emitiu um comunicado oficial, em sua conta do Instagram, sobre o acontecimento. “A Prefeitura de Itaboraí informa que declarações dos convidados e artistas para as apresentações são de inteira responsabilidade deles. A Prefeitura destaca ainda que o governo é para todos, que repudia qualquer manifestação de intolerância religiosa e ressalta que o Estado é laico”.

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Em seu perfil da mesma rede social, o pastor compartilhou manifestações de apoio realizadas pelos seguidores, ao seu favor e contra as denúncias de discurso de ódio. A coluna procurou o líder religioso para dar o seu pronunciamento em relação ao ocorrido, mas até a publicação desta matéria, o mesmo não foi encontrado.








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