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Cordelista e arte-educador, Sabiá Canuto lança seu primeiro livro

Canuto, após passar por tantos projetos e por espalhar pelo nosso Quadradinho tantos cordéis, se prepara para lançar seu primeiro livro, “No Truvisco das Horas”

Por Thaty Nardelli 27/11/2023 3h56
Foto: Bruna Braz

Nascido e criado em Ceilândia, filho de pais nordestinos, Sabiá Canuto traz dentro de si e, até no olhar, a beleza da poesia e o encanto do cordel. Arte-educador e cordelista, formado pela Universidade de Brasília (UnB) em Letras, sonho que carregou durante sua adolescência, se viu arrebatado nas aulas que aconteciam no “Cantinho da Alegria” com mestre Zé do Pife, pelo cordel.

Hoje, com 12 anos de carreira, Canuto, após passar por tantos projetos e por espalhar pelo nosso Quadradinho tantos cordéis, se prepara para lançar seu primeiro livro, “No Truvisco das Horas”, que reúne poesias criadas desde 2020, quando vivíamos uma pandemia. São versos e palavras que vão do sorriso ao choro, das horas aos segundos, do amor à agonia. “Escrevo porque a poesia é o milagre da participação na vida e isso não cabe em mim”, diz Sabiá.

Quais as lembranças mais afloradas que você carrega da sua infância?
Nasci e me criei numa Ceilândia dos anos 1990. Foi lá que cresci, estudei, fiz meus primeiros amigos, joguei golzinho com havaiana ou tijolo servindo de trave. Foi lá também que experimentei o espírito comunitário da molecada que, mesmo sem grana ou mesada, fazia sua vaquinha, comprava um Baré — um guaraná delicioso que bombava na época— e dividia com geral após as partidas de futebol. Embora tenha todo esse estigma de cidade violenta, guardo boas lembranças da Ceilândia: a molecada soltando pipa e lotando os fliperamas, a vizinhança batendo papo nas calçadas, ocupando as ruas.

Acredita que muitas pessoas têm uma ideia distorcida de Ceilândia?
Na real que a Ceilândia, como qualquer periferia ou favela, é cidade de gente trabalhadora, honesta. De gente guerreira como meu pai, Seu Francisco, motorista de ônibus, maranhense, homem que todo santo dia levanta 4 da manhã, faz seu cuscuz e sustenta a pisada. É isso. Ceilândia é uma periferia com todos os problemas e precariedades estruturais de uma periferia. Falta transporte, falta equipamentos de cultura, falta um parque ecológico, arborização… A cidade já carrega no próprio nome seu estigma de origem: Campanha de Erradicação de Invasões. E toda aquela história que todo mundo sabe e, se não sabe, deve saber. Inclusive, recomendo o filme “Conterrâneos Velho de Guerra”, do Vladimir Carvalho. Mas quero enaltecer aqui as potências da Ceilândia, sua Casa do Cantador, sua Feira, seu São João do Cerrado, seu rap, o programa Jovem de Expressão. Essa cidade é um barril de cultura que sobrevive apesar de tudo que lhe é sistematicamente negado. No meu livro novo livro, a gente brinca e ressignifica a sigla. CEI: Canteiro de Expressões e Invenções. E que assim seja!

Quando e como a literatura ganhou espaço na sua vida?
A literatura é meu bote salva-vidas. É meu clarão. Meu alargador de horizontes. Mas ela não entrou de vez na minha vida, não. Não foi um livro ou um autor. Pensando bem, percebo que ela foi entrando aos poucos, sorrateiramente. Para uma criança nascida na periferia, cujos pais não possuíam uma cultura letrada, a literatura foi se instalando de outras formas, achando outros meios de penetração. Quando menino, no período de alfabetização, eu gostava muito de desenhar histórias em quadrinhos, estimulado sem dúvida pelos gibis que meu pai comprava pra mim na Rodoviária do Plano Piloto. Isso me abriu um campo para criar minhas pequenas narrativas.

 

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Uma publicação compartilhada por Sabiá Canuto De Melo (@sabiacanuto)

Nesse período, algo ficou marcado em sua memória?
Sim. Marcante também foi a experiência que tive aos 7 anos, ouvindo discos de vinil nas antigas vitrolas. Raul Seixas foi meu primeiro poeta. As letras de Raul têm um poder de penetração fora do comum pelas imagens que ele cria. Aquilo me pegou. “Trem das Sete”, “Ouro de Tolo”, “Gita”. Ainda na escola, na 4ª série, participei de um pequeno concurso de poesia. O tema era: “Dia das Mulheres”. Arrisquei e rabisquei meu primeiro poema e não acreditei quando ganhei o prêmio: uma caixa de bombons! Lembro de minha mãe toda orgulhosa e tal. Mas parei por ali, não escrevi mais. Só mais tarde, no Ensino Médio, estudando para o PAS/UnB, que entrei de vez nesse universo da literatura. Lembro a sensação de quando li pela primeira vez o Drummond. Fiquei desnorteado. Era uma pedra no meio do meu caminho. Não entendia aqueles poemas, mas ao mesmo tempo aquela linguagem estranha me atraía. E talvez seja esse o grande desafio que a linguagem literária coloca pra gente; ela nos desafia, nos tira do lugar comum, e por isso mesmo alarga nossos horizontes, abre mundo. Daí veio o Bandeira, o Gullar, a Clarice, o Rosa, e não larguei mais. Ler e escrever poesia passou a ser uma necessidade vital. Hoje sou professor de literatura e dissemino a compreensão que o fenômeno da poesia está para além da própria literatura. A poesia te surpreende onde menos se espera.

E o cordel, como entrou na sua vida?
Acho que o cordel foi mais um desdobramento da minha necessidade de me exprimir através da poesia, da literatura. Quando comecei a escrever meus primeiros cordéis eu já estava cursando Letras na UnB. Era um momento mágico por muitas razões. Uma das razões era pela minha origem. Ingressar numa universidade pública era um sonho que cultivei com muito estudo e privação. Quando um jovem que vem da periferia passa numa universidade pública não é apenas uma vitória pessoal, é uma vitória da família. E era isso. Depois meu irmão caçula passou também, e foi outra grande vitória. A gente estava tão feliz que, a princípio, nem ligava se pegava dois ônibus pra ir e dois pra voltar. E foi nesse estado de magia que tive a sorte de conhecer na UnB o mestre Zé do Pife. Artista consagrado aqui no DF.

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Então, acho que o mestre Zé do Pife é um dos grandes responsáveis pela sua trajetória no cordel…Mestre de pífano pernambucano, septuagenário, que também pegava dois ônibus para ir da sua casa até a UnB e dois para voltar. Zé do Pife é um guerreiro a serviço do encantamento, e isso eu falo sem exagero nenhum. Lembro dele reunindo um bando de jovens como eu no lugar que ele nomeou de “O Cantinho da Alegria”. Quando Zé tocava seu pífano, era como se ele abrisse para todos nós alguma espécie de portal para outro estado de espírito. E Zé declamava para gente versos de cordel que ele guardava vivo na memória, versos de Pinto do Monteiro, de Louro do Pajeú e tantos outros. E foi ali, naquele “cantinho da alegria” na UnB, que Zé, sem querer querendo, semeou em mim a cultura da literatura de cordel.

Além dele, você teve alguma outra influência?
Outra influência é, sem dúvida, a banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado. Aquelas declamações de Lirinha e aquela pancada musical me arrepiavam. E aqui estamos, cordelizando. Hoje tenho amigos da mesma geração – discípulos de seu Zé – que estão tocando para frente essa arte. Estou falando dos amigos cordelistas Davi Mello, Keyane Dias e Fernando Cheflera. Juntos, a gente fundou o Coletivo Passarema.

Inclusive, você participou da fundação da primeira Cordeteca de Brasília, na Casa do Cantador, em Ceilândia. Como você foi desenvolver esse projeto?
A Cordelteca foi fundada em 2019 na Casa do Cantador. É um espaço que foi idealizado pela amiga Aline Ferrari, que na época gerenciava e trabalhava na Casa. A minha colaboração e a de muitos outros colecionadores foi no sentido de doar folhetos de cordel e livros para enriquecer o acervo, que na inauguração chegou a ter 2 mil livretos à disposição no espaço. O objetivo era e ainda é fomentar a Cordelteca com ações culturais. É um espaço muito promissor que deve ser valorizado e ter visibilidade. Infelizmente a pandemia frustrou alguns planos que estavam por nascer. Atualmente, estamos nos organizando para realizar ações que fortaleçam a Cordelteca.

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Hoje, você também circula o DF com o Projeto Cordel nas Bibliotecas. Como tem sido para você e seus parceiros?
Isso mesmo, recebemos estudantes e a comunidade. O Projeto Cordel nas Bibliotecas é um projeto financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura, o FAC, da Secretaria de Cultura do DF. Seu objetivo é a ocupação das bibliotecas públicas com oficinas de literatura de cordel e oficinas de xilogravura. Neste ano circulamos nas bibliotecas da Candangolândia, da Asa Sul e de Taguatinga. Atendemos gente de todas as idades, crianças, adolescentes e idosos. O projeto proporcionou para todos que participamos experiências incríveis, porque para além da literatura de cordel, o que estamos promovendo é o encantamento para o universo da leitura. E para além de ensinar sobre métrica, rima e oração, nosso foco foi proporcionar uma experiência saborosa para nosso público. Afinal, o saber real só vem por meio do sabor. O Davi Mello, por exemplo, trouxe a brincadeira com os bonecos de mamulengo. O Fernando Cheflêra trouxe o teatro mambembe. E eu trouxe a narração do cordel com apoio na musicalidade. Valdério Costa, por meio da xilogravura, deu oficinas onde o público criou suas próprias matrizes. No final das contas todas as expressões da cultura popular se misturam e se somam. O cordel não está isolado, com ele toda uma família de manifestações culturais afins, o baião, o repente, o mamulengo. Na oficina mostramos pra juventude o que tem em comum entre o cordel e o rap. Olha, o projeto tá tão chique, que vamos ter um produto audiovisual editado pelo Francisco Rios. Sem contar as fotografias da Tatiana Reis. É coisa fina. Mas a experiência mais inesquecível que vivi no projeto, sem dúvida, foi com o público da Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga. Coisa de outro mundo. Essa experiência daria uma entrevista à parte.

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Foto: Tatiana Reis

Entre tantos projetos, você lançou, na última semana, seu primeiro livro selo editorial, o “No Truvisco das Horas”. Como foi alcançar mais esse sonho?
Publicar o “No Truvisco das Horas” é, sem dúvida, uma das grandes realizações da minha vida. Acho que, para qualquer pessoa que vive dessa vocação que é escrever — ainda mais quando se é um escritor no Brasil, nascido e criado na periferia do capitalismo, a publicação de um livro é quase um triunfo. É portanto o meu primeiro livro com selo editorial, a AVÁ, uma editora cerratense, interdependente. Juntos pensamos toda a concepção artística do livro, diagramação, revisão, capa, paratextos e etc. No final das contas, por mais que seja uma consagração pessoal. Lutei, trabalhei, financiei, e tudo que vem na base do suor tem outro gostinho. Mas se torna mais gostoso ainda quando você pode contar com sua rede de amigos no apoio. Seja incentivando, comprando nosso livro, valorizando a gente. “Gracias a la vida” tenho muita gente boa ao meu redor. Parafraseando Belchior, sou um rapaz latino americano, sem parentes importantes, mas um sujeito de sorte.

Realmente deve ter um sentimento muito profundo e de orgulho com essa realização…
Numa das páginas do meu livro eu deixei registrada a frase que exprime uma filosofia sul-africana, Ubuntu, que diz: “Eu sou porque nós somos”. Sou porque tive o apoio e a orientação do meu amigo e mestre, o professor e poeta Augusto Niemar. Um goiano de coração largo que me abriu as portas para o universo da geopoesia. Não só orientou como prefaciou o meu livro. Ele também me apresentou o artista plástico, também goiano, Lemuel Gandara. Foi Lemuel que me cedeu o direito de usar uma de suas obras para compor a capa do Truvisco. Coisa primorosa. Foi por meio de Augusto que conheci também a professora Ana Clara Medeiros, é dela o posfácio elegantérrimo do livro. Tudo isso coordenado editorialmente com muito capricho pela Natália Aniceto, a ponta de lança da AVÁ. Não queria falar não, mas o livro tá fino, literalmente e metaforicamente. Conta com fotografias lindas da Bruna Braz. Tem até orelha assinada pelo nosso querido mestre Tico Magalhães. Fico sem palavras. É muita sorte. E muita transpiração também. Apoia nóis minha gente.

“No Truvisco das Horas” fala sobre o quê?

“No Truvisco das Horas” é um livro de poesias. Uma seleção dos poemas que escrevo desde 2020. Então o livro absorve e se deixa impressionar por tudo que nos acontece de lá pra cá. A pandemia, a situação política no Brasil, o sentimento aflitivo pela ascensão do fascismo que insiste em crescer aqui e no mundo, as guerras regionais, a violência urbana, as memórias candangas, os amores e desamores, tristezas e alegrias, tudo reverbera neste coração de rapaz latino americano. É um livro lírico, urbano e periférico, porém deslumbrado de Cerrado. Livro que bebe das geopoéticas kalungas e candangas. Livro que bebe vida, que esmiúça silêncios e acende palavras. E truvisca seus fractais de vida, lampejos biográficos.

Foto: arquivo pessoal

E essa pequena, mas curiosa palavra “Truvisco”, de onde vem?
As pessoas acham engraçado e realmente me perguntam de onde eu tirei esse “truvisco de hora”. Explico que é uma expressão que colhi na comunidade quilombola do Vão de Almas, através de dona Fiota Kalunga. Eu perguntei pra ela: “Fiota, como faço pra chegar ao rio Capivara? É longe?”. E Fiota me responde: “É nada, é pertinho! Você vai e volta num truvisco de hora!”. Eu achei isso lindo. E esse truvisco de hora ficou ecoando e fermentando na minha cabeça. O professor Augusto Niemar prefaciando o livro definiu “o truvisco de hora”, como sendo “o eterno numa fração de segundos”. Achei incrível essa definição. É isso mesmo. Truvisco é lampejo, fragmento de tempo, fiapo de trovão, centelha de vida.

E o lançamento, já tem data e local para acontecer?
Tem, sim. “No Truvisco das Horas” tem duas datas de lançamento: dia 02 de dezembro, na Feira do Livro de Brasília, dentro da programação literária “Gracias a la vida”; e no dia 09 de dezembro, no Caracas Véi, localizado em Taguatinga. O Caracas Véi é um ponto de cultura e gastronomia criado pela poeta Meimei Bastos, referência de peso na quebrada e no quadradinho do DF. Lá estarão outros artistas também apresentando seus trabalhos.

Recado dado. Vamos lá prestigiar e fortalecer a cultura local, gente!

Foto: arquivo pessoal

Qual página ou poesia do livro mais te marcou e por quê?
O livro traz uma seleção dos poemas que mais reverberam em mim. Mas posso citar aqui o trecho de um poema que diz assim:

“Escrevo porque a poesia
é o milagre da participação na vida
e isso não cabe em mim”






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