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60 Anos, 60 Histórias

A concretização do sonho candango

“Daqui não saio. Daqui ninguém me tira. Onde é que eu vou morar? O senhor tem paciência de esperar” Paquito e Romeu Gentil em “Daqui não saio”

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Olavo David Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

A inauguração estava no horizonte. Os primeiros meses de 1960 tinham um quê especial para o Brasil. Pela primeira vez em uma década, um mandato presidencial chegava ao fim – sem um assassinato político, um suicídio e várias repercussões no gabinete do Executivo nacional. No Palácio do Catete, um clima de nostalgia tomava conta dos funcionários mais próximos a Juscelino Kubitschek, o homem que, respaldado por milhares de candangos, resolvera seguir a Constituição, como prometera ainda na campanha à Presidência, em 1955.

A ocasião, de fato, tinha peso histórico – e sem volta. Qualquer rubrica de JK significava um dos últimos atos de um presidente da República brasileiro às margens da Baía de Guanabara. À oposição, liderada desde o segundo governo de Getúlio Vargas pela União Democrática Nacional (UDN), restara conclamar os servidores do estado a desrespeitar as supostas ordens do governo federal e se manter no Rio de Janeiro. Uma estratégia pouco frutífera, é verdade, já que a transferência do serviço público era optativa.

Tanto é que a União passou a oferecer benesses a quem deixasse a sociedade vibrante cultural e politicamente do Rio com destino ao Planalto Central. Assim surgiu o “trenzinho da alegria”, alcunha que pegou, pejorativamente, graças à forte campanha anti-mudancista promovida por uma parte da imprensa. Alguns deputados também subiram o tom contra a ida do Legislativo nacional àquela paragem ainda desconhecida para boa parte do Brasil, tomada por barro e por seca. Muitos parlamentares que visitaram as obras reclamaram da sujeira que se multiplicava graças à terra rubra do cerrado brasileiro.

Daqui não saio

Num movimento inverso para ambos os lados, os candangos se recusavam em deixar a cidade que ergueram do zero. Ali estavam sangue, suor, lágrimas e sorrisos daqueles que largaram as vidas e, muitos, as famílias em rincões afastados do Brasil para se juntar ao sonho mudancista quando a ideia era apenas… Bem, uma ideia. De acordo com os planos do governo, banhados de utopia, os proletários se dirigiriam ao Planalto Central, construiriam Brasília e, depois, rumariam a outros fins de mundo país afora. Iriam se pôr em marcha em direção a novos desafios, novas empreitadas que necessitassem de mãos fortes e calejadas.

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Provas contrárias não faltaram. Na Grande Seca de 1958, veio uma delas, quando milhares de nordestinos cruzaram os sertões para desembarcar na capital da esperança, como venderam os governantes para recrutar trabalhadores; com as primeiras inaugurações, outra demonstração de que seria difícil afastar aquele povo todo da pérola construída no cerrado foi dada, já que poucos iam embora e muitos arranjavam jeitos – tal qual as edificações da capital – improvisados de se manterem às margens do poder.

Já havia cidade

Naquele momento, cerca de 360 mil metros quadrados de construções já ocupavam o Planalto Central, entre prédios de residências e administrativos. Na Asa Sul, a principal ala de Brasília à época, a quadra residencial da 208 estava pronta, e da 408 à 411 Sul, um corredor de quadras residenciais aptas a receber os moradores – e algumas já ocupadas, com a vinda da primeira leva de funcionários públicos, para estabelecer uma parte da burocracia estatal no cerrado. Atravessando o Eixo Rodoviário, a 114 também tinha imóveis ocupados. Ainda na parte “de cima” do Eixão, a 108, a 308 e a 708 estavam inauguradas, bem como a 710, a 711 e parte da 712. Elas se juntaram à 713 Sul, edificada ainda em 1958.

Na outra ponta da cidade, apenas duas quadras, a 403 e a 404 faziam oposição ao barro vermelho cortado por vias da Asa Norte. Eram as alternativas de quem vinha para viver no Plano Piloto. Outras opções eram Taguatinga, inaugurada dois anos antes e estabelecida de vez em 1959, e Sobradinho, que só seria aberta oficialmente em 13 de maio, mas já recebia os primeiros moradores de um núcleo concebido para a área rural do Distrito Federal.

Às margens do Catetinho, na famosa Fazenda Gama – que recebeu Juscelino em 2 de outubro de 1956, antes mesmo de se pensar o Palácio de Tábuas -, um novo centro populacional emergiria a partir de 13 de abril, oito dias antes da abertura dos trabalhos de Brasília. A formação da cidade-satélite se fez a partir da Lei 3.751/60, e rapidamente aglomerou grande população, tornando-se, em poucos anos, um local alternativo à vida política do novo Distrito Federal.

A quadra 308 Sul, uma das primeiras de Brasília

Os prédios da administração

Na Esplanada dos Ministérios, a rua politicamente mais importante do país a partir de 21 de abril, a maior parte das obras já estava concluída a algumas semanas antes da data marcada para a inauguração. O Congresso Nacional se erguia, altivo, abrigando o nascer do sol entre as únicas torres de 28 andares permitidas pelo plano urbanístico de Lúcio Costa. A mesma edificação que ceifara a vida de milhares de operários aguardava, silenciosa, pelos discursos parlamentares, pelas discussões a respeito de políticas e diretrizes para o país.

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E foram muitas mortes. “O brasileiro não tinha o hábito de trabalhar com estruturas metálicas”, comenta a pesquisadora Leiliane Rebouças. “E assim era a estrutura do Congresso, importada dos Estados Unidos, mas montada por mãos brasileiras”, afirma a bacharel em Relações Internacionais. De alturas inimagináveis, os operários, submetidos a jornadas inacreditáveis de 12h a 24h de trabalho ininterrupto, despencavam como pássaros sem asas. As quedas, obviamente fatais, eram disfarçadas com música alta nos alto-falantes, água para tirar o sangue do solo e panos para cobrir os cadáveres.

Era a forma de não baixar o moral da tropa. E era, de fato, uma guerra. O próprio Juscelino assim classificara a epopeia da construção de Brasília em diversas ocasiões, inclusive sob o olhar atento do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, em visita ao canteiro de obras.

Em um conflito, perdem-se vidas. Em Brasília não foi diferente.

As primeiras quadras de comércio de Taguatinga logo no início da vida no DF

À espera do anúncio oficial

Apesar do aguardo do momento em que a tesoura cortaria o laço e daria por inaugurada a terceira capital na História do Brasil, a vida candanga já corria de forma independente em relação ao resto do país. Dotada de sistemas de rádio e telefonia, com jornais diários informando a população – apesar do tom escancaradamente governista -, áreas de comércio, a exemplo da Cidade Livre, cinemas, bares e diversão, o cotidiano de Brasília já se mostrava típico de uma cidade nascida para a grandeza.

Assim, quando os funcionários públicos chegaram, encontraram certa movimentação urbana entre as árvores dobradiças do Brasil central. Ao contrário dos prognósticos, havia habitabilidade na capital da República, mesmo que ainda não inaugurada. Deputados, senadores e os próximos presidentes teriam de atestar isso com os próprios olhos nos anos que viriam, e o país assistiria, dali a poucos dias, a concretização do sonho candango. “Desejado por alguns, detestado por muitos, mas nunca irrelevante”, nas palavras do pioneiro e diretor da Novacap Ernesto Silva.


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