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Lúcio Costa, o homem que pilotou o Plano

“E o Cruzeiro do Sul resplandecente Parecia destinado A ser plantado em terra brasileira”Vinícius de Moraes e Tom Jobim em “Sinfonia da Alvorada”

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Quatro ideias para um mesmo plano

“E o Cruzeiro do Sul resplandecente Parecia destinado A ser plantado em terra brasileira”Vinícius de Moraes e Tom Jobim em “Sinfonia da Alvorada”

Olavo David Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

“ Levando em consideração o que vem de ser enunciado, o júri selecionou quatro projetos, que até certo ponto preenchem os critérios enumerados”, dizia o texto do relatório final da Comissão Julgadora do Concurso, responsável por escolher o Plano Piloto da capital da República. Dentre os 26 trabalhos apresentados, dez foram selecionados como finalistas — apesar de não haver tal previsão no edital, conforme visto na última reportagem. Prosseguindo à escolha, o júri fez considerações iniciais e apresentou as razões para a decisão.

“O Júri se deparou com uma tarefa difícil, ao tentar estabelecer uma classificação dos projetos segundo os aspectos funcional e plástico”, versaram os julgadores.

De acordo com o documento, reproduzida no Diário Oficial da União (DOU) em 25 de março de 1957, os responsáveis pela escolha de um projeto procuraram “encontrar uma concepção que apresentasse unidade e conferisse grandeza à cidade, pela clareza e hierarquia dos elementos”.

Os trabalhos analisados foram afunilados e apenas quatro deles constam no relatório final enquanto merecedores de maior atenção. O projeto nº 2, assinado por Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves; o trabalho nº 8, entregue pelo escritório dos irmãos Maurício e Marcelo Roberto; o esboço nº 17, de Rino Levi, Roberto Cerqueira César e L. R. Carvalho Franco; e, finalmente, a proposta nº 22, de Lúcio Costa.

O que poderia ter sido

Encabeçado por Milmann, o segundo projeto entregue à Companhia Urbanizadora da Nova Capital se baseava num centro administrativo fechado em si, retangular, que abarcava apenas as atuais Zona Central e Asa Norte. A população seria acomodada nas cidades-satélites, que seriam dedicadas às atividades não-governamentais, previstas linearmente. O Lago Paranoá seria aproveitado, pois haveria construções às margens da lâmina d’água — o que, hoje, é proibido pelo Código Ambiental.

O plano dos irmãos Roberto, batizado de projeto nº 8, previa a abolição do automóvel “como forma de circulação cotidiana do cidadão”, dizia, na justificativa. No conceito desenvolvido, monotrilhos seriam instalados entre os pólos urbanos — circulares — para a deslocamentos prioritariamente feitos a pé. A ideia era edificar vias exclusivas para pedestres.

Já Rino Levi propôs uma capital vertical. Pelo conceito do plano nº 17, seriam construídos três superblocos, cada um composto por 32 prédios de 20 andares, com capacidade para 48 mil moradores, totalizando 300 metros de altura (a envergadura da Torre Eiffel, em Paris) e distantes 15 metros uns dos outros. Neles, haveria blocos comerciais, ruas e locais de lazer coletivo. As sedes dos Poderes estariam nas vizinhanças do Palácio da Alvorada, longe do centro urbano, onde ficariam os ministérios.

“O único plano para uma capital administrativa do Brasil”

O traço simples de Lúcio Costa, partindo de uma cruz para fazer seu projeto, uniu-se ao de Niemeyer

O trabalho nº 22 vinha de maneira simples, enxuta. O professor Lúcio Costa apresentou à consideração da Comissão Julgadora um simples esboço de traços simples e um memorial. Pouco, em relação aos concorrentes, que apresentaram plantas, estatísticas, planejamentos e croquis em quase 500 páginas de documentos cada um. Como veremos, a bem da verdade, o urbanista sequer pretendia competir.

Atento ao edital — que pedia, no item 3, tão somente o “traçado básico da cidade, indicando a disposição dos principais elementos da estrutura urbana, a localização e interligação dos diversos setores, centros, instalações e serviços, distribuição dos espaços livres e vias de comunicação” — Costa não foi além do pedido. Conforme conta Ernesto Silva, em História de Brasília, era “tudo muito simples, como convém às grandes obras e grandes ideias”.

 

Conforme conta no relatório, o relevo da nova cidade foi levado em consideração. “Procurou-se (…) a adaptação à topografia local, ao escoamento natural das águas, à melhor orientação , arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo no triângulo equilátero que define a área urbanizada”, disse o competidor. Lúcio também pede desculpas pelo pouco material entregue. “Não pretendia competir e, na verdade, não concorro, apenas me desvencilho de uma solução possível que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já pronta”, disse.

O plano, ao qual todos os brasilienses vêem diariamente, foi alvo de poucas críticas dos julgadores, que consideraram haver “demasiada quantidade indiscriminada de terra entre o centro governamental e o lago”, já que, pelo projeto original, a Praça dos Três Poderes seria edificada na altura do que hoje é a Catedral Metropolitana; viram o aeroporto muito perto do centro urbano; atestaram que “a parte mais longínqua do lago e as penínsulas não são utilizadas para habitações”; e a ausência de explicações acerca das “estradas regionais, especialmente com relação a possíveis cidades-satélites”. E só.

Para o juri, “o projeto que melhor integra os elementos monumentais na vida quotidiana da cidade, como Capital Federal, apresentado numa composição coerente racional, de essência urbana — uma obra de arte — é o projeto número 22, do senhor Lúcio Costa”.

Como o edital do concurso assegurava pagamento aos cinco melhores colocados, o júri tratou de classificar os trabalhos. Logo atrás de Lúcio ficou o projeto nº 2, de Milmann, mencionado acima. Em terceiro, o plano nº 17, de Rino Levi, por “apresentar uma alta qualidade plástica em harmonia com uma grande competência técnica”. Para o quarto lugar foi escolhido o esboço dos irmãos Roberto, graças à ampla pesquisa de desenvolvimento regional e seus estudos aprofundados dos problemas econômicos e administrativos”. A quinta colocação foi divida entre três projetos: 24, 26 e 1.

O plano 8, dos irmãos Maurício e Marcelo Roberto, foi um dos quatro finalistas do concurso para a criação de Brasília, a nova capital no Planalto Central do país

Com relação ao plano apresentado, nem mesmo os derrotados por Costa ousaram contestá-lo. Para Boruch Milmann, o inventor de Brasília era mais que um rabiscador; era um artista. “O que resolvemos tecnicamente, segundo o urbanismo funcional que era vigente na época, Lúcio Costa transformou em poesia, deu asas para a cidade”, comentou numa entrevista à historiadora Aline Moraes Costa, em março de 2000.

Brasileiro fruto do solo francês

Filho de um engenheiro naval a serviço na Europa, Lúcio Costa veio ao mundo no dia 27 de fevereiro de 1902, em Toulon, na França. Registrado quatro meses depois, quando a família retornou ao Brasil, deixou o país novamente em 1910 rumo à Inglaterra — novamente no encalço do pai —, e só pisaria em solo brasileiro novamente em 1916, um ano antes de entrar na Escola Nacional de Belas Artes. De lá, saiu formado arquiteto em 1923.

Ainda novo, no auge dos 25 anos, Via no estilo neocolonial “lamentável mistura de arquitetura religiosa e civil de pormenores de épocas e técnicas distintas”. Na década de 1930, assumiu o comando da instituição que lhe graduou e teve como um de seus alunos um parceiro para a vida: Oscar Niemeyer. Coube a Lúcio Costa convencer o então chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, da necessidade de importar o talento de Le Corbusier — já citado neste especial.

Desta época, conta Lúcio que Le Corbusier “deixou, de quebra, sem querer, uma dádiva: foi durante esse curto, mas assíduo convívio de quatro semanas que o gênio incubado de Oscar Niemeyer aflorou”. Brasília, então, agradece. O arquiteto, na verdade, procurou trabalho no escritório do urbanista pouco depois de formado. Quando do recebimento de uma carta de intenções, Lúcio tentou dissuadí-lo, afirmando não ter projetos suficientes para acrescer à equipe que comandava.

Vencido o concurso em 16 de março — publicada a vitória no Diário Oficial do dia 25 —, Lúcio e Oscar repetiriam a dobradinha para mais uma obra pública de interesse nacional. Desta vez, porém, construiriam uma cidade, a ponte para o futuro da nação. Pela empreitada mudancista, ficariam eternizados na história brasileira como as mãos que deram forma a um cerrado inóspito, visto há mais de um século como ideal para abrigar o centro dos poderes nacionais.

O projeto de Rino Levi, Roberto Cerqueira e Carvalho Franco previa a construção de imensos prédios da altura da Torre Eiffel para a moradia dos brasilienses


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