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60 Anos, 60 Histórias

Um misto de carne e aço

“Era finalmente, e definitivamente, o Homem. Viera para ficar. Tinha nos olhos a força de um propósito:permanecer, vencer as solidões”Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim em “Sinfonia da Alvorada”

Olavo David Neto

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Não tenho condições de registrar, diariamente, o que está acontecendo. É humanamente impossível. Há obras, em ritmo acelerado, em todo o Plano Piloto”, escreve César Prates em Do Catetinho ao Alvorada, espécie de diário da construção de Brasília. Era o início de 1957, e o chamado Ritmo Brasília já se impunha no canteiro de obras que dava forma à futura capital do Brasil. Milhares de trabalhadores braçais buscavam um futuro melhor na promessa de um novo centro de poder para o país.

Os primeiros que aqui chegaram, na metade de 1956 — poucos meses depois, portanto, da Mensagem de Anápolis (vista na reportagem 23 deste especial) não possuíam sequer um teto para protegê-los das frias noites do cerrado. Todos aqueles que se dedicaram às obras foram abrigados em barracas cedidas pelo Exército, e lá pousavam após demarcar, terraplanar e edificar o Aeroporto Vera Cruz, por exemplo, e as obras do Catetinho, o Palácio de Tábuas que abrigou Juscelino Kubitschek nas visitas ao Planalto Central.

Para a obra — viabilizada por amigos do presidente —, o engenheiro Roberto Penna encaminhou mais funcionários em um caminhão para a nova capital, onde chegou em 23 de outubro daquele ano introdutório de empreitada. Cabe lembrar que esta cidade que abriga os bastiões da República surgiu do zero, do barro. Apesar das primeiras ligações feitas entre os diversos canteiros de obras para o fornecimento de material, faltavam estradas e, principalmente, meios de locomoção para os candangos.

Compras de supermercado, por exemplo, eram feitas a pé, bem como a maioria dos deslocamentos do local de descanso para a área de trabalho. Neste sentido, algumas empresas colaboraram desde os primórdios da construção. No início de 1957, cerca de três mil operários já haviam desembarcado no descampado canteiro de obras. Conforme estudo da Novacap à época, em meados de 1957, contribuíam ao sonho de JK cerca de 12.300 operários. Formava-se, dia após dia, o misto de carne e aço que daria forma à capital.

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Dois núcleos urbanos

A Companhia Urbanizadora da Nova Capital, desde sua instituição, promoveu campanhas para angariar trabalhadores em torno do projeto de Juscelino. Para abrigar tanta gente, um acampamento foi erguido nas proximidades do Plano Piloto. Lá ficavam os operários, sobretudo os solteiros. Construídos logo após a edificação do Catetinho, os imensos barracões de madeira serviam como casa a centenas de proletários braçais.

Esse conglomerado era privilegiado, à época, por contar com infraestrutura diferenciada de serviços públicos. Além das residências das equipes técnicas e administrativas, o local contava com a sede da empresa estatal, dois restaurantes, posto de saúde, hospital e escola para os filhos dos candangos.

Empreiteiras seguiram o exemplo

A Rabelo, do engenheiro Marcos Paulo Rabelo, e a Pacheco Fernandes, que também herdou o nome do fundador, tomaram para si as obras do Palácio da Alvorada e do Hotel de Turismo, respectivamente. Assim, ainda em 1956, os funcionários destas construtoras se aglomeraram nos acampamentos criados entre as duas obras. Vizinhos de rua, os alojamentos eram delimitados por guaritas e grades e a entrada de pessoas que não viviam em cada um dos blocos residenciais improvisados era limitada.

Outro empreendimento que se fez necessário nos meses iniciais foi o Departamento de Força e Luz, conhecido por Defelê graças à pronúncia das três iniciais do nome fantasia, DFL. Pela necessidade de instalações elétricas no centro da futura capital, que abrigaria os ministérios e uma praça dividida pelos palácios dos três poderes, o acampamento da empresa foi instalado nas vizinhanças da Rabelo e da Pacheco Fernandes, às margens do Lago Paranoá.

Atravessando o vazio que seria inundado entre as edificações e o horizonte, outro conglomerado proletário se formava. Prevista por Antoine Glaziou, a formação do Lago Paranoá dependia da construção de uma barragem para findar o escoamento que se dá em direção ao litoral brasileiro. Os operários, portanto, montaram acampamento nas redondezas da obra e ali formaram a Vila Paranoá, composta por uma igreja, uma delegacia e cerca de 800 habitantes.

É interessante observar a formação — e posterior consolidação, como veremos mais adiante nesta série — dos acampamentos entre o Congresso Nacional, o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel. Quando da escolha do Plano Lúcio Costa para o desenho da cidade, o traçado urbano foi “puxado” mais para perto da futura lâmina d’água justamente para evitar a aglomeração imobiliária numa zona destinada ao centro administrativo e a apenas uma residência – destinada ao chefe do Executivo.

Mesmo que se pensasse a curta duração desses alojamentos, o crescimento populacional nessa região se deu de tal forma que impossibilitou a retirada dos habitantes. Pais e mães da cidade em construção, muitos operários se recusaram a deixar os locais onde fixaram raízes e passaram a agir para boicotar os planos governamentais de reorganização territorial.

A bem da verdade, as iniciativas por parte dos mandatários se deram de modo tardio e desordenado. Pelo plano dos idealizadores, encabeçados por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, apenas um terço do contingente que aterrissou no avião permaneceria na futura capital, prevista para 500 mil pessoas.

Uma cidade sem amarras

Outra medida de cunho econômico-social tomada pela Novacap foi o traçado de três ruas simples também no entorno do Plano Piloto. Ali, seriam ofertadas condições para estabelecimento e ocupação de comércios de todos os tipos, as edificações que, por diversos motivos, não cabiam na cabine do avião que estava em construção. “Imaginou-se, na época, a criação de um núcleo populacional, fora do Plano Piloto, com um comércio regular que pudesse atender aos trabalhadores que chegassem”, relata o “presidente Bossa Nova” em Por Que Construí Brasília.

Outra observação de Juscelino Kubitschek, presente na mesma obra, partia do pressuposto de que a empreitada do qual se tornara fiador mobilizou o país. Em uma de suas visitas periódicas ao canteiro de obras, ele deparou com a miséria. “Eram milhares, possuindo apenas a roupa do corpo. Muitos tinham mulheres e filhos. Queriam trabalhar (…). E, como era natural, tinham necessidade de casas”, relembrou JK.

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Num diálogo à porta do carro presidencial, um retirante indagou ao chefe da nação se o povo poderia construir casas naquele conglomerado recém-nascido. “Está bem, pessoal”, respondeu o político. “Que cada um faça sua casa. Mas nada de invadir o Plano Piloto”, completou. Pouco tempo depois, em 1958, a Cidade Livre abrigava cerca de 2.600 casas e sete agências bancárias, além de restaurantes, hotéis, bares, pensões, um mercado e estabelecimentos menos familiares, por assim dizer. Estes assuntos, porém, veremos mais à frente neste especial.




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