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60 Anos, 60 Histórias

Educação para os filhos deste solo

Lindauro Gomes

Publicado

em

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Olavo David Neto e Vítor Mendonça
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“Uma das minhas preocupações, desde o início das obras, era a de dar assistência escolar aos filhos dos candangos”, revela Juscelino Kubitschek em Por Que Construí Brasília. A preocupação fazia sentido. Em 1956, chegaram os primeiros operários, que demarcaram o básico da cidade (estradas, aeroporto e canteiros de obras). E vieram sozinhos, muitos apenas com a roupa do corpo. No ano seguinte, porém, os trabalhadores enviavam passagens para que as famílias também desembarcassem naquele descampado sob um céu esplendoroso.

Além disso, a notícia de movimentação obreira no Planalto Central já percorria o Brasil, e cada vez mais gente chegava com filhos a tiracolo para erguer a nova capital da República. Eram os miseráveis que o país teimava em esquecer, ou simplesmente esconder. Enfiados nos campos mais pobres da nação, viam negadas a saúde, bem-estar, serviços básicos e, principalmente, a ferramenta que derruba opressores e liberta os oprimidos: a educação.

Predominantemente rural, exportador de commodities e importador de bens de consumo, o Brasil dos anos 1950 não parecia ter jeito. Além da grave turbulência política deflagrada com o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, as crises sucessórias e de posse, com a eleição, em 1955, e a ascensão de JK ao poder, em 1956, o país tinha sérias deficiências estruturais, apontadas como “gargalos de desenvolvimento” na campanha de Juscelino.

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Retratos de um velho Brasil

De acordo com o censo demográfico decenal de 1950, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil abrigava um contingente populacional de 51,9 milhões de pessoas, das quais quase 18,5 milhões sequer possuíam Certidão de Nascimento e nem conhecimento exato da própria idade. À época, aproximadamente 21 milhões dos habitantes tinham entre zero e 14 anos, o que quer dizer que mais de um terço da população estava em plena idade escolar.

A alfabetização, porém, era restrita. Dos quase 43,5 milhões de habitantes com cinco anos ou mais, apenas cerca de 18,5 milhões (42,7%) sabiam ler e escrever, enquanto aproximadamente 25 milhões (57,2%) eram analfabetos. Algo em torno de 77 mil pessoas (0,2%) não declararam instrução. Se os índices gerais mostram problemas estruturais da sociedade brasileira na metade do século XX, os específicos não ficam atrás.

A população urbana com mais de cinco anos contava cerca de 11,4 milhões de brasileiros – natos ou naturalizados -, dentre os quais 8,3 milhões (73,1%) conseguiam ler e escrever e 3 milhões (26,9%) eram iletrados; nos subúrbios, equilíbrio: 55,7% tinham intimidade com as letras e 44,3% desconheciam a língua mátria escrita; no campo, que abrigava a maior parte dos habitantes nesse grupo etário, quase 9,8 milhões (56,4%) de pessoas jamais conseguiram escrever os próprios nomes, e por volta de 7,6 milhões (43,6%%) de indivíduos podiam assinar documentos.

Era esse o povo que acorria, famélico, ao Planalto Central na expectativa de colaborar com o sonho mudancista. Levas e levas de gente que deixava tudo para trás em busca de uma perspectiva de futuro no coração geográfico do Brasil. Construir a nova capital significava edificar um cenário diferente para uma República que nunca se voltara para dentro, ou para o grosso da sociedade brasileira. Para os capitães da epopeia, esse país rearranjado a partir de Brasília precisava superar essa desigualdade.

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Escolas como ponto de partida

Ainda em 1957, as primeiras aulas foram ministradas no então futuro Distrito Federal. Na Cidade Livre, duas escolas dividiam a atenção dos jovens: uma, num barraco escuro, quente e diminuto; outra mais arejada, espaçosa e iluminada – já que a sala era à sombra de uma árvore. Orientados pela professora Anahir Pereira da Costa, os pequenos se enfileiravam debaixo dos galhos retorcidos e ouviam atentamente as lições daquela mulher que contrariava as estatísticas e os prognósticos para dar aos alunos condições mais favoráveis.

Ciente dos esforços hercúleos dos educadores para passar adiante o conhecimento acadêmico, Juscelino procurou o presidente da Novacap, Israel Pinheiro, para demandar atendimento educacional no Planalto. A empresa tinha uma seção para o serviço, o Departamento de Educação e Difusão Cultural, que a esta altura era responsabilidade do “pioneiro do antes”, Ernesto Silva. A trindade definiu, que, em meio à elaboração de um documento normativo, algumas providências seriam tomadas.

A primeira delas foi a disponibilização de um galpão no acampamento da Companhia Urbanizadora da Nova Capital como sala de aulas. Os professores Amabile Andrade Gomes e Mauro da Costa Gomes foram contratados para ensinar às crianças. De imediato, o arquiteto Oscar Niemeyer projetou o prédio do Grupo Escolar de Brasília, ou simplesmente GE – 1, cujas obras começaram a 18 de outubro de 1957 e se encerraram 20 dias depois. Com espaço para 480 crianças, atendia em dois turnos, com três horas de atividades extras para os discentes.

As medidas foram voltadas ao ensino público, para os filhos dos operários, “de forma a evitar que eles crescessem analfabetos, como os pais”, relembra JK na obra já citada. A iniciativa privada, entretanto, não ficou para trás. Enquanto os acampamentos cresciam, novos centros educacionais surgiam na capital em formação. No Plano Piloto, os salesianos, herdeiros de Dom Bosco, construíram um colégio batizado com o nome do santo que, se supunha, sonhara a cidade, enquanto os lassalistas inauguraram o Colégio Brasília.

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Na Cidade Livre, as classes da professora Anahir agora se davam numa casa de madeira, intitulada Instituto Batista de Brasília. Conforme conta Juscelino, pomposo, “em todo o período da construção da nova capital, não existia uma só criança que não estivesse estudando”. Além do alimento para a alma, o governo subsidiava alimentação através do Serviço de Alimentação da Previdência Social (Saps) — já mencionado nesta série —, vestuário e material escolar e participação em eventos culturais, concursos e celebrações religiosas.

Uma das maiores celeumas durante a edificação de Brasília se dava em torno da qualidade de mão de obra. Humildes, esfarrapados e alheios à ciência da construção civil, os operários não possuíam capacitação profissional. Tal fato aumentava o risco de acidentes nas construções, além de retardar o tempo de conclusão de determinadas etapas das obras.

A solução veio em 30 de setembro de 1957. Ao se reunir com seu ministro da Educação, Clóvis Salgado, JK fechou um convênio para a instalação da Escola de Ensino Industrial, que seria inaugurada em 1959 na recém-nascida Taguatinga. Lá, cursos profissionalizantes eram ofertados nas áreas de marcenaria, carpintaria, instalação elétrica, artes gráficas, alfaiataria, além da formação de bombeiros hidráulicos. Era a fusão do ensino com a prática para os candangos.

Um plano revolucionário

Arcaica e excludente, a educação brasileira precisava de um solavanco para os projetos nacional-desenvolvimentistas de Juscelino. A ideia do presidente a respeito de Brasília, como ele mesmo conta, era transformar a terceira capital do país, erigida do barro, numa espécie de balão de ensaio para o resto do Brasil. A própria criação da Escola Industrial era exemplo disso. Assim, o plano educacional para o novo centro de poder deveria ser pensado simultaneamente nos âmbitos micro e macro.

Como todo grande projeto pioneiro, o documento seria redigido com um grande especialista. Invocado para erigir um marco para a educação do país, o baiano Anísio Teixeira se juntou à Novacap para elaborar as diretrizes educacionais dali para a frente. No início daquela década, Teixeira aplicara o conceito de Escola-Parque em Salvador. Nela, os alunos recebiam fomentos não só educacionais, como também sociais e cívicos. Concepção que cairia como uma luva para o projeto de Juscelino para o centro administrativo nacional.

Pronto em junho de 1957, o Plano Educacional de Brasília previa a distribuição equitativa e equidistante dos estabelecimentos, “de modo que a criança percorresse o menor trajeto possível para a escola”; a concentração de todas as classes sociais na mesma instituição; o rompimento da rotina da educação brasileira; e a tomada da escola como “centro de preparação para a vida”. Para isso, o ensino deveria se dar de forma integral, em consonância com as maiores tecnologias da época (rádio, TV e cinema) e protegendo o aluno de moléstias.

As ofertas se dividiriam por faixa etária. Para a Educação Elementar haveria jardins de infância, escolas-classe e escolas-parque; para o Nível Médio, um Centro de Educação Média, com cursos acadêmicos, técnicos e científicos e centros de Educação Física e Cultural. O benefício de construir uma cidade foi bem aproveitado: os conceitos de ensino se fundiram com as propostas para o núcleo urbano, tendo no Plano Educacional as previsões geográficas das instituições.

Eram previstas, para cada superquadra (concebidas para duas mil a três mil pessoas), um Jardim de Infância para 160 crianças e uma Escola-Classe para 480 alunos; a cada quatro superquadras, uma Escola-Parque para dois mil estudantes das Escolas-Classe, onde seriam ministrados cursos de iniciação profissional, oficinas de artes industriais e atividades artísticas, sociais e de recreação. Tudo gerido e rascunhado pela Novacap.

Utopia conquistada

Em 1959, segundo censo do IBGE do mesmo ano, Brasília já contava com 64.341 pessoas – 55% delas alfabetizadas – e pouco menos de 56 mil com idade superior a cinco anos. Quase 5.400 jovens frequentavam a escola, de acordo com o órgão estatístico. Os números da Novacap, entretanto, são mais animados. Conforme relatório também de 1959, cerca de 4.700 crianças faziam uso do sistema público de ensino primário, que contava com cem professoras distribuídas em 18 escolas nos diversos conglomerados urbanos, e nos três Jardins de Infância.

Para os mais abastados, oito escolas particulares ofereciam ensino primário a 1.996 alunos. Para o ensino médio, o Ginásio Dom Bosco e o Colégio Brasília abrigavam, juntos, 508 estudantes. Fazia-se realidade a revolução escolar pretendida por Juscelino e equipe, destacadamente o médico e diretor educacional da Novacap Ernesto Silva. “Pressentíamos que os rotineiros, os homens de alma velha, os eternos inimigos do progresso lançariam mão de todos os recursos para destruírem tais ideias rejuvenescedoras”, desabafa o “pioneiro do antes” em História de Brasília. “Lançamos-nos, todavia, à luta”, completa.




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