O asfalto abrasivo do Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, testemunhou mais do que um simples treino privado na última semana. O que se viu em Portugal foi um verdadeiro vestibular de alta velocidade para o grid da Fórmula 1 de 2027. No centro desse turbilhão, o brasileiro Rafael Câmara não apenas participou, como deixou uma impressão positiva e reforçou a percepção de que a nova geração do automobilismo nacional está pronta para ampliar o espaço no nível mais alto do automobilismo.
Aos 21 anos, Câmara vive semanas que podem redefinir sua carreira. Integrante da prestigiada Academia de Pilotos da Ferrari desde 2022, o brasileiro encarou uma maratona logística e física exigente.
Antes mesmo de vestir o macacão da Haas, desembarcou no circuito de Mugello, na Itália, para uma sessão de testes privados (TPC – Testing of Previous Cars) com a Ferrari. A bordo do SF-25, modelo utilizado pela escuderia na temporada passada, o pernambucano acumulou mais quilometragem para se adaptar à potência, carga aerodinâmica e aos complexos procedimentos de um carro de Fórmula 1.
O teste em solo italiano serviu como uma preparação de alto nível e reforçou a confiança da Ferrari no desenvolvimento do brasileiro. O próprio chefe da equipe, Frédéric Vasseur, havia manifestado publicamente seu apoio ao trabalho realizado com Câmara dentro da academia. “Nós o apoiamos de forma massiva. O investimento vai muito além do financeiro — o custo do TPC (Testes com Carros Anteriores) é enorme. Estamos nos preparando para os testes e para o próximo ano. Tentaremos encontrar, junto com a Haas, a melhor maneira de colocá-lo na F1”, disse o dirigente.
Sem escala
Sem tempo a perder, o brasileiro voou diretamente da Itália para o sul de Portugal, trocando o vermelho da Ferrari pelo branco da Haas. Em Portimão, o desafio ganhou contornos de concorrência direta.
A escuderia norte-americana promoveu uma avaliação de três dias, colocando na pista três perfis distintos para analisar alternativas para o futuro de sua formação de pilotos e, entre elas, a eventual sucessão de Esteban Ocon, cujo futuro na equipe é alvo de especulações.
Além do brasileiro, a atividade contou com o italiano Leonardo Fornaroli, atual campeão da Fórmula 2 e piloto reserva da McLaren, e o experiente japonês Ryo Hirakawa, de 32 anos, piloto de testes da própria Haas e nome fortemente ligado à Toyota no Mundial de Endurance (WEC).
Embora os tempos oficiais permaneçam sob sigilo, relatos da imprensa especializada indicaram que Câmara foi o destaque do trio. Ao volante do VF-25, o brasileiro teria sido quem mais se aproximou da marca de referência estabelecida por Oliver Bearman, titular da equipe e importante parâmetro para a avaliação do carro, ficando à frente dos registros atribuídos a Fornaroli e Hirakawa.
Mais do que a velocidade pura em uma volta lançada, a Haas utilizou a oportunidade para analisar a capacidade de leitura técnica dos pilotos, a consistência em simulações de corrida e o entrosamento com o corpo de engenheiros. E é justamente nesse cenário que a relação entre Haas e Ferrari pode ganhar peso nas decisões para 2027.
A equipe norte-americana mantém um forte vínculo técnico com a italiana, que fornece sua unidade de potência e outros componentes.
Nesse contexto, contar com mais um piloto da Academia de Maranello pode representar uma peça importante para estreitar ainda mais essa relação e criar novas possibilidades dentro da estrutura das duas equipes.
Atualmente na terceira posição do campeonato da Fórmula 2, com 145 pontos, Câmara mantém os pés no chão, consciente de que o processo de avaliação ainda está longe do fim. Outros nomes continuam no radar da equipe, entre eles Jack Doohan, que também é cotado para participar de testes nos próximos dias.
O brasileiro, entretanto, já ocupa uma posição estratégica no xadrez da Fórmula 1. Informações de bastidores apontam que ele deverá participar de um treino livre oficial (TL1) ainda nesta temporada. E, caso a vaga de titular na Haas não se concretize imediatamente, o pernambucano surge como forte candidato a ocupar uma posição de destaque como piloto reserva da Ferrari em 2027.
O próximo compromisso agora será em Monza, no fim de semana, pela Fórmula 2. Depois de acumular experiência e boas referências em Mugello e Portimão, o brasileiro chega ao Templo da Velocidade com algo ainda mais valioso: a percepção de que seu nome começa a ganhar força entre os candidatos a um lugar no grid da Fórmula 1. Já apontado como uma das grandes revelações do automobilismo, Rafael Câmara não busca mais apenas resultados — pisa fundo para provar que está pronto para acelerar o futuro.