Menu
Cinema com ela
Cinema com ela

‘Valor Sentimental’ transforma família e memória em grande cinema

O longa de Joachim Trier chega aos cinemas nesta quinta-feira (25) com uma história sensível sobre afeto, criação artística e os limites entre vida pessoal e ficção

Tamires Rodrigues

25/12/2025 7h00

valor sentimental 1

Foto: Divulgação/Mubi-Retrato Filmes

“Valor Sentimental” confirma Joachim Trier como um dos cineastas mais interessantes da sua geração. Depois de revisitar o amor, a dúvida e o tempo em “A Pior Pessoa do Mundo”, o diretor retorna nesta quinta-feira (25), com uma comédia dramática que transforma um encontro de família em laboratório emocional e em espelho incômodo sobre como contamos nossas próprias histórias. Tudo acontece em torno de uma atriz, de um pai ausente e de uma casa cheia de memórias que insistem em não descansar.

Nora Borg, vivida com delicada intensidade por Renate Reinsve, cresceu sem conviver de fato com o pai, o cineasta Gustav. Ele é interpretado com uma vulnerabilidade cortante por Stellan Skarsgård, que parece carregar décadas de escolhas mal resolvidas nos ombros. A morte da mãe reúne as irmãs na velha casa da família, espaço que respira passado em cada canto. É ali que Gustav aparece sem cerimônia, como se nada estivesse pendente. A partir desse reencontro tenso, Trier organiza seu teatro de afetos.

052a48ec42d06a160145e73af877c3c5
Foto: Divulgação/Mubi-Retrato Filmes

A proposta de que Nora protagonize um filme escrito pelo próprio pai funciona como gatilho para o conflito central. Não se trata apenas de trabalho. É uma tentativa de aproximação tardia, egoísta e sincera ao mesmo tempo. Quando ela recusa e ele decide filmar mesmo assim, usando outra atriz para interpretar sua filha, o jogo de espelhos começa. O cinema vira mecanismo de fuga e também instrumento cruel de exposição.

O filme revela, com humor irônico, o modo como artistas reinventam o passado para sobreviver às próprias culpas. A presença de uma estrela americana, interpretada com charme por Elle Fanning, acrescenta um contraste interessante entre glamour e desgaste emocional. Trier brinca com entrevistas vazias, egos inflados e discursos ensaiados. Não há moralização, apenas observação atenta sobre gente que busca significado enquanto tropeça.

valor sentimental 4
Foto: Divulgação/Mubi-Retrato Filmes

A casa onde tudo acontece é um personagem por si só. Ela guarda segredos antigos, silêncios pesados e pequenas lembranças de felicidade. Trier conduz o espectador por esse espaço com cuidado quase literário, como se cada parede tivesse uma história a contar. A mistura de nostalgia e dor cria um clima que oscila entre o aconchego e a inquietação.

Renate Reinsve constrói Nora como alguém que tenta se proteger do passado sem perceber que ele continua guiando suas escolhas. Já Skarsgård entrega um pai que é ao mesmo tempo carente, talentoso, infantil e devastador. Não existem monstros nem santos. Apenas adultos tentando negociar com falhas que começaram muito antes deles.

valor sentimental 2
Foto: Divulgação/Mubi-Retrato Filmes

O tema da liberdade artística atravessa o roteiro. Até que ponto a vida pode ser usada como matéria-prima para a criação. E o que acontece quando essa criação machuca quem está por perto. Trier propõe essas perguntas sem didatismo, deixando que os gestos, olhares e hesitações façam o trabalho.

Há beleza também nas pequenas fugas cômicas. Ensaios, conversas desconfortáveis, momentos de constrangimento social. O riso surge como proteção, nunca como fuga total. A trilha sonora e os enquadramentos cuidadosos sublinham esse jogo entre leveza e dor, prova de que forma e emoção caminham juntas no cinema de Trier.

valor sentimental mubi
Foto: Divulgação/Mubi-Retrato Filmes

Quando o filme finalmente encara a relação pai e filha em toda a sua complexidade, o resultado é de uma honestidade rara. “Valor Sentimental” fala sobre culpas transmitidas, pedidos de desculpa interrompidos e tentativas de reaproximação que nunca são limpas ou lineares. Cada gesto carrega amor e ferida ao mesmo tempo.

Conclusão

No fim, o que fica é a ideia de que família é um lugar imperfeito onde ninguém sai sem marcas, mas onde ainda pode existir ternura. Trier transforma esse material íntimo em cinema vivo, pulsante e profundamente humano. “Valor Sentimental” não é apenas um drama familiar. É uma reflexão sobre como criamos narrativas para sobreviver a quem fomos e a quem amamos.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção:
Joachim Trier;
Roteiro: Eskil Vogt e Joachim Trier;
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Lena Endre, Anders Danielsen Lie;
Gênero: Drama;
Duração: 133 minutos;
Distribuição: Mubi/Retrato Filmes;
Classificação indicativa: 18 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Atômica

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado