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Do que vive uma cidade?

“Uma enorme jararaca coleava no capim, aproximando-se de mim numa atitude agressiva”Juscelino Kubitschek em “Por que construí Brasília”

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Olavo David Neto e  Vítor Mendonça
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E m tempos de crise e isolamento, percebemos como alguns serviços básicos nos passam despercebidos no cotidiano. Mas, quando esses serviços estão ausentes, logo percebemos as suas necessidades profundas para a sociedade. Água, luz e esgoto são basilares, e, mesmo em situações críticas, o fornecimento não deve ser cortado, tendo as forças governamentais a obrigação para com o povo de mantê-lo abastecido com o mínimo necessário à civilização. Afora isso, também são garantias inerentes aos cidadãos o acesso a educação e saúde e o resguardo da segurança pública.

Naquele ermo, tomado por árvores retorcidas e — muito — barro para onde apontassem os narizes operários, não havia isso. Os primeiros que aqui chegaram estavam expostos às nuances climáticas, já que dormiam em barracas de lona cedidas pelo Exército; aos perigos do desabastecimento, uma vez que a comida tinha de ser estocada; e às doenças inerentes a uma área sem qualquer resquício de cobertura médica.

Mais um dos perigos daquele planalto deserto e seco eram os animais. Logo na primeira visita presidencial, Juscelino Kubitschek deparou com o que muitos candangos, algum tempo depois, conviveriam cotidianamente. Logo após examinar a região do Sítio Castanho, a comitiva se dirigiu à Fazenda do Gama, às margens do riacho homônimo. Bom de prosa, JK sentou em um tronco e se distraiu na conversa até ser alertado pelo interlocutor de um perigo rastejante. “Uma enorme jararaca coleava no capim, aproximando-se de mim numa atitude agressiva”, relatou o presidente em Por Que construí Brasília.

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Pioneiros na saúde

Por isso, era necessária atenção aos cuidados médicos daqueles que viriam erguer a mais nova cidade do Brasil. Para contornar este cenário, a recém-criada Companhia Urbanizadora da Nova Capital precisou se mover e firmar parcerias. Conforme conta Ernesto Silva em O Militante da Esperança e a História de Brasília, a primeira providência foi criar o Departamento de Saúde da Novacap. Na sequência, estabeleceu-se contato com o Departamento de Endemias Rurais (DNERu) do Ministério da Saúde e com o Instituto de Assistência e Previdência dos Industriários (IAPI).

Em lonas idênticas às que serviam de abrigo aos operários de primeira hora foi instalado um posto pioneiro, que foi comandado pelo médico João Leão Motta, “competente, sério e batalhador, que prestou relevantes serviços à comunidade”, conforme conta Silva. Coube ao IAPI a gestão de um posto de saúde de emergência, fundado ainda em dezembro de 1956. As enfermidades transmissíveis e de nível epidêmico foram combatidas com uma medida simples. No início de 1957, foi instituída uma carteira de trabalho específica para os candangos.

Era dada a quem chegava ao Planalto Central e se dirigia aos balcões de emprego, numerosos na Cidade Livre. Para ter acesso, porém, o candidato deveria se vacinar contra as principais enfermidades e os maiores perigos do cerrado. Estas foram as primeiras providências em meio ao início das obras da futura capital da República. Veremos com mais detalhes os planos para a saúde na nova capital na 40ª reportagem da série.

Pioneiros na educação

A vinda dos candangos, em 1956, não trazia preocupações quanto ao sistema educacional naquele fim de mundo que originou Brasília. De início, os homens que desembarcavam no ermo tinham entre 20 e 40 anos e formação acadêmica limitada ao primeiro grau primário. Isso os que tiveram acesso a educação, já que, nos rincões mais isolados do Brasil, o acesso ao estudo era um privilégio demasiadamente restrito.

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Com o decorrer das obras e o assentamento dos primeiros operários, porém, muitas famílias vieram na esteira do projeto revolucionário comandado por Juscelino Kubitschek. Assim, apresentava-se a necessidade de abrir espaços educacionais nos diversos canteiros de obras. “Uma das minhas preocupações, desde o início das obras, era a de dar assistência escolar aos filhos dos candangos”, relata Juscelino. O presidente, no entanto, observou que apenas duas instituições atendiam às crianças no Planalto Central.

Uma num barraco de madeira escuro, quente e diminuto; outra, mais arejada, espaçosa e iluminada — já que a sala era à sombra de uma árvore. Ambas situadas na Cidade Livre. “A Novacap dispunha de um Departamento de Educação e Difusão Cultural”, narra JK em Por Que construí Brasília. Apesar da seção voltada ao futuro, o presidente queria atitudes imediatas. “O que desejava naquele momento era assistência educacional aos filhos dos operários, de forma a evitar que eles crescessem analfabetos, como os pais”, relembra.

Assim, determinou Juscelino que o presidente da Novacap e Ernesto Silva, direto de Educação, estabelecessem no galpão da empresa uma sala de aula, “o que foi feito em dois dias”. Os primeiros professores — Amabile Andrade Gomes e Mauro da Costa Gomes — foram contratados para dividirem os turnos. Neste meio tempo, Oscar Niemeyer projetou e inaugurou, em 18 de outubro de 1957 — após 20 dias de obras — o Grupo Escolar de Brasília (GE-1). Este assunto, entretanto, veremos no 41º texto deste especial.

Pioneiros na segurança

A construção de uma capital para a Federação gerou algumas celeumas jurídico-legais. Por se instaurar no coração do estado de Goiás, houve interesse em levar aos colos goianos a responsabilidade pela Segurança Pública do Planalto Central. Era impossível, entretanto, porque as terras onde se erigia a nova capital da República já haviam sido declaradas de interesse da União e desapropriadas, como visto em matérias anteriores, em favor do governo federal. Restava, portanto, ao Palácio do Catete – então sede da Presidência, no Rio – cuidar disso.

Num primeiro momento, coube ao Exército o envio de um destacamento denominado Unidade de Guarda, mas que só se estabeleceria em 1958. Durante pouco mais de um ano, não havia patrulha ou segurança ostensiva em Brasília. A primeira medida de maior impacto para combater o banditismo, que corria a galope entre operários armados e inclinados ao consumo de álcool, veio com o Núcleo de Policial de Brasília.

As rondas na cidade em construção, porém, foram levadas a cabo mesmo em 1959. Neste ano, foi criada a Guarda Especial de Brasília (GEB). Sem qualquer planejamento, o comando da força foi confiado, inicialmente, a pessoas cujas atitudes não condiziam com o bom convívio social – ou seja, infratores. Em busca de soldados, os primeiros guardas se postavam na rodoviária da Cidade Livre e puxavam aqueles de maior porte físico para trabalhar na salvaguarda social.

E é claro que desandou. Conhecida – temida, na verdade – pela truculência, a GEB inspirava tanto medo nos operários que muitos deixavam relações sexuais incompletas quando ouviam gritos anunciando a chegada dos repressores. Com cassetetes de peroba que arrastavam no chão, os agentes da guarda atuaram como verdadeiros jagunços nos primórdios de Brasília, levando violência aos lugares onde deveria zelar pela paz e pela ordem.

Incorporada pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) em 1964 pela Ditadura, a GEB marcou época – de forma negativa, é claro – e inspirou uma das maiores disputas ideológicas da terceira capital do Brasil. Diz respeito a uma revolta de operários da construtora Pacheco Fernandes, deflagrada graças à baixa qualidade da comida servida no carnaval de 1959. Este tema, porém, veremos na 42ª matéria desta série especial.




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