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Livre: a terra sem amarras

“Como era uma cidade de fato, levou o nome de Cidade Livre, porque ela não era de direito, então era livre para tudo” Relato de um candango em “Construtores de Brasília”

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O ponto de chegada e de lazer: a Cidade Livre rapidamente tornou-se a grande referência dos candangos
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Olavo David Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

Operários, máquinas, terra e sol. Brasília tomava forma ainda no início da construção graças a milhares de braços que se uniam para fazer do barro uma cidade. Onde, porém, abrigar todo esse povo? Vimos ao longo desta semana a formação dos primeiros acampamentos do canteiro de obras da nova capital e a dinâmica em torno das instalações. A grande questão remanescente seria como dar a essa população pioneira os serviços um tanto menos básicos, como serviços e lazer. Para tal, era necessário um núcleo que reunisse tudo isso.

No final de 1956, os acampamentos da Novacap já estavam de pé, e logo depois viriam os alojamentos privados. Como parte da urbanização que lhe era dever, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital demarcou três avenidas numa área próxima aos canteiros de obras — vizinha ao local onde seus funcionários viviam — para receber as primeiras construções comerciais, já que tais edificações só estavam planejadas para o Plano Piloto, e depois da construção.

É a questão que o próprio Juscelino Kubitschek explana em Por Que Construí Brasília. “Imaginou-se, na época, a criação de um núcleo populacional (…) com um comércio regular que pudesse atender aos trabalhadores que chegassem para a construção da capital”, relata o presidente. E lá se instalaram os comerciantes. E tinha de tudo. Toda a ordem de serviços que pudessem demandar os candangos — inclusive sexuais — eram encontrados no único centro urbano da vizinhança.

Rapidamente, o aglomerado se tornou o destino favorito dos candangos nos raros momentos de descanso. Com salário nas mãos, partiam no sábado (dia em que recebiam o pagamento) ou mesmo no domingo e só voltavam na madrugada de segunda-feira. As economias que sobravam dos depósitos feitos às famílias eram gastas nos serviços oferecidos em casas de madeira — único material permitido no regime de comodato empreendido para as construções, que seria demolidas quando da inauguração de Brasília.

As primeiras licenças

Qualquer construção que se erguesse naquele cerrado de barro vermelho — “terra do nem”, já que não pertencia a Goiás, e a União ainda carecia de infraestrutura no local — precisava de autorização da Novacap. Quando vieram as primeiras autorizações, desandaram os requerimentos. “Havia quem morasse sob árvores, debaixo das pontes e até mesmo dentro de caminhões abandonados”, escreve Juscelino. “A situação agravou-se tanto que julguei melhor ir ver, com os próprios olhos, o que ali estava ocorrendo”, conta JK.

Eram os invasores iniciais da nova capital. Sem ainda obter o aval da Companhia Urbanizadora, se acomodavam como podiam, mesmo sem trabalho, mesmo sem comida. Famílias inteiras improvisavam moradias na porção de terra onde quase tudo se improvisava. “Vamos deixar o povo construir, presidente?”, questionou um homem. Nem mesmo os licenciados da cidade se importavam com a presença dos novos imigrantes, o que levou Kubitschek a autorizar construções. “Está bem, pessoal. Que cada um faça sua casa”, disse o presidente da República.

Que direitos? Patrões cortavam até a água.

Como mencionado na última reportagem, era costume nos acampamentos que as empresas cortassem o fornecimento d’água no fim do sábado. Assim, os operários não poderiam tomar banho e seriam desestimulados a se dirigir à zona de diversão, sobretudo aos bares e meretrícios que se acumulavam na região comercial. Numa época em que o sexo era limitado no canteiro de obras — não só pela rigidez das companhias, mas pela própria falta de companheiras na fase de construção —, a sujeira impregnada no corpo também se mostrava muitas vezes um obstáculo.

Mesmo com tudo contra, muitos se deslocavam pelas estradas de terra que ligavam os acampamentos à Cidade Livre. E encontravam, pelo caminho, uma imensidão de bichos peçonhentos. Por isso, muitos andavam armados, seja com facas, seja com objetos de fogo. Quando não eram necessárias para o confronto com animais, as armas a tiracolo se tornavam um perigo ainda maior em razão da bebedeira desenfreada nos momentos de lazer. Era, portanto, um cenário de Velho Oeste de filme norte-americano. Um verdadeiro faroeste caboclo.

Os candangos chegavam em velocidade impressionante: 2.500 trabalhadores novos por mês em 1959

Sem controle, não: livre!

Muito se fala nos documentos históricos que o nome da região se origina da ausência de tributação nos estabelecimentos locais. Não deixa de ser verdade, como apontam os relatos de Juscelino e Ernesto Silva, em História de Brasília, por exemplo. A liberdade exaltada no nome inicial, contudo, também tem origens no tratamento diferenciado que recebiam os moradores do que viria a ser o Núcleo Bandeirante. Lá, a rígida disciplina vista nos acampamentos da Novacap, das construtoras Rabelo e Pacheco Fernandes, para citar algumas, não era vista.

É o que corrobora a fala de um morador, colhida pela cientista social Nair Bicalho e reproduzida em Construtores de Brasília, sobre o início da ocupação. “A cidade era uma cidade de fato, mas não de direito. Como era uma cidade de fato, levou o nome de Cidade Livre, porque ela não era de direito, então era livre para tudo”, diz o candango cuja identidade não foi revelada. Com menos de um ano de existência, a população já ultrapassava dois mil habitantes, num exemplo da grande massa proletária que, a cada mês, desembarcava para colaborar com as obras.

Em 1958, 2.600 casas já estavam erguidas na Cidade Livre, que contava também com quatro agências bancárias, duas escolas primárias, hotéis, pensões, açougues, armarinhos, um consultório médico, três dentistas, cinema e até um mercado municipal. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento populacional durante a construção se dava na ordem de mil novos habitantes a cada mês entre dezembro de 1956 e julho de 1957; daí até março de 1958, 2.100 pessoas chegavam mensalmente ao Planalto Central; e desta data a maio de 1959, o fluxo migratório chegava a 2.500 novos habitantes por mês.

Grande temor de JK, a favelização de Brasília não se deu com o estabelecimento do núcleo, mas com uma crise hídrica das mais fortes vividas no Nordeste. Ainda em 1958, cerca de cinco mil retirantes chegaram de uma só vez ao Planalto Central fugidos da seca, assunto que abordaremos mais adiante neste especial. Chegaram à região comercial das obras e se instalaram na vizinhança, ao longo da estrada que ligava a futura capital a Anápolis. Hoje, estaria às margens da Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB), e a invasão fincou raízes. “Formara-se assim a primeira favela de Brasília”, lamenta Kubitschek em sua obra.

JK fiscaliza as obras. Pressionado pelos trabalhadores, ele aceita que eles construam casas para suas moradias.

“Coragem eu tenho”

Conhecida como porta de entrada para novos candangos, a Cidade Livre recebeu, por exemplo, o patriarca da família Sarkis. Chegado em março de 1957, Jorge procurou serviços nas obras do Brasília Palace Hotel e do Palácio da Alvorada, no que não logrou sucesso. Sem dinheiro e sem ter onde dormir, foi à cidade livre pedir residência no Hotel Souza, que estava lotado. A construção era rudimentar. “Não tinha nada, lâmpada, tomada, fio, interruptor. Nada. Não tinha energia”, relembra o filho, Yousseff Jorge Sarkis.

Eletricista, Jorge viu ali a oportunidade de, ao mesmo tempo, mostrar serviço e ganhar abrigo. “Escuta, Souza, me dá um quarto aí”, solicitou, no que foi negado pelo dono por não haver vagas. No fim do corredor, havia espaço. “Você me arruma um lençol e a gente fecha”, solicitou ao proprietário. A permuta pela estadia veio na instalação elétrica do hotel, uma raridade na região. Com um emprego e um lar provisório, Sarkis foi à porta do estabelecimento e assistiu ao espetacular pôr do sol no cerrado.

“É, Deus, me dê trabalho”, disse aos céus. “Coragem eu tenho”.

E ali, na Cidade Livre, o patriarca fincou as raízes do clã no novo Distrito Federal. Jorge ainda contribuiria com a fiação elétrica de um prédio na 105 Sul, onde ele mora até hoje, e a fundação da Elétrica Sarkis, a primeira loja de material do ramo na terceira capital da República.


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