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60 Anos, 60 Histórias

Do drama da seca, nasce Taguatinga

“Apela pra Março, que é o mês preferido | Do santo querido, senhor São José, | Meu Deus, meu Deus, | Mas nada de chuva”. Patativa do Assaré em “A Triste Partida”

Hoje, Taguatinga é uma grande cidade, com economia forte e vida própria. Mas seu nascimento foi forjado pelo flagelo da seca.
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Olavo David Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

A massa proletária se aglomerava em pequenos núcleos urbanos, essencialmente alojamentos de madeira e casas improvisadas com materiais sobressalentes das construções nos canteiros de obras. A cidade planejada se fez com base no improviso. Se havia um lugar minimamente propício para acampar, ali se faziam casas para centenas ou milhares de migrantes de todos os cantos do país, com destaque para Minas Gerais, Goiás e Bahia, os três maiores exportadores de gente obreira para a edificação da terceira capital do país. Além dos baianos, o Nordeste ainda contribuiria com grande contingente de candangos.

Naquele 1958, o Dia de São José não trouxe a chuva, fato que na cultura popular é visto como mau agouro. De acordo com a sabedoria popular nordestina, o dia 19 de março é crucial às colheitas, já que, se houver precipitação até lá, geralmente os meses do inverno serão molhados. Caso contrário, o povo que se prepare para estiagens de forte impacto social, econômico, político e, sobretudo, humano. A virada de 1957 também trouxe uma colheita decepcionante, apontando para um tempo de longas “vacas magras”.

E assim, enquanto as obras de Brasília seguiam a pleno vapor, os nordestinos penavam com a seca. A terra ardente de Luiz Gonzaga sucumbia em aridez, tombando animais e pessoas, sonhos e vidas. Qual fogueira de São João, o solo queimava a Região Nordeste, esquecida entre a quase extinção do Pau-Brasil e as quedas de cotação do açúcar. Era hora de atitudes, e Juscelino Kubitschek enviou uma missão à região para, nas palavras do pesquisador Celso Furtado, “tomar o pulso da situação”. Para a empreitada foi o escalado o coronel Oliveira Ramagem.

Irmão de Força Armada do tenente-coronel JK, Ramagem percorreu os rincões mais abalados pela Grande Seca, nos interiores de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. De tal empenho surgiu o Relatório Ramagem. O documento traz à tona o cenário apocalíptico, mas um dos pontos mais criticados na realidade nordestina são os aproveitadores. “Não sabemos (…) o que mais nos estarreceu: se a o quadro dantesco da região da seca, se a figura humilhante do flagelado ou se a miséria moral dos aproveitadores da desgraça alheia”, dispara Ramagem.

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O segundo ano da construção da capital era, também, eleitoral – inclusive para Legislativos e Executivos das nove unidades federativas abatidas pela seca. E é claro que os candidatos de uma região assolada pelo coronelismo se aproveitariam da situação. Em Por Que Construí Brasília, JK trata do assunto. “A calamidade era um excelente tema para discursos demagógicos e cada um procurava tirar partido da situação, credenciando-se junto aos seus distantes eleitores”, aponta.

Interesses eleitoreiros

Catarinense, Oliveira Ramagem mostra-se indignado com as situações vividas no Nordeste. O uso político da estiagem exasperou o militar. “Referimo-nos aos desinteresses do político pelo flagelado (…). E enquanto isso se passa, o problema se agrava, a seca continua e o flagelado entre à própria sorte”, atacou, no Relatório Ramagem. Aos aspectos causadores e potencializadores da crise, o coronel deu tom a uma trama. “O relato de tudo isso(…), constituiria, sem dúvida, um romance cujo título poderia ser ‘A Indústria da Seca’”, discorre Ramagem.

Juscelino Kubitschek manteve o documento do militar a olhos reservados. Os escritos de Ramagem somente vieram ao conhecimento público em fevereiro de 1961, quando o recém-empossado presidente Jânio Quadros retirou o sigilo da comunicação e deu acesso à opinião pública. Para Furtado, a demora em dar luz ao Relatório Ramagem “contribuiu para avolumar os rumores em torno da gravidade da situação regional”.

A seca de 1958 foi uma das mais terríveis da história, e atraiu milhares de pessoas para o sonho da construção de Brasília

O holocausto sertanejo

“Finalmente, o dia de São José chegara”, narra Juscelino. “Em seguida, uma ordem inaudível, transmitida de ouvido em ouvido, percorrera todo o Nordeste. Era como um telégrafo sem fios que comandasse: ‘Salve-se quem puder’”, relata o ex-presidente. O povo nordestino, mais uma vez, punha-se em marcha. Tal qual os retirantes do óleo sobre tela de Cândido Portinari, pintado quase 15
anos antes, eram os protótipos da morte, pessoas condenadas ao descanso eterno que ainda resistiam em viver. E como resistiam.

Unidos em desgraça, formavam uma fila quase uniforme. Uns tombavam e se quedavam pelo caminho, outros sustentavam as mazelas unicamente com a esperança de dias melhores. “Os participantes eram todos iguais. Sandálias nos pés, roupas em frangalhos, faces encovadas”, lamenta JK. E, em 28 de maio, essa gente famélica desembarcou no Planalto Central. Se era a terra da promissão de um suposto sonho católico, por que não verteria leite e mel para eles também?

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Cinco mil pessoas chegaram de uma só vez e se instalaram às margens da estrada que liga Brasília a Anápolis, hoje Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB), na altura da Cidade Livre. Os barracos demonstravam, por fora, o sofrimento e, por dentro, a destruição. As residências se limitavam a poucas tábuas de madeira complementadas como possível com latas, folhas de zinco e sacos de cimento. Sem água e, por conseguinte, saneamento básico, o local logo foi definido por Juscelino. “Formara-se, assim, a primeira favela de Brasília”, conta.

Famintos, os retirantes passaram a exigir alimentação, trabalho e moradia do governo, que por meio da Novacap, adiantou em cerca de dez anos a expansão prevista por Lúcio Costa. Com o material cedido pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital, em dez dias os primeiros barracos estavam prontos e os migrantes instalados ao sul do Plano Piloto. “Quase mil fossas”, segundo JK, ruas, transporte público para o centro das obras, fornecimento de água e assistência médica foram providenciados logo na sequência.

Fixação

A cidade estava erguida. Representava, por si só, o espírito de Brasília. Surgiu do nada para os ninguéns que emprestariam mãos, sangue e suor pela empreitada da nova capital – e frutificou. No início de 1959, recebeu Escola Industrial, mencionada na 41ª reportagem deste especial. Na mais nova cidade-satélite do Brasil, os lotes eram fornecidos pelo Departamento Imobiliário da Novacap, e somente aos que estivessem trabalhando na empresa. Comerciantes também receberam quinhões de terra para seus negócios.

Taguatinga em seu início, em foto da década de 1960. Conjunto de pequenas casas.

Pólo desgarrado

Atualmente, os moradores de Taguatinga podem passar meses sem visitar o Plano Piloto. A Região Administrativa III do Distrito Federal possui vida própria e independente do centro administrativo do Brasil, e, no âmbito industrial, ultrapassa com boa vantagem as áreas reservadas no conceito urbanístico da capital para cooptar produtores. Os descendentes dos retirantes prosperaram, apesar do início claudicante, e até pólo gastronômico e cultural a RA oferece aos moradores.

Que são muitos, e diversificados. Conforme a mais recente Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD), feita em 2018 e publicada em 2019 pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), Taguatinga abriga 205.670 pessoas, cuja média de idade pouco ultrapassa os 36 anos. Mesmo com a concepção original para os retirantes, ainda se observa na Região Administrativa a predominância dos estados limítrofes ao DF.

Dos habitantes, 56,7% nasceram no próprio Distrito Federal, o que representa, em geral, a parcela mais jovem da cidade, enquanto, entre os mais antigos – os 43,3% nascidos em outras UFs -, a naturalidade mais comum era a mineira (19,5%), seguida pela goiana (14%), e, então, por imigrantes de Bahia (10,8%), Piauí (8,4%), Paraíba (6,5%) e Ceará (6,1%). Pernambuco (3,6%) aparece atrás de São Paulo (4,5%) e à frente do Rio de Janeiro (3,3%).

E assim segue a terra pensada para poucos que representavam muitos. Símbolo de um país que pode, sim, atender à própria população em meio aos planos de desenvolvimento econômico, Taguatinga resiste ao tempo, assim como seus pioneiros resistiram à fome, à miséria e à grande seca que mudou de vez a cara do mais novo Distrito Federal do Brasil.


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